Revista Direitos Democráticos & Estado Moderno | Faculdade de Direito da PUC-SP
https://revistas.pucsp.br/index.php/DDEM | v.1 | n.16 | p.04-21 | Jan/Abr - 2026
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Direitos Democráticos & Estado Moderno
DOI: https://doi.org/10.23925/ddem.v.1.n.16.72079
Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional
CONSTRUÇÃO DA DESIGUALDADE SOB O VÉU MERITOCRÁTICO
CONSTRUCTION OF INEQUALITY UNDER THE MERITOCRATIC VEIL
Rodrigo Alves Correia
1
Diandra da Silva Valencio Netz
2
Cesar Henrique Marson de Andrade
3
RESUMO
O artigo analisa criticamente a meritocracia e seus impactos nas relações sociais, destacando
como essa lógica, ao valorizar apenas habilidades, esforços e conquistas individuais, contribui
para a marginalização de quem não atinge o mesmo sucesso. Inicialmente, discute-se como a
meritocracia se apresenta na sociedade contemporânea, promovendo a ideia de que o mérito
individual é o principal critério de reconhecimento social. A seguir, o texto aprofunda essa
discussão no campo religioso, especialmente no neopentecostalismo, onde o sucesso ou
fracasso é atribuído à ou à falta dela, naturalizando desigualdades e responsabilizando o
indivíduo por sua condição. Na escola, a meritocracia é reproduzida pela valorização de
desempenhos individuais, ignorando desigualdades de origem e capitais culturais diversos,
transformando o sucesso em privilégio. O artigo também aborda os efeitos negativos dessa
crença: no âmbito coletivo, promove a ideia de autossuficiência e reduz a empatia, dificultando
políticas de equidade; no individual, gera culpa, ansiedade e frustração ao desconsiderar
barreiras estruturais. A pesquisa busca entender como a lógica meritocrática, presente em
1
Professor e Coordenador de Pesquisa e Extensão da Faculdade Favoo Coop, a primeira faculdade cooperativa do
Brasil, possui graduação em Ciências Sociais (Licenciatura) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho (2003), graduação em Ciências Sociais (Bacharelado) pela Universidade Estadual Paulista lio de Mesquita
Filho (2002), mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2006) e
doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista lio de Mesquita Filho (2011). Tem
experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Comportamento Político, atuando principalmente nos
seguintes temas: Mercosul, integração regional, regional integration, elites e human rights.
alves.correia@gmail.com. http://lattes.cnpq.br/5845002432296747. https://orcid.org/0000-0002-7787-545X.
2
Graduada em Direito pela Rede Gonzaga de Ensino Superior - REGES (2012). Regularmente cadastrada na
Ordem dos Advogados Brasileiros (2013). Com experiência profissional prática, como advogada desde 2013.
Experiência na docência, desde 2013, ministrando aulas nos cursos de Administração, Contabilidade e Direito.
Especialista em Direito Constitucional pelo Centro Educacional Anhanguera (2013). Especialista em Direito e
Processo do Trabalho (2021). Especialista em Direito Tributário Empresarial (2023). Mestre em Direitos
Humanos, pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ) MINTER UNIJUI
E FAVOO (2025). di.diandra@hotmail.com. http://lattes.cnpq.br/2705023137939151. https://orcid.org/0009-
0005-7545-8950.
3
Professor na Faculdade FAVOO (COOP), onde atua nos cursos de Graduação em Ciências Contábeis e
Administração, com foco na formação técnica e aplicada dos estudantes. É Mestre em Direito pela Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), em convênio com a Faculdade FAVOO (COOP),
com conclusão em 2025. Graduado em Ciências Contábeis (2002), possui especialização Lato Sensu em Gestão
Econômica e Financeira e MBA em Controladoria e Finanças (2004), ambos pela Faculdade de Ciências
Gerenciais de Dracena. Além da docência, é responsável pelo Departamento Pessoal do Grupo Locatelli, onde
desempenha funções estratégicas na área trabalhista. Atua também como perito contador, elaborando laudos
periciais contábeis, o que reforça seu compromisso com a precisão técnica, a ética profissional e a aplicação prática
dos conhecimentos contábeis e jurídicos. cesar.vha@gmail.com. http://lattes.cnpq.br/3828633123364033.
https://orcid.org/0009-0008-2749-561X.
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campos como a religião e a educação, legitima desigualdades e responsabiliza o indivíduo pelo
fracasso social. Conclui-se que, aplicada de forma acrítica, a meritocracia reforça exclusões
históricas, encobre injustiças sociais e dificulta a construção de uma sociedade mais justa. O
estudo utilizou abordagem qualitativa, com base em pesquisa bibliográfica e método hipotético-
dedutivo.
Palavras-chave: Autoestima; Bem comum; Capital cultural; Desigualdade social;
Meritocracia.
ABSTRACT
The article critically analyzes meritocracy and its impacts on social relations, highlighting how
this logic, by valuing only individual skills, efforts, and achievements, contributes to the
marginalization of those who do not achieve the same success. Initially, it discusses how
meritocracy presents itself in contemporary society, promoting the idea that individual merit is
the main criterion for social recognition. Next, the text delves deeper into this discussion in the
religious field, especially in neopentecostalism, where success or failure is attributed to faith or
the lack thereof, naturalizing inequalities and holding the individual responsible for their
condition. In school, meritocracy is reproduced by valuing individual performances, ignoring
inequalities of origin and diverse cultural capitals, transforming success into privilege. The
article also addresses the negative effects of this belief: on a collective level, it promotes the
idea of self-sufficiency and reduces empathy, making equity policies more difficult; on an
individual level, it generates guilt, anxiety, and frustration by disregarding structural barriers.
