Revista de Cultura Teológica - Artigo - Influência da Bíblia na cultura pop: leitura do simbolismo e da linguagem bíblica na HQ A Queda De Murdock de Frank Miller e David Mazzucchelli

Influência da Bíblia na cultura pop: leitura do simbolismo e da linguagem bíblica na HQ A Queda De Murdock de Frank Miller e David Mazzucchelli

Influence of the Bible in Popular Culture: A Reading of Biblical Symbolism and Language in Frank Miller’s and David Mazzucchelli’s Born Again


Carlos Caldas

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, com pós-doutorado (PNPD-CAPES) pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o GPPRA – Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. E-mail: crcaldas2009@hotmail.com 


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Resumo
Em 1994 o teólogo brasileiro Antonio Manzatto publica pelas Edições Loyola Teologia e literatura. Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. A obra é a versão em forma de livro de sua tese de doutorado em teologia defendida no ano anterior na prestigiosa Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve) sob a orientação de Adolphe Gesché. A obra, a pioneira de seu gênero no Brasil, abriu caminho para um sem número de publicações no diálogo entre teologia e literatura. O presente artigo pretende humildemente prestar homenagem à contribuição de Manzatto aos estudos de teologia e literatura a partir de dois vieses diferentes do originalmente proposto pelo doyen deste diáologo no Brasil: um viés será a utilização de texto proveniente da assim chamada cultura pop, neste caso, as histórias em quadrinhos. Outro será a aproximação teórico-metodológica: o pressuposto teórico do presente artigo é o sugerido pelo crítico teórico canadense Northrop Frye, que a Bíblia é o “grande código” da arte e da cultura ocidentais. Para tanto, o presente artigo tem a intenção de apresentar a influência da Bíblia no arco da história em quadrinhos A queda de Murdock, de Frank Miller e David Mazzucchelli. Há de se observar que o título original deste arco em inglês é Born Again, citação direta do Evangelho de João. E no decorrer da narrativa podem ser identificadas imagens,simbolismos e linguagem bíblicas. Este artigo pretende apresentar como este arco reflete o tema do justo sofredor, tema que aparece no livro bíblico de Jó, na profecia de Isaías e que será aplicado a Jesus no Evangelho de Lucas. Além disso, o artigo também pretende apresentar o personagem Demolidor neste arco como uma figura do Cristo sofredor.

Palavras chave: Teologia nerd – Cultura pop – Bíblia – Histórias em quadrinhos

Abstract
In 1994 Brazilian theologian Antonio Manzatto published through Loyola Publishers his Teologia e literatura. Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado. This work is a version of his doctoral dissertation in Theology he received in the previous year in the famous Université Catholique de Louvain (Louvainla-Neuve) under the supervision of Adolphe Gesché. The work, the first of its kind in Brazil, paved the way for a number of publications on the dialogue between theologya nd literature. This article humbly intends to pay a homage to Manzatto’s contribution to the studies of theology and literature, from two vantage points that are different of the ones proposed by the doyen of such a dialogue in Brazil: one will be the using of a text that belongs to the so called pop culture – a comics book. The other will be the theoretical and methodological approach: the theoretical presuposition of this article will the one suggested by Canadian literary critic Northrop Frye: the Bible is the “great code” for art and literature in the West. Therefore, this article intends to present the influence of the Bible in popular culture in Frank Miller’s and David Mazzucchelli’s Born Again arc story. The basic presupposition of this paper is: the biblical imagery is central to understand Frank Miller’s Born Again. Starting by the title itself, which is a direct quote from the Gospel of John. And throughout the entire narrative one can identify biblical imagery, language and symbolism. This article intends to show how this specific story arc reflects the theme of the suffering righteous, a theme that can be found in the book of Job, in the prophecy of Isaiah and that will be applied to Jesus in Luke’s Gospel. Besides, the paper intends also to portray the Daredevil character in this story arc as a figure of the suffering Christ.

