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O Instituto Ethos e a responsabilidade
social: transparência e monitoramento Hannah
Maruci Aflalo Estudante
de Relações Internacionais na PUC-SP; bolsista FAPESP de
iniciação científica com o projeto “O Instituto Ethos e sua influência global na conduta
socialmente responsável tida como necessária e
desejável”, vinculada ao projeto temático FAPESP Ecopolítica. O Instituto Ethos
define o conceito de responsabilidade social empresarial “como a forma
de gestão que se define pela relação ética e
transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se
relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o
desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos
ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a
diversidade e promovendo a redução das desigualdades
sociais”. (Instituto Ethos, s/d) A
noção de responsabilidade social surgiu na Europa na
década de 1970 e se consolidou na América Latina em 2001, com a
realização da I Conferência de Responsabilidade Social
nas Américas. O Instituto Ethos, criado em
1998 pelo empresário Oded Grajew, teve papel crucial neste processo tanto no Brasil
como na América Latina. Ao adotar padrões de conduta trazidos
de instituições similares da Europa e dos Estados Unidos da
América, o Instituto Ethos se apresenta como
uma nova forma de institucionalização e produção
de verdades1 que criam, reforçam e
renovam o discurso da responsabilidade social por meio da
educação e do monitoramento das empresas em
direção à conduta socialmente responsável. A
emergência do conceito de responsabilidade social e as práticas
que criaram e consolidaram o discurso socialmente responsável (que
ganha espaço dentro do discurso ambiental) determinam hoje novas
expectativas em relação à conduta empresarial. As novas
práticas esperadas das empresas em relação à
sociedade e ao meio ambiente, delineadas e ensinadas pelo Instituto Ethos, começam a configurar um novo tipo de
empresa que se diferencia das empresas das décadas anteriores. A
empresa social, predominante nos anos 1960, se definia por uma atitude
filantrópica: os investimentos sociais eram separados das atividades
lucrativas da empresa e significavam a abdicação de
fração do lucro em prol de um bem social. Esta
concepção deu lugar a um novo tipo de empresa, a partir dos
anos 1990, que passa a incorporar práticas socialmente
responsáveis a suas atividades sem que isso signifique a
redução de seus lucros, mas de modo a permitir, acima de tudo,
sua maximização. Tais empresas são chamadas empresas
cidadãs e buscam exercer sua cidadania por meio da
participação ao seguirem os padrões da conduta
socialmente responsável. O
papel educacional assumido pelo Instituto Ethos
– no sentido de direcionar a conduta das empresas para a
responsabilidade social – e a própria consolidação
do discurso socialmente responsável são sustentados pelas
noções de transparência e monitoramento. A
transparência se coloca como um valor a ser alcançado e, para
tanto, as empresas devem se apresentar publicamente para seus stakeholders2 por meio de
relatórios e balanços sociais. A empresa cidadã,
portanto, é aquela que desenvolve sua participação
exibindo seu papel social de modo aberto e transparente: mais importante do
que ser socialmente responsável é mostrar que o é.
É importante ressaltar que essa transparência, enquanto valor
moral atribuído às empresas, é aqui entendida como
inalcançável, pois a neutralidade não é
possível. A busca pela transparência, no entanto, é o que
incentiva as empresas a desejarem o monitoramento de suas atividades, uma vez
que, quanto mais controladas, mais transparentes se apresentam para seus stakeholders. Dessa forma, uma polícia da vida3 mostra-se presente nas relações
das empresas entre elas mesmas, com seus stakeholders
e na condução das empresas pelo Instituto Ethos. Essa polícia da vida apresenta-se como
desejável e necessária na medida em que todos, enquanto
cidadãos, querem e são convocados a participar, vigiando e
monitorando uns aos outros. Bibliografia
FOUCAUT,
Michel (1979). Microfísica do
poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal. Instituto
Ethos (2005). “Parcerias para uma sociedade
responsável” in Conferência Internacional –
Empresas e Responsabilidade Social. Disponível em http://www.ethos.org.br/CI/apresentacoes/apresetacoes_10-06/BeatGruninger-GestaoDeDialogos.pdf
(Consultado em 15/09/2011) Instituto
Ethos (s/d). “O que é responsabilidade
social empresarial?”. Disponível em http://www.ethos.org.br (consultado
em 10/09/2011) PASSETTI,
Edson (2011). “Ecopolítica:
procedências e emergência” in VEIGA-NETO, Alfredo e CASTELO
BRANCO, Guilherme (orgs.). Foucault: Filosofia
& Política. Belo Horizonte: Autêntica. Notas
1 Entende-se
aqui por “verdade” o que Michel Foucault define como “um
conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a
repartição, a circulação e o funcionamento dos
enunciados” (FOUCAULT, 1979: 14).
2 “Termo
em inglês amplamente utilizado para designar as partes interessadas, ou
seja, qualquer indivíduo ou grupo que possa afetar o negócio,
por meio de suas opiniões ou ações, ou ser por ele
afetado: público interno, fornecedores, consumidores, comunidade,
governo, acionistas, etc.” (Instituto Ethos,
2005).
3 “uma
polícia da vida começa a tomar vulto quando cada cidadão
está convocado a participar, cuidando dos vivos em sua área,
das condutas de cada um” (PASSETTI, 2011: 132). |
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