The research seeks to understand how the meritocratic logic, present in fields such as religion
and education, legitimizes inequalities and holds the individual responsible for social failure. It
is concluded that, when applied uncritically, meritocracy reinforces historical exclusions,
conceals social injustices, and hinders the construction of a more just society. The study used a
qualitative approach, based on bibliographic research and the hypothetical-deductive method.
Keywords: Self-esteem; Common good; Cultural capital; Social inequality; Meritocracy.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Vivemos em uma sociedade onde as relações sociais estão fortemente ancoradas no
valor de troca, influenciadas pela lógica do mercado e pela busca constante por desempenho,
produtividade e reconhecimento. Esse modelo molda não apenas as interações econômicas, mas
também as percepções sobre sucesso, merecimento e justiça social. A valorização da
meritocracia emerge nesse contexto como um princípio organizador das oportunidades e das
recompensas, sugerindo que o progresso individual depende exclusivamente do esforço e das
competências pessoais.
No entanto, essa concepção desconsidera a complexidade das desigualdades estruturais
e as condições iniciais desiguais que marcam a trajetória dos indivíduos. Ao atribuir o sucesso
apenas ao mérito pessoal, a sociedade tende a invisibilizar os fatores sociais, históricos e
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institucionais que influenciam diretamente o desenvolvimento das pessoas. Isso leva a um
enfraquecimento da noção de coletividade e reforça a crença na autossuficiência, resultando na
diminuição da empatia e da solidariedade nas relações interpessoais.
Além disso, ao operar sob essa lógica, a meritocracia pode produzir impactos
psicológicos significativos. Indivíduos que enfrentam dificuldades são frequentemente levados
a acreditar que sua falta de êxito decorre exclusivamente de suas falhas, ignorando as barreiras
sociais que limitam suas possibilidades. Como consequência, sentimentos como frustração,
ansiedade e culpa tornam-se recorrentes, agravando desigualdades e perpetuando ciclos de
exclusão social.
Compreender essa dinâmica é fundamental para não nos deixarmos envolver nessa
trama que naturaliza desigualdades e individualiza responsabilidades. Acreditar cegamente na
meritocracia pode nos levar a uma visão distorcida da realidade, onde o esforço pessoal é
supervalorizado e as barreiras estruturais são ignoradas.
Ao reconhecermos as falácias desse sistema, podemos adotar uma postura mais crítica
e reflexiva, promovendo uma compreensão mais ampla das verdadeiras causas das
desigualdades. Somente assim seremos capazes de fortalecer a empatia, valorizar a
solidariedade e defender políticas públicas que garantam equidade e inclusão. Mais do que
acreditar em um ideal abstrato de justiça, precisamos questionar os mecanismos que perpetuam
privilégios e limitações, permitindo que o debate sobre mérito seja pautado pela realidade e não
por uma ilusão conveniente.
1 MERITOCRACIA E O CAPITALISMO: A FALSIDADE DO SUCESSO
INDIVIDUAL
Diversos elementos das dinâmicas sociais contribuem para a ampla aceitação da
meritocracia como princípio regulador das conquistas e reveses individuais. Nesse cenário, a
meritocracia se consolida como uma justificativa dominante para o êxito ou o fracasso pessoal,
promovendo a crença de que o destino de cada indivíduo é determinado unicamente por seu
próprio esforço e competência, desconsiderando, assim, as desigualdades estruturais que
permeiam a sociedade.
Michael J. Sandel (2020, p. 20-21) nos convida a refletir sobre a relação entre
meritocracia e justificativa moral do sucesso ao afirmar que:
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Em uma sociedade desigual, aqueles que alcançam o topo querem acreditar
que seu sucesso tem justificativa moral. Em uma sociedade de meritocracia,
isso significa que os vencedores devem acreditar que conquistaram o sucesso
através do próprio talento e empenho.
Em teoria, a meritocracia é um sistema em que as conquistas individuais são fruto do
esforço e do mérito pessoal. No entanto, quando aplicada em uma sociedade profundamente
desigual como a brasileira, essa lógica se torna falha. Isso porque ignora as desigualdades
estruturais que determinam, desde o início, as oportunidades de cada indivíduo.
Em um país onde o acesso à educação de qualidade, saúde, moradia e segurança depende
diretamente da classe social e do local de nascimento, o ponto de partida das pessoas é
extremamente desigual. Assim, o caminho até o sucesso é muito mais longo, árduo e, muitas
vezes, inacessível para quem nasce em contextos de vulnerabilidade econômica, social e
familiar.
Portanto, não se trata apenas de esforço ou dedicação, mas sim de reconhecer que, para
muitos, as condições básicas para competir em igualdade de condições simplesmente não
existem. Falar em meritocracia sem considerar essas desigualdades é perpetuar uma visão
distorcida de justiça social.
A distorção e a injustiça social tornam-se ainda mais evidentes quando observadas em
contextos nos quais o indivíduo já se encontra em uma posição de privilégio e sucesso - muitas
vezes por ter nascido nesse cenário, sem que tenha sido necessário qualquer esforço pessoal
significativo. Ainda assim, uma tendência de atribuir tais conquistas exclusivamente ao
mérito próprio, ignorando os fatores estruturais que facilitaram seu caminho, como também as
dificuldades enfrentadas por tantos outros.
