EDUCAÇÃO BILÍNGUE DE LÍNGUAS DE PRESTÍGIO NO BRASIL: UMA ANÁLISE DOS DOCUMENTOS OFICIAIS

Antonieta Heyden Megale

Resumo


Na era de mundialização da comunicação, globalização da economia e planetarização das relações internacionais, os brasileiros, de forma geral, demonstram um interesse cada vez maior em aprender línguas estrangeiras de prestígio, principalmente, o inglês, devido, não só ao fato de que essa língua exerça o papel de comunicação mundial por excelência, mas, também, pela representação que circula comumente no imaginário nacional de que a língua inglesa proporcionaria maiores possibilidades de ascensão social (RAJAGOPALAN, 2009). Nesse cenário, evidencia-se um crescimento significativo, no Brasil, de escolas bilíngues que têm como línguas de instrução o inglês e o português. A demanda por parâmetros legais que regulamentarizem e norteiem essas escolas torna-se cada vez mais premente em face do aumento do número dessas instituições e, consequentemente, da necessidade de formação de professores que atuem nesse contexto. Embora ainda não tenhamos uma lei em âmbito nacional, os estados do Rio de Janeiro e de Santa Catarina lançaram, em 2013 e 2016, respectivamente, documentos oficiais que estabelecem normas para a oferta da Educação Bilíngue em escolas de Educação Básica. Este artigo tem como objetivo apresentar uma análise crítica das premissas teóricas que embasam esses documentos e discutir a formação do professor esperada de acordo com essas resoluções. A análise desses documentos teve como base os conceitos de educação bilíngue (SALGADO et al., 2009; GARCÍA, 2009; FLORES; BEARDSMORE, 2015; WRIGHT; BOUN; GARCÍA, 2015); cultura (KRAMSCH, 1998; 2001; 2013), interculturalidade (MAHER, 2007a; CANDAU, 2008), repertório linguístico (BUSCH, 2012; 2015) e sujeito bilíngue (GARCÍA, 2009; MAHER, 2007b). Os resultados apontam para o fato de que há uma visão monoglóssica de educação bilíngue, presente nesses documentos, centrada apenas no ensino da língua. Desse modo, propõem uma descrição de professores habilitados para a docência nesse contexto pautada apenas em seus conhecimentos linguísticos, desprezando todo conjunto de saberes pedagógicos relacionados aos componentes curriculares e de conhecimentos teórico-metodológicos relacionados à educação bilíngue e ao bilinguismo. 


Palavras-chave


Educação bilíngue, Documentos oficias, Cultura, Formação de professores

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DOI: https://doi.org/10.23925/2318-7115.2018v39i2a4

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