I Jornada José Comblin PUC/SP & UNICAP

Edelcio Ottaviani

Resumo


I Jornada José Comblin
PUC/SP & UNICAP

 

O presente volume é fruto da I Jornada José Comblin, realizada em junho de 2019 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Organizada pelos líderes dos Grupos de Pesquisa José Comblin (GPJC), Prof. Dr. Edelcio Ottaviani e Profª. Drª. Alzirinha Rocha de Souza, da PUC/SP e UNICAP respectivamente, a I Jornada não seria efetivada sem a valiosa contribuição dos membros do GPJC da PUC-SP, que estudam, aprofundam e difundem a produção do teólogo belga radicado no Brasil. Os Profs. Dr. Paulo Cappelletti (UMESP), Dr. Valter Luiz Lara (UNISAL), Ma. Mariane de Almeida Silva (Faculdade Católica de São José dos Campos) e Ma. Benedita Izabel Rosa (Escola Catequética Diocesana de São José Dos Campos) coordenaram as comunicações; os mestrandos Anderson Frezzato, Edi Gomes Ferreira, Fábio de Oliveira dos Santos Junior, Lucy Mariotti, Pedro Luiz Amorim Pereira, Samuel Sanches e o estudante de Iniciação Científica Wagner Rafael Rodrigues se ocuparam de toda a infraestrutura e dos materiais de divulgação e certificação. A Jornada teve início na noite do dia 05 com uma palavra de acolhida pelo mestrando Pedro Luiz Amorim e o líder do GPJC da PUC/SP, seguida da conferência intitulada Comblin, um leitor dos Sinais dos Tempos (ST) e uma leitura dos ST para hoje”, proferida pelo Prof. Dr. Jung Mo Sung (UMESP). No dia 06, a Jornada foi precedida por um momento de oração, enriquecida pela assinatura do convênio entre os Programas de Estudos Pós-Graduados (PEPGs) em Teologia da UNICAP e PUC/SP e continuada com a segunda conferência, proferida pela Profª. Drª. Alzirinha de Rocha Souza. Logo após, foi realizada a mesa temática intitulada: “Ideologias e Teologias”, composta pelos Profs. Drs. Drance Elias da Silva (UNICAP), Edelcio Ottaviani e Paulo Cappelletti, tendo por mediador o Prof. Me. Domingos Zamagna. À tarde, foram realizadas as comunicações dos alunos pós-graduandos nas áreas de Teologias Bíblica e Sistemática (Grupo 1) e Teologia Prática e Análise Conjuntural (Grupos 2A e 2B). A conferência de encerramento foi realizada pelo Prof. Dr. Flávio Fernando de Souza (Grupo Marista, PR). O evento contou com a presença de vários pesquisadores de outros Estados e de Municípios próximos à cidade de São Paulo, estudantes de teologia e agentes de pastoral interessados no pensamento de José Comblin e nos desafios da Pastoral Urbana. Dentre os ouvintes, contamos com a presença da querida Profª. Drª. Ana Flora Anderson, biblista e revisora exegética da Bíblia de Jerusalém traduzida para o português, contemporânea e amiga do nosso querido teólogo.

Há mais de 61 anos, José Comblin partia com um espírito missionário ao encontro das terras brasileiras. O jovem doutor em teologia, finalmente, acalmava seu coração que, havia anos, batia ansiosamente por levar a boa notícia de Jesus aos mais distantes rincões. O propósito do apóstolo Paulo de disseminar práticas e valores pautados no modo de ser de Jesus, ele o faria seu. Finalmente, depois de muita insistência, seu desejo de se tornar missionário estava se realizando. Por duas vezes, em 1955 e em 1957, expusera a seu Cardeal Joseph Ernest van Roey a vontade de partir em missão. Certamente, sua inteligência e capacidade teológica retardaram o assentimento do Cardeal. Talvez S. Emcia. tivesse outros planos para ele no interior da Igreja de seu país ou mesmo na famosa Universidade Católica de Lovaina, que apresentava ao jovem teólogo a possibilidade de uma carreira promissora. Os apelos de Pio XII, na Encíclica Fidei Donum, de abril de 1957, deu o impulso necessário à realização de seus apelos. Comblin partiu para o Brasil em 29 de junho de 1958, passando pelos Aeroportos de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. No dia 30, foi direto para Campinas, onde viveria e, por aproximadamente quatro anos, lecionaria na recém-fundada Universidade Católica. Em 1962, Comblin partiria para o Chile onde permaneceria até 1965. Convidado por D. Hélder Câmara, que o conhecera durante o Concílio Vaticano II, por intermédio de D. Manoel Larraín, bispo de Talca e presidente do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), passa a viver em Pernambuco, sendo um dos fundadores do Instituto de Teologia do Recife (ITER). Perseguido pelos militares e expulso do país em 1972, por causa de suas análises críticas a respeito das conjunturas intra e extra eclesiais, passa a viver no Chile até 1980. Nesse mesmo ano, a mão forte e tirânica de Pinochet, a exemplo dos algozes da ditadura brasileira, expulsa-o também do país de Allende. De retorno ao Brasil, passa a viver como turista itinerante até receber de novo, pelo empenho da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e de D. Paulo Evaristo Arns, seu visto de permanência no país. Radicado na Paraíba, sob os auspícios de D. José Maria Pires nos anos noventa, passa seus últimos dias na diocese de Barra (BA), junto àquele que julgava um profeta dos tempos atuais, D. Luiz Flávio Cappio.