Eduardo Moreira (2019) critica a lógica meritocrática ao mostrar como histórias de
exceção, como a de alguém que superou adversidades extremas e alcançou sucesso empresarial,
são usadas para justificar a ideia de que o sistema é justo e igualitário. Para o autor, recorrer a
casos isolados como prova de meritocracia revela uma visão ingênua da realidade social,
marcada por profundas desigualdades estruturais que dificultam a mobilidade para a maioria
das pessoas.
Como destacado pelo próprio Moreira (2019, p.35), “[...] as pessoas esquecem que
existem milhares, talvez milhões de pessoas que [...] também estudaram e trabalharam de
maneira correta e incansável, mas simplesmente não chegaram lá”.
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Os discursos meritocráticos frequentemente se ancoram em narrativas individuais de
sucesso isolado para sustentar a ideia de que o esforço pessoal é o principal fator para a ascensão
social. No entanto, tais exemplos excepcionais contrastam com os dados estatísticos, que
revelam a dificuldade concreta enfrentada pela maioria da população em romper o ciclo da
desigualdade. Como adverte Moreira (2019, p. 36), “[...] o fato de que um evento real vale mais
para formar opinião do que qualquer estatística”, evidenciando como histórias pontuais podem
obscurecer a compreensão da realidade social mais ampla e sistemicamente injusta.
Outro movimento que contribui para a consolidação do discurso meritocrático está
relacionado à mudança de paradigma descrita por Byung-Chul Han (2015). O filósofo aponta
que vivemos uma transição da chamada sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho,
na qual o sujeito deixa de ser visto como alguém submisso a ordens externas e passa a ser
percebido como um agente de si mesmo, empreendedor de sua própria existência. Nesse novo
modelo, a pressão não é mais exercida pela coerção, mas pela autossuperação constante,
reforçando a ideia de que o sucesso - ou o fracasso - depende exclusivamente do esforço
individual, apagando, assim, as estruturas sociais que condicionam as possibilidades reais de
ascensão.
Diante do modo como a meritocracia se infiltra silenciosamente nas instituições sociais
- ora disfarçada de justiça, ora utilizada como critério de pertencimento -, a próxima seção
abordará seus efeitos sobre os sujeitos e os vínculos comunitários. Ambientes como a escola e
a igreja, embora distintos em suas funções, acabam por contribuir tanto para a legitimação dessa
lógica quanto para a fragilização da autoestima e a corrosão da solidariedade, especialmente
entre os que não conseguem atender às exigências de performance e reconhecimento impostas
por essa ideologia.
2 A PRESENÇA SILENCIOSA DA MERITOCRACIA NAS RELAÇÕES SOCIAIS
A meritocracia, enquanto discurso dominante nas sociedades contemporâneas, se
apresenta como um ideal de justiça e igualdade de oportunidades, mas, na prática, opera de
forma silenciosa e seletiva, reforçando desigualdades e excluindo os que não conseguem
atender às expectativas impostas. Em ambientes sociais diversos, como a escola e os espaços
religiosos, a presença desse ideal se manifesta de maneiras distintas - ora como instrumento de
exclusão, ora como possibilidade de acolhimento e pertencimento.
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No contexto religioso, especialmente em comunidades mais periféricas ou
marginalizadas, a lógica meritocrática tende a ser suavizada ou até mesmo subvertida. Nessas
instituições, muitos indivíduos que se encontram à margem das exigências sociais - por falta de
recursos, oportunidades ou reconhecimento - encontram um espaço de escuta, acolhimento e
valorização. A pertença não está condicionada à performance, mas sim à fé, à solidariedade e
ao senso de comunidade, fazendo com que o cidadão se sinta parte de um coletivo que o
reconhece como igual, independentemente de sua posição social ou de suas conquistas
individuais.
Em contrapartida, no ambiente escolar, observa-se frequentemente a reprodução de
uma lógica meritocrática que, ao premiar apenas os melhores desempenhos, invisibiliza e
desmotiva os demais. A prática recorrente de enaltecer exclusivamente o "vencedor" não apenas
limita a noção de sucesso, como também compromete o desenvolvimento de uma educação
inclusiva, que valorize os processos de aprendizagem e o esforço individual em sua pluralidade.
A escola, que deveria ser espaço de construção coletiva e de desenvolvimento integral, acaba
por reforçar hierarquias internas e naturalizar a desigualdade como fruto de "mérito" - quando,
na verdade, reflete uma estrutura social profundamente assimétrica.
Ao observar essas duas realidades, torna-se possível questionar o papel silencioso e
normativo da meritocracia nas relações sociais, especialmente quando ela se instala como
critério de valor e pertencimento, seja no campo educacional, seja nas dinâmicas comunitárias
mais amplas.
2.1. Ambiente religioso
O reconhecimento social configura-se como uma das necessidades mais fundamentais
do ser humano, sendo profundamente ligado à construção da autoestima e do senso de valor
pessoal. Em sociedades marcadas pela ideologia meritocrática, a busca por reconhecimento
torna-se ainda mais complexa, pois o valor de um indivíduo é frequentemente medido por sua
performance, sucesso e produtividade. Nesse cenário, o fracasso não é entendido como
resultado de desigualdades estruturais, mas como reflexo de uma suposta insuficiência
individual - o que acentua ainda mais o sofrimento subjetivo das camadas menos favorecidas.
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Como destaca Pierre Bourdieu (1998), a dominação simbólica
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é exercida com a
cumplicidade daqueles que a sofrem, pois ela se inscreve nas disposições mais íntimas dos
indivíduos. Assim, a busca por reconhecimento acaba sendo mediada por estruturas sociais
desiguais que moldam, desde cedo, aquilo que cada um pode ou não aspirar ser.