Keywords: : Nerd Theology – Pop Culture – Bible – Comic Books

Introdução

Tornou-se praticamente axiomática a afirmação do crítico literário canadense Northop Frye (1912-1991) que a Bíblia é o “grande código” da cultura e da arte ocidentais. Frye, na introdução de seu clássico Código dos Códigos), narrando na primeira pessoa do singular seu trabalho como crítico da obra de John Milton e William Blake, afirma: “Logo compreendi que um estudioso da literatura inglesa que não conheça a Bíblia não conseguirá entender o que se passa” (FRYE, 2004, p. 10). Prosseguindo, Frye diz: “A Bíblia certamente é um elemento da maior grandeza em nossa tradição imaginativa, seja lá o que pensemos acreditar a seu respeito” (FRYE, 2004, p. 18). Frye reconhece que a Bíblia influenciou e influencia não apenas estruturas narrativas literárias ocidentais, mas a própria crítica literária: “Muitos pontos relevantes da teoria crítica de hoje tiveram origem no estudo hermenêutico da Bíblia. Muitas abordagens contemporâneas da crítica têm raízes obscuras numa síndrome do tipo Deus-está-morto, que também se desenvolveu a partir de uma leitura crítica da Bíblia” (FRYE, ibidem). Seguindo a intuição de Frye, o presente artigo se aproximará de seu objeto de estudo pressupondo “a Bíblia enquanto uma influência imaginativa” (FRYE, 2004, p. 21).

Todavia, no que diz respeito especificamente à recepção e influência da Bíblia na literatura ocidental, a quase totalidade das pesquisas, análises e críticas que trabalham a partir do conceito de intertextualidade concentra sua atenção na assim chamada literatura “canônica”, também conhecida como “alta literatura”. De fato, arquétipos, símbolos e imagens extraídos da Bíblia são encontrados à farta na poesia e na prosa do Ocidente. Escritores ateus e cristãos têm encontrado na Bíblia inspiração para a construção de personagens, enredos e até mesmo da própria estruturar literária de suas obras. Nesta perspectiva, é possível afirmar que, sem a Bíblia, a cultura ocidental não conheceria obras como La Divina Commedia (A Divina Comédia), de Dante Alighieri, Paradise Lost Paradise Regained (Paraíso Perdido e Paraíso Reconquistado), de John Milton, Idiot (O Idiota), de FiódorDostoievski, a tetralogia Joseph undseine Brüder (José e seus irmãos), de Thomas Mann, sem embargo da menção de outros clássicos de estilos literários tão diferentes um do outro como The Power and the Glory (O poder e a glória), de Graham Greene, e a trilogia The Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis), de John R. R. Tolkien. Ecos da Bíblia na cultura literária podem ser ouvidos mesmo escritores sem uma tradição religiosa definida, como Machado de Assis – vide seu Esaú e Jacó, e o pessimismo quase niilista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, que faz lembrar o Coehelet (Eclesiastes) bíblico, ou assumidamente ateus – como entender Moby Dick, de Herman Melville, ou, mais recentemente O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim, de José Saramago, sem um conhecimento da linguagem, de figuras, metáforas e símbolos presentes em textos bíblicos? O mesmo poderia ser dito de Eyeless in Gaza (Sem olhos em Gaza), de Aldous Huxley. A saga de Rute – a trajetória da moça pobre e trabalhadora que é “salva” de sua condição de penúria ao se casar com um homem rico – inspirou um sem número de enredos de telenovelas na história da teledramaturgia brasileira. A Bíblia tem inspirado, de um modo ou de outro, não apenas escritores de tradição cristã, sejam estes cristãos assumidos ou não. E nem poderia ser diferente: sendo a Bíblia literatura hebraica, nada mais natural que ouvir seus ecos em escritores de origem judaica, como é o caso na literatura brasileira de Manual da paixão solitária, A mulher que escreveu a Bíblia e A balada do falso Messias, de Moacyr Scliar, para ficar apenas em alguns poucos exemplos.