Comblin tem uma vasta produção teológica (mais de setenta livros publicados e quinhentos artigos escritos em várias línguas). Destaca-se por aquela que ele julgava sua maior contribuição à teologia latino-americana, a Pneumatologia, e por ter sido um dos primeiros teólogos a refletir e a escrever sobre a Pastoral Urbana. Este dossiê traz à luz elementos de seu pensamento em diálogo com diferentes áreas da teologia e de outros saberes, tais como as ciências sociais, a filosofia e a história. Na conferência transformada em artigo, intitulada “As transformações do cristianismo na América Latina: contribuições de José Comblin”, a doutora em Teologia pela Université Catholique de Louvain, Alzirinha Souza, traz à tona parte de sua pesquisa pós-doutoral que reflete, entre outras coisas, sobre o futuro do Cristianismo e da Religião no mundo atual; apresenta as reflexões de Comblin a respeito do assunto, desenvolvidas por ele numa série de artigos publicados sobretudo em espanhol; fala da impossibilidade de a Igreja voltar ao projeto de Cristandade, muito embora haja um desejo entre os novos movimentos e comunidades de restabelecê-lo; e defende que o futuro do Cristianismo está entre os leigos e na fidelidade ao Evangelho, muito mais do que na profusão de normas e de dogmas promulgados pelo poder clerical. O segundo artigo, que tem por título “Pautas para a Evangelização da cidade, hoje”, é de autoria de Flávio Fernando de Souza, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) e mestre em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Ele aprofunda a Conferência de encerramento da I Jornada. Em seu texto, Flávio parte das preocupações de José Comblin e estabelece um diálogo com diferentes autores que se dedicaram a analisar o fenômeno urbano, para pensar o modo mais eficaz de anunciar o Evangelho nos espaços e temporalidades próprios aos contextos contemporâneos. Toma a realidade dos sujeitos interlocutores e as subjetividades urbanas como pontos de partida dos processos de evangelização das cidades e as alinha à representação de uma “Igreja em saída rumo às periferias existenciais”, como tem apontado insistentemente o Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013).

Como aprofundamento da mesa temática “Ideologias e Teologias”, o terceiro artigo, de autoria do Prof. Dr. Drance Elias da Silva, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), procura explicitar os interesses sociais que condicionam o fazer teológico de José Comblin e o papel que a suspeita ideológica tem em seu modo de fazer teologia. Ressalta também a importância das ciências, em particular das ciências sociais (sociologia, economia, ciências políticas e antropologia) no pensamento do autor, para analisar a libertação da fome, da opressão e da exclusão social que constituem um dos maiores desafios para a Evangelização da América Latina e dos países abaixo da linha do Equador. O quarto artigo, de minha autoria, apresenta a busca pela verdade, em contraposição às ideologias religiosas, políticas e econômicas no acontecimento José Comblin. Ao analisar as ideologias que permearam três momentos significativos de sua vida (vinda à América Latina como padre Fidei Donum, expulsão do Brasil e do Chile em nome da Ideologia da Segurança Nacional, globalização do neoliberalismo), procuro mostrar a fidelidade de Comblin à verdade que brota do Evangelho, testemunhado no modo libertador de Jesus contra toda forma de dominação, tornando-se, ele mesmo, um acontecimento.