É justamente nesse entrelaçamento entre reconhecimento, meritocracia e estrutura
social que se insere o fenômeno religioso como mediador simbólico potente. Entre as
expressões religiosas contemporâneas, Jesse Souza (2024) chama a atenção para o crescimento
do movimento neopentecostal no Brasil, cuja ascensão se deu entre as décadas de 1970 e 1980.
Conforme destaca Souza (2024), ao se eliminar a separação entre o mundo espiritual
e o mundo material, os problemas sociais como a pobreza, a doença ou o desemprego
deixam de ser compreendidos como resultado de desigualdades estruturais e passam a ser
atribuídos a causas espirituais, como a ação do diabo ou a falta de fé pessoal.
Nesse contexto, a crença central de que "se a pessoa não tem uma boa vida, a culpa é
dela" torna-se o eixo legitimador da meritocracia e da desigualdade. O sofrimento individual é
visto como reflexo direto da relação do sujeito com o divino, ocultando as estruturas opressivas
da sociedade.
A religiosidade ética abre a possibilidade de mudança do mundo social e do
nosso comportamento nele. Ela é intrinsecamente revolucionária, ainda que
os compromissos com os poderes mundanos tenham sido, historicamente, a
regra. Com a magia, temos o efeito contrário. Na magia, não oposição entre
a dimensão religiosa transcendente e a dimensão mundana, mas sim
proximidade e contiguidade. Os entes transcendentes são próximos, e seus
favores devem ser conquistados do mesmo modo como fazemos com os
poderosos deste mundo: com presentes, bajulações, elogios e afagos (Souza,
2024, p. 142).
Estamos diante de um paradoxo dentro do movimento neopentecostal: a construção
simbólica de uma suposta igualdade entre os fiéis, que esconde, sob uma linguagem de
irmandade, profundas desigualdades materiais e simbólicas.
No interior dessas comunidades, o fiel pobre é chamado de "irmão" pelo fiel rico. Esse
gesto, à primeira vista, pode sugerir uma igualdade horizontal baseada na comum. No
4
Dominação simbólica é um conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu para explicar uma
forma de poder que se exerce de maneira invisível e legítima, sem o uso direto da força física ou da coerção
explícita. Trata-se de uma dominação que se por meio de símbolos, valores, crenças, normas e classificações
sociais - ou seja, por mecanismos culturais e linguísticos que fazem com que os dominados aceitem sua posição
social como "natural" ou "merecida".
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entanto, essa igualdade é apenas aparente. O uso da linguagem fraterna
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disfarça hierarquias
econômicas e sociais muito reais, criando uma "sensação de igualdade" que não se sustenta na
prática. O pobre permanece em condição de vulnerabilidade, mas agora acredita partilhar de
um mesmo destino espiritual e moral com o rico, o que, paradoxalmente, pode reforçar sua
aceitação passiva das desigualdades, que sua promete uma recompensa futura seja
espiritual, seja material.
Esse sentimento de falsa igualdade também se manifesta em uma prática comum no
interior dessas igrejas: o julgamento moral daqueles que sofrem, mas não pertencem à
comunidade de fé. O “irmão pobre” que frequenta a igreja é acolhido e visto como alguém em
processo de superação espiritual, merecedor de respeito e potencial milagre. o pobre "de
fora" aquele que não crê ou não segue os preceitos do grupo é frequentemente visto como
culpado pela própria miséria, seja por sua "falta de fé", por sua suposta "aliança com o mal" ou
por sua "vida de pecado".
Essa prática de condenação do outro como forma de afirmação de si reproduz e reforça
a lógica meritocrática, pois transforma a fé em uma moeda moral de valor. Nessa perspectiva,
o sucesso deixa de ser coletivo e político para se tornar pessoal e espiritual; e a solidariedade
entre os desiguais é substituída por uma competição simbólica em torno da e da moral. O
reconhecimento social, portanto, é mediado não mais por uma crítica às estruturas de
desigualdade, mas por uma adesão subjetiva ao sistema que as produz.
2.2. O mérito como vitrine
No cotidiano escolar, é comum observar a valorização de alunos que se destacam
academicamente por meio de premiações, certificados, medalhas, menções honrosas e, em
casos mais amplos, reconhecimento público através de murais, redes sociais, painéis internos e
até outdoors espalhados pela cidade. Essas ações, além de enaltecerem o mérito individual dos
estudantes, tornam-se uma estratégia simbólica que associa o bom desempenho discente à
qualidade do ensino oferecido pela instituição.
Esse modelo, fundamentado na lógica da meritocracia, estabelece que o esforço
individual é o principal fator determinante do sucesso acadêmico. Os estudantes que alcançam
5
Essa linguagem fraterna, que mascara desigualdades sob um verniz de igualdade simbólica, também pode ser
observada em outros contextos sociais, como em empresas que adotam o discurso de “família corporativa” ou em
ambientes educacionais que chamam todos de “companheiros” ou “colegas”, mesmo diante de hierarquias claras
de poder, status e acesso a recursos.
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as melhores notas em avaliações externas, olimpíadas ou exames padronizados passam a ser
celebrados não apenas como exemplos a serem seguidos, mas como representantes do "bom
ensino" que a escola afirma oferecer. Assim, o sucesso do aluno é cooptado como uma
evidência direta da eficácia pedagógica da instituição.
Entretanto, essa prática carrega implicações que merecem reflexão. Ao focar somente
nos que atingem os "melhores resultados", corre-se o risco de invisibilizar os percursos
diversos, os contextos desiguais e os múltiplos talentos que não se encaixam nos moldes
tradicionais de excelência acadêmica. A meritocracia, quando aplicada de forma acrítica,
desconsidera fatores socioeconômicos, emocionais e culturais que impactam o desempenho
escolar, transformando o sucesso em um privilégio de poucos, ainda que apresentado como
resultado apenas de esforço pessoal.
Conforme argumenta Jesse Souza (2018), indivíduos oriundos de famílias com maior
capital econômico têm a possibilidade de "comprar" o tempo livre de seus filhos, livrando-os
das pressões imediatas do trabalho e da sobrevivência cotidiana. Isso lhes garante melhores
condições para se dedicarem aos estudos e amplia significativamente suas chances de sucesso
educacional e profissional:
A compra do tempo livre dos filhos está longe de ser o único privilégio
positivo da classe média a ser contraposto aos privilégios negativos das classes
populares. Tão ou até mais importantes são as heranças invisíveis e não
monetárias. A capacidade de concentração, a percepção da leitura como
atividade a ser estimulada, a autodisciplina e o autocontrole, a possibilidade
de incorporação dos pensamentos abstrato e prospectivo tudo isso é
repassado aos filhos da classe média de forma imperceptível, como produto
da mera socialização familiar (Souza, 2018).
No âmbito da reprodução social, a família ocupa um papel central como agente
transmissor de disposições, valores e possibilidades concretas de vida. Jesse Souza (2018)
destaca que essa reprodução não ocorre apenas por meio de heranças materiais, mas sobretudo
pela internalização de limites e aspirações moldadas pelo meio social em que o indivíduo está
inserido. Nesse sentido, ele enfatiza o modo como as desigualdades são perpetuadas de geração
em geração, especialmente entre as classes populares, cuja trajetória é profundamente marcada
por experiências de exclusão e abandono desde a infância:
O filho das classes populares é condenado a reproduzir a falta de aptidão dos
pais, reproduzida secularmente por práticas ativas de exclusão, exploração,
humilhação e abandono. Por conta disso, muitos dos filhos dessas classes, aos
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5 anos de idade, entram na escola como perdedores, condenados ao
analfabetismo funcional e, depois, ao trabalho semiqualificado e
desqualificado (Souza, 2018).
Em sociedades contemporâneas marcadas por uma lógica contratualista, a valorização
do indivíduo passa, cada vez mais, pela sua capacidade de produzir, performar e oferecer algo
em troca. Nesse cenário, o ideal meritocrático se apresenta como um princípio regulador das
relações sociais. A busca por reconhecimento e inserção social, então, acaba reforçando esse
modelo, criando uma espiral que se retroalimenta: quanto mais se exige mérito, mais se valoriza
quem já possui capital social, econômico ou cultural, e mais se deslegitima a condição dos que
não conseguem "oferecer" algo em troca. Como nos ensina Adela Cortina (2025, p. 1496):
os pobres são aqueles que parecem não ser capazes de oferecer nada nas
sociedade baseadas no jogo da troca, no jogo da reciprocidade, que consiste
em dar para poder receber, seja da pessoa a quem se seja da pessoal que
está autorizada a devolver de alguma forma. Essa é a chave de nossas
sociedades contratualistas que o, sem dúvida, muito superiores àquelas
regidas pelo egoísmo selvagem, mas excluem os pobres, porque são
submetidas ao Princípio da Troca e também ao Efeito Matthew, segundo o
qual, “quem tem mais, recebe mais, e quem tem pouco, mesmo o pouco lhe
será tirado (Cortina, 2025, p. 1496).
O efeito é duplamente perverso: ao mesmo tempo em que se valoriza quem já está em
vantagem, retira-se ainda mais daqueles que estão à margem, num movimento que exemplifica
perfeitamente o Efeito Matthew
6
e reforça a exclusão social sob o véu da justiça meritocrática.
A lógica meritocrática frequentemente prioriza o desempenho quantificável e os
resultados econômicos, em detrimento de uma formação crítica, sensível e cidadã. Essa
orientação utilitarista da educação acaba por moldar o ensino às exigências do mercado,
comprometendo seu papel na formação integral dos indivíduos. A filósofa Martha Nussbaum
(2017, p. 17) denuncia com veemência os riscos dessa abordagem, alertando para as
consequências de uma educação voltada unicamente para a produtividade:
Estão ocorrendo mudanças radicais no que as sociedades democráticas
ensinam a seus jovens, e essas mudanças não têm sido bem pensadas.
Obcecados pelo PNB, os países e seus sistemas de educação estão
descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter
6
Trata-se de um fenômeno sociológico e científico que descreve como pessoas ou grupos que possuem
vantagens (como riqueza, reconhecimento ou conhecimento) tendem a acumular ainda mais vantagens ao longo
do tempo, enquanto aqueles com menos recursos tendem a ficar ainda mais para trás. Em outras palavras, "os ricos
ficam mais ricos, e os pobres ficam mais pobres".
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viva a democracia. Se essa tendência prosseguir, todos os países logo estarão
produzindo gerações de máquinas lucrativas, em vez de produzirem cidadãos
íntegros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o
significado dos sofrimentos e das realizações dos outros. É disso que depende
o futuro da democracia (Nussbaum, 2017, p. 17).
Conforme ensinado por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (2023), as classes
sociais disputam poder e reconhecimento em diversos campos - ou seja, em espaços sociais
estruturados com regras e lógicas próprias. Nesse contexto, a meritocracia presente no campo
escolar interage diretamente com o campo profissional. Como mencionado, trata-se de um
espaço em que certos tipos de capital cultural são valorizados, especialmente aqueles orientados
pelo utilitarismo, como os conhecimentos técnicos institucionalizados.