Os três artigos que compõem a terceira e última parte do dossiê, dizem respeito a temas ligados, direta ou indiretamente, ao nosso autor. O artigo “Pensar com Francisco Taborda: hacia una teología fundamental de los Sacramentos en nuestros dias” – de autoria do Prof. Dr. Pedro Rubens Ferreira Oliveira, doutor em Teologia pelo Centre Sèvres de Theologie, Facultés Jésuites de Paris (France) e Reitor da UNICAP – propõe uma releitura do clássico da teologia latino-americana, “Sacramentos, práxis e festa”, de Francisco Taborda, no contexto atual, bem diferente daquele em que foi escrito (anos 80). Pedro Rubens atesta que o epíteto “clássico” se deve ao fato de ser “un libro que las personas no suelen decir que están leyendo, sino que siempre lo están releyendo”. Segundo o autor, o livro de Taborda se configura como “teologia fundamental dos sacramentos que reponde aos desafios de uma questão epocal latino-americana, segundo a orientação do Concílio Vaticano II de perscrutar os sinais dos tempos”. A releitura estabelece um vínculo com José Comblin, na medida em que os temas abordados refletem o modo de fazer teologia de nosso autor, partindo da realidade e estabelecendo modos de agir que têm como parâmetro os valores do Evangelho (metodologia do ver, julgar e agir). Taborda relaciona a categoria de “sociedade líquida”, elaborada por Zigmut Bauman, às exigências de uma Igreja em saída pensada pelo Papa Francisco, para repensar a ação evangelizadora a partir de feitos concretos que o papa Francisco valoriza. “Com gestos simbólicos que ele multiplica, ao orientar para uma comunhão da Humanidade com as grandes causas, seu pontificado entra em sintonia com a estrutura de reflexão de Taborda, segundo uma relação dialética entre o feito valorado, gesto simbólico e intercomunhão solidária”. À luz de Taborda, Pedro Rubens se pergunta até que ponto o novo interesse pela “ortodoxia” das liturgias romanas é uma expressão de verdadeira unidade com a Igreja Universal ou uma reação injustificada que afronta o laborioso esforço iniciado pelo Concílio Vaticano II.

O segundo artigo dessa série, “A cidadania romana na Epístola aos Filipenses:um diálogo com José Comblin”, aponta para a perspectiva tão cara ao pensamento combliniano, ou seja, o olhar a realidade a partir de uma leitura atenta das Sagradas Escrituras, em especial dos escritos neotestamentários. O Prof. Dr. Valter Lara, doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), estabelece um diálogo com Comblin, partindo do comentário à carta de São Paulo aos Filipenses, publicado por nosso autor em 1985. Valter alega que “a situação imediata de Paulo prisioneiro é, sem dúvida, motivação importante de um dos três bilhetes que compõem o conjunto da Epístola. Entretanto, a realidade de conflito social, vivida pela comunidade ao enfrentar o modelo sociocultural de desigualdade dominante, explica o caráter da exortação ética em torno da unidade (Fl 2,1-5) e o modelo cristológico apresentado como critério para viver o exemplo de Jesus que se fez escravo (Fl 2,6-11)”.

Por fim, o artigo do Prof. Dr. Flávio Lyra de Andrade, doutor em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), intitulado “Igreja no Nordeste, pastorais sociais e cristianismo da libertação: Assembleia Popular nos anos 2005-2010”, encerra o dossiê. Segundo as palavras do próprio autor, o texto é um “recorte da pesquisa sobre a construção de identidade coletiva dos cristãos na Assembleia Popular, no qual são abordados pastorais e movimentos sociais nos Estados de Pernambuco e Paraíba, situando-os no contexto do Regional da CNBB NE2, no período de 2005 a 2010”. Ao refletir a partir do campo da sociologia da religião em diálogo com a teologia, enfatiza o modo como o cristianismo da libertação se expressa em iniciativa das pastorais sociais, na articulação da Assembleia Popular, constituindo-se como uma tradição político-cultural. Problematiza o trânsito entre os campos político e religioso dos cristãos e dos participantes dessa experiência e traz questões de cunho eclesiológico e político-pastoral, sobre o peculiar contexto das Igrejas Católicas de Olinda-Recife e João Pessoa naquele período. O vínculo com o pensamento de Comblin se dá justamente na análise das Assembleias Populares e da difusão das Comunidades Eclesiais de Base no Nordeste, como um novo modo de ser Igreja, aplicado à relidade latino-americana e alinhado à noção Povo de Deus, expressa no segundo capítulo da Constituição Dogmáticasobre a Igreja (Lumen Gentium).

Eis aqui o fruto de um trabalho coletivo visando o aprofundamento e a difusão do pensamento e da vida do téologo José Comblin, expoente de uma teologia genuína que nasce a partir do solo e dos povos latino-americanos. Aproveito a ocasião para agradecer, em nome de todos os integrantes dos dois grupos de pesquisa José Comblin (PUC/SP e UNICAP), ao coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em Teologia da PUC/SP, Prof. Dr. Matthias Grenzer, e ao editor da Revista “Cultura Teológica”, Prof. Dr. Donizete José Xavier, pelo apoio recebido para a publicação deste dossiê associado ao segundo número da Revista neste ano de 2019.

Agradeço também, de antemão, a todos que se dispuserem a pousar seus olhos sobre essas páginas, na esperança de que o mesmo Espírito, que animou os passos, os ditos e escritos de José Comblin, anime seus passos também. Boa leitura!

 

Prof. Dr. Edelcio Ottaviani

Editor científico ad hoc


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