Dessa forma, a escola passa a priorizar o desenvolvimento e o aprimoramento do
capital cultural hegemônico, ou seja, aquele valorizado socialmente - sobretudo pelo mercado
de trabalho. A prática pedagógica que privilegia habilidades técnicas demandadas pelo setor
produtivo, em detrimento dos saberes culturais dos alunos e de outras formas de conhecimento
não legitimadas institucionalmente, contribui para o surgimento de tensões e conflitos no
ambiente escolar.
Nesse contexto, a meritocracia contribui para legitimar o discurso do opressor,
reafirmando sua posição de domínio e superioridade. Ao mesmo tempo, leva o oprimido a
internalizar esse discurso, passando a se reconhecer como alguém inferior. É justamente aí que
reside a falsidade da meritocracia: ela desconsidera as desigualdades de origem e exige
habilidades que, para determinados grupos, parecem “naturais” - não por mérito individual, mas
porque se trata de um capital cultural adquirido no ambiente familiar, por meio das interações
com pais ou cuidadores detentores desse capital. Quando esse aluno aplica tais habilidades no
contexto escolar, está apenas reproduzindo um saber previamente incorporado em casa. Em
contrapartida, os estudantes que não possuem esse capital - aquele exigido e legitimado pela
cultura hegemônica - acabam por se sentir incapazes ou inferiores, sem perceber que estão
diante de uma armadilha social. É nesse mecanismo que se manifesta a incorporação do
discurso dominante.
Diante disso, evidencia-se que a meritocracia no ambiente escolar opera como uma
ilusão de justiça, mascarando as desigualdades estruturais que atravessam o sistema
educacional. Ao padronizar conteúdos e métodos de ensino a partir da cultura dominante, a
escola desvaloriza os saberes de outras origens culturais e impõe critérios de sucesso que
favorecem apenas os que já possuem o capital cultural legitimado. Assim, em vez de promover
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igualdade de oportunidades, a lógica meritocrática reforça hierarquias sociais e culpabiliza o
indivíduo por condições que são, na verdade, coletivas e estruturais.
Na seção seguinte, abordaremos alguns dos danos sociais provocados pela
meritocracia, explorando como essa lógica impacta o sujeito, intensifica o sofrimento psíquico
e contribui para o enfraquecimento dos laços comunitários.
3 EFEITOS SOCIAIS DA MERITOCRACIA
Como abordado, por trás da aparente neutralidade da meritocracia, esconde-se uma
lógica perversa que aprofunda desigualdades sob o disfarce da justiça e da equidade. A crença
de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual desconsidera os marcadores
estruturais que moldam - desde o nascimento - as oportunidades de cada pessoa. Esse modelo,
ao valorizar apenas os "vencedores", produz efeitos silenciosos e profundos: incentiva a
autossuficiência extrema, enfraquece o senso de bem comum, alimenta a aporofobia e
transforma o sujeito em carrasco de si mesmo.
Exploraremos, nesta sessão, alguns dos impactos subjetivos, sociais e simbólicos dessa
lógica meritocrática, evidenciando como ela legitima injustiças ao mesmo tempo em que se
apresenta como promotora de justiça.
Costuma-se afirmar que a educação é um dos principais instrumentos para a superação
das desigualdades sociais - e, em certa medida, essa crença possui fundamento. No entanto,
como discutido anteriormente, os campos escolares operam segundo uma lógica que privilegia
formas específicas de capital cultural, historicamente constituídas e desigualmente distribuídas
entre as classes sociais. Tal configuração resulta em um processo de reconhecimento desigual,
no qual os estudantes oriundos de famílias que não compartilham dos códigos e disposições
valorizadas pelo sistema educacional veem-se frequentemente deslegitimados, sendo rotulados
como desinteressados ou incapazes.
Nesse contexto, a ideologia meritocrática, ao obscurecer as condições sociais de
produção das desigualdades, contribui para a naturalização do fracasso escolar de determinados
grupos. Aqueles despossuídos do capital cultural legitimado tendem a interiorizar sua exclusão
como falha individual, enquanto os que detêm esse capital - adquirido sobretudo no seio
familiar - frequentemente interpretam seu êxito como prova de mérito pessoal. Assim,
reproduz-se um ciclo de dominação simbólica, no qual a excelência acadêmica se converte em
instrumento de distinção e, não raramente, de arrogância social, à medida que os mais
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favorecidos deixam de reconhecer os privilégios herdados e passam a ver sua trajetória como
fruto exclusivo de esforço e talento.
Nesse contexto Sandel (2020, p. 149) destaca que “a classe média alta é definida por
sua conquista educacional e, sempre que dizem ao país que o necessário é mais formação
educacional, estão dizendo: desigualdade não é um fracasso do sistema; é um fracasso seu.
A arrogância anteriormente destacada, observável de forma emblemática no campo
educacional escolar mas não apenas nesse campo , nos conduz a uma reflexão mais ampla
sobre a construção simbólica da autossuficiência. Esse sentimento, frequentemente cultivado
entre os agentes que lograram êxito escolar dentro dos parâmetros legitimados pelo sistema,
não se apresenta apenas como uma percepção individual de competência, mas como um efeito
social da crença meritocrática internalizada. Assim, a autossuficiência revela-se não como
virtude genuína, mas como efeito simbólico de um sistema que transforma privilégios de origem
em méritos individuais, reproduzindo distinções sociais sob a aparência da neutralidade.
Ao estendermos a discussão sobre os efeitos da construção simbólica da meritocracia
em uma sociedade orientada por princípios utilitaristas, observamos que somos continuamente
condicionados a atribuir valor às pessoas com base em sua capacidade de oferecer algo
considerado útil sob a lógica do capitalismo. Nesse modelo, o reconhecimento social não
decorre da dignidade inerente à condição humana, mas da aptidão para produzir resultados
economicamente relevantes. No entanto, não se trata de qualquer habilidade ou contribuição,
mas especificamente daquelas que se alinham aos critérios de eficiência, produtividade e
rentabilidade impostos por uma racionalidade utilitarista e mercadológica. Como consequência,
aqueles que não possuem ou não conseguem mobilizar as competências exigidas por esse
sistema passam a ser desconsiderados, quando não abertamente desprezados, reforçando
desigualdades e alimentando formas sutis - e nem tão sutis - de desumanização social.
A desumanização que tem na exclusão social uma de suas causas é fortemente ressaltado
por Cortina (2020, p. 494):
Essa situação de carência e vulnerabilidade é já em si mesma um resultado da
aporofobia, da atitude de desprezo ao pobre, de desatenção generalizada.
Porém, todas as atitudes em determinadas condições podem chegar a ser
delitos por ação, e não apenas por omissão; nesse caso, contra as pessoas em
situação de exclusão ou em risco de exclusão. Esses delitos recebem hoje em
dia um nome muito significativo, o de crimes de ódio (hate crimes).
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Enrique a discussão ora proposta sobre os danos causados nas pessoas e nas relações
pessoais, cuja raiz está na meritocracia, um mal que atinge milhares
7
de brasileiros e brasileiras:
o alcoolismo.
A discussão proposta por Souza (2024) levanta um ponto significativo sobre os efeitos
subjetivos da ideologia meritocrática, especialmente quando dissociada de uma análise crítica
das estruturas sociais. A crença de que o sucesso é resultado exclusivo do esforço individual -
característica central da meritocracia - pode se tornar uma armadilha psíquica quando
indivíduos, submetidos a condições sociais adversas, não alcançam os resultados esperados.
Nesse contexto, o fracasso deixa de ser compreendido como um reflexo das
desigualdades estruturais e passa a ser internalizado como incapacidade ou insuficiência
pessoal. Esse deslocamento de responsabilidade gera um sofrimento subjetivo profundo, muitas
vezes silencioso, que pode levar ao desenvolvimento de quadros depressivos. A depressão, por
sua vez, encontra no álcool uma válvula de escape momentânea, uma vez que a substância tem
efeitos anestésicos e, em alguns casos, pode atenuar temporariamente sentimento de tristeza,
fracasso e desesperança.
Ao se tornar uma ferramenta de dominação simbólica, a meritocracia contribui para o
silenciamento das injustiças sociais e para o isolamento emocional dos indivíduos. O
alcoolismo, nesse contexto, não é apenas uma doença individual, mas uma expressão de um
sofrimento coletivo invisibilizado por um sistema que romantiza o sucesso e ignora os abismos
sociais.
Não à toa, as doenças da época são a depressão e o alcoolismo causadas,
quase sempre, pela falta de autoestima e autoconfiança. Os sinais dos novos
tempos estão no cotidiano: emprego mal pago, trabalho precário, culto aos
ricos e ódio aos pobres, corte dos gastos sociais (remédios deixam de ser
custeados pelo Estado), desorientação e falta crônica de esperança. Um dos
principais sinais do quadro desolador de ser humilhado o tempo todo é,
precisamente, a fuga na fantasia e na imaginação, que é o destino dos que se
sentem abandonados. Quando a realidade se torna insuportável, a fuga na
fantasia é inevitável para tornar a vida minimamente palatável (Souza, 2024,
p. 14).
7
Entre 2010 e 2023, observou-se uma tendência de queda na prevalência de abstêmios em relação ao consumo de
álcool na população adulta em geral no Brasil. Em 2013, o índice de abstinência atingiu o pico de 65,1%, caindo
para 55,3% em 2023. Paralelamente, o consumo não abusivo apresentou crescimento, passando de 20,6% em 2010
para 23,9% em 2023. Já o consumo abusivo oscilou ao longo dos anos, partindo de 18,1% em 2010 e encerrando
2023 em 20,8%, com o maior índice registrado em 2020 (20,9%). Esses dados indicam um aumento do consumo
de álcool, especialmente em padrões de uso não abstinentes, na população geral adulta. Fonte: Álcool e a Saúde
dos Brasileiros: Panorama 2024. Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).
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Para encerrar esta discussão - ainda que longe de esgotar as múltiplas formas de danos
provocados pela falácia da meritocracia - é importante destacar que estamos diante de uma
mudança de paradigma, como aponta Han (2015). Tal transformação pode ser diretamente
relacionada à meritocracia, uma vez que esta se encontra profundamente enraizada na lógica do
desempenho e na competitividade exacerbada promovida pelo modelo capitalista utilitarista.
De acordo com Han (2015), estamos passando da sociedade da disciplina
8
para a
sociedade do desempenho - uma transição que não apenas redefine as formas de controle social,
mas também intensifica a lógica meritocrática. Nessa nova configuração, o sujeito deixa de ser
coagido por ordens externas e passa a explorar a si mesmo em nome da produtividade,
internalizando a exigência de superação constante. A meritocracia, nesse contexto, não apenas
legitima desigualdades estruturais, mas também sustenta a autovigilância e o sofrimento
psíquico, ao impor como norma a competitividade extrema típica do capitalismo neoliberal.
A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera
loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz
depressivos e fracassados.
A mudança de paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de
desempenho aponta para a continuidade de um nível. Já habita, naturalmente,
o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção. A partir de
determinado ponto de produtividade, a técnica disciplinar ou o esquema
negativo da proibição se choca rapidamente com seus limites. Para elevar a
produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do
desempenho ou pelo esquema positivo de poder, pois a partir de um
determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um
efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento (Han, 2015, p. 22-23).
Diante dos aspectos aqui expostos, que evidenciam os impactos sociais da meritocracia,
torna-se claro que essa lógica, longe de promover justiça, aprofunda desigualdades estruturais
ao converter privilégios herdados em supostos méritos individuais. Como consequência, produz
não apenas exclusão material, mas também formas sutis e perversas de desumanização
simbólica, expressas em fenômenos como o fracasso escolar, a depressão, o alcoolismo e a
arrogância social. Tais manifestações não são desvios isolados, mas sintomas de um sistema
que valoriza apenas aqueles que se ajustam à lógica capitalista de desempenho e utilidade.
8
A "sociedade da disciplina", conforme descrita por Michel Foucault, é marcada por técnicas de controle que
visam à docilização dos corpos por meio da vigilância, da normalização e da organização espacial em instituições
como escolas, prisões, quartéis e fábricas. Nessa sociedade, o poder é exercido de forma difusa e contínua,
moldando os indivíduos para que se tornem úteis e obedientes dentro da lógica institucional.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A meritocracia assume diversas faces, assim como os argumentos utilizados para
legitimá-la. Com frequência, seus defensores recorrem a exemplos de pessoas que “venceram
na vida” - indivíduos oriundos de contextos socioeconômicos desfavoráveis que conseguiram
ascender socialmente. Esses casos são frequentemente explorados como evidência de que, se
alguns conseguiram superar os obstáculos, todos os que se encontram em condições
semelhantes também seriam capazes de alcançar o sucesso. Trata-se de um argumento
persuasivo, sobretudo porque exemplos concretos tendem a causar maior impacto emocional
do que dados estatísticos, mesmo que estes revelem uma realidade mais abrangente e complexa.
Dados recentes divulgados pelo Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto
Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), revelam um cenário alarmante: apenas 1,81%
das crianças pertencentes à metade mais pobre da população brasileira conseguem atingir a
renda dos 10% mais ricos na vida adulta. A probabilidade de concluírem o ensino médio é de
49,94%, enquanto apenas 1,94% conseguem concluir o ensino superior. Além disso, 66,59%
permanecem entre os 50% mais pobres ao longo da vida.
Esses dados estatísticos evidenciam um cenário extremamente desfavorável para as
crianças oriundas das classes mais pobres no Brasil, demonstrando as severas limitações de
mobilidade social enfrentadas por essa parcela da população.
Todavia, como mencionado, esses dados acabam sendo ofuscados por casos concretos
de superação individual, frequentemente utilizados para reforçar a lógica da meritocracia. Essa
narrativa, embora inspiradora em nível individual, contribui para naturalizar desigualdades e
perpetuar a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço pessoal, ignorando as
barreiras sistêmicas que limitam as oportunidades de grande parte da população.
No cotidiano, é comum encontrarmos pessoas que se referem à meritocracia como um
valor grandioso, transferindo integralmente ao indivíduo a responsabilidade pelo próprio
sucesso ou fracasso. Curiosamente, até mesmo pessoas mais conscientes e sensíveis às
desigualdades sociais, em certos momentos, acabam reproduzindo essa lógica, seduzidas pela
aparente justiça que a meritocracia promete.
Diante dos casos abordados neste trabalho - exemplificados nos campos do utilitarismo
promovido pelo capitalismo liberal, bem como nas esferas da educação e da religião -, observa-
se que os exemplos individuais de sucesso, frequentemente exaltados, acabam por ofuscar os
dados estatísticos que revelam uma realidade muito mais desigual. Esse descompasso entre os
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casos isolados de superação, de impacto social limitado, e o contexto estrutural mais amplo
contribui para legitimar uma visão distorcida da meritocracia. Tal contradição fornece a base
necessária para a problematização do tema, justificando uma reflexão crítica sobre os limites
da lógica meritocrática em uma sociedade marcada por profundas desigualdades
socioeconômicas.
Quando ignoramos as desigualdades sociais e direcionamos nossa atenção
exclusivamente para os resultados finais, acabamos contribuindo para a legitimação daqueles
que possuem credenciais meritocráticas, ao mesmo tempo em que tornamos ainda mais difícil
a trajetória daqueles que não as têm.
É urgente que, antes de adotarmos um olhar avaliativo sobre os resultados alcançados
por um indivíduo, consideremos, em primeiro lugar, o contexto de onde ele partiu em sua busca
por uma vida melhor. Compreender os diferentes pontos de partida é essencial para uma análise
justa e responsável. É preciso ter plena consciência das diversas realidades sociais, pois ignorar
essas desigualdades significa perpetuar injustiças e reforçar uma visão distorcida de mérito e
esforço.
REFERÊNCIAS
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NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: porque a democracia precisa das
humanidades [recurso eletrônico]. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
SANDEL, Michael J. A tirania do mérito [recurso eletrônico]: o que aconteceu com o
bem comum? [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.
SOUZA, Jesse. A classe média no espelho [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Estação
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SOUZA, Jesse. O pobre de direita [recursos eletrônicos]: a vingança dos bastardos. Rio
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SOUZA, Jesse. Como o racismo criou o Brasil [recurso eletrônico]. São Paulo: Estação
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Recebido 18/06/2025
Aprovado 18/02/2026