Entretanto, há que se observar que todos os exemplos apresentados são da chamada “alta literatura”. Esta constatação dá ensejo a outra: ecos da Bíblia podem ser ouvidos em obras literárias que não têm lugar no panteão da literatura canônica? Um estudo do status questionis da recepção da Bíblia na cultura literária até o presente momento mostra que, pelo menos na academia brasileira, tanto a academia de crítica literária como a academia que investiga a interface entre teologia e literatura e estudos de religião e literatura, não tem sido dada muita atenção à recepção da Bíblia em outras literaturas. A assim chamada paraliteratura (que não deve ser tomada como uma infraliteratura), representada pelas histórias em quadrinhos (HQ’s) é um exemplo de produção literária não aceita como canônica por muitos críticos literários. Mas um olhar para algumas HQ’s permite ver que há igualmente em muitas delas eco, recepção e releitura de textos e temas bíblicos. É este o caso do arco A queda de Murdock, de Frank Miller (roteiro) e David Mazzucchelli (arte), que se pretende analisar neste artigo. A aproximação a uma obra de HQ’s tendo como referencial teórico o pressuposto que Frye toma emprestado de Blake, que a Bíblia é o “grande código” da arte ocidental é uma ruptura com a aplicação tradicional deste princípio da crítica literária que, como visto, tem sido aplicado apenas à alta literatura. Mas não seria forçado imaginar que o próprio Frye aprovaria tal utilização de seu princípio hermenêutico. Conforme observado pelo pesquisador brasileiro Anderson de Oliveira Lima, “... [a] abordagem literária da Bíblia das últimas décadas tem potencial para estabelecer um diálogo frutífero com a leitura popular e religiosa, e isso é algo que ainda precisa ser explorado” (LIMA, 2015, p. 75). É o que se pretende demonstrar na sequência deste artigo.

HQ’s como objeto de estudo acadêmico

Como afirmado en passant no final do segundo parágrafo da introdução, há da parte de alguns críticos literários, e de igual maneira, de alguns teólogos e cientistas da religião um virtual desconhecimento das HQ’s. Não obstante, um olhar desarmado para este material permitirá descobrir que HQ’s podem ser tão densas, profundas e complexas como qualquer obra da alta literatura, e pela mesma forma, podem se prestar a um diálogo com os estudos de religião e com a teologia do mesmo modo que obras literárias de autores canônicos como Dostoievski ou Guimarães Rosa.

O teórico italiano Umberto Eco (1932-2016) é pioneiro no estudo do que denomina “romance popular”, que de certa forma, é um precursor das HQ’s. Em O Super-Homem de massa (ECO, 1991) Eco apresenta um estudo do romance popular europeu, que surge em meados do século XIX, o feuilleton, publicado em série em jornais, que era consumido com avidez por um número imenso de leitores (e ouvintes, no caso de analfabetos, que pediam para que leitores alfabetizados lessem para eles)1 . Eco analisa o impacto de obras como, interalia, Les Mystères de Paris, de Eugène Sue, e Vathek, de William Beckford, e, já na literatura do século XX, Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, e os romances de James Bond (o agente secreto britânico 007), de Ian Fleming.Estas considerações de Eco são retomadas em Apocalípticos e Integrados(ECO, 2008). Nesta obra, Eco dirige sua atenção para obras consideradas como sendo de uma estética Kitsch que, por definição, são tidas como sendo de gosto duvidoso (ECO, 2008, p. 69- 128). Mas a abordagem de Eco é “generosa”, por assim dizer, com a cultura de massa. Para Eco, obras artísticas da cultura de massa, sejam estas literárias, musicais ou televisivas, são tão dignas de análises acadêmicas como qualquer manifestação artística canônica. Em Apocalípticos e Integrados Eco também volta sua atenção para HQ’s, o que não fez em O Super-Homem de massa (ECO, 2008, p. 129-163). Posteriormente, Eco apresenta uma análise do Superman, o icônico super herói criado por Joe Shuster e Jerry Siegel em 1938 (ECO, 2008, p. 246-248). Conforme Eco,


Imagem simbólica de particular interesse é a do Superman. O herói dotado de poderes superiores aos do homem comum é uma constante da imaginação popular, de Hércules a Sigfried, de Roldão a Pantagruel, e até a Peter Pan. Frequentemente a virtude do herói se humaniza, e seus poderes, ao invés de sobrenaturais, são a alta realização de um poder natural – a astúcia, a velocidade, a habilidade bélica, e mesmo a inteligência silogisticizantee o puro espírito de observação, como acontece em Sherlock Holmes. Mas numa sociedade particularmente nivelada, onde as perturbações psicológicas, as frustrações, os complexos de inferioridade estão na ordem do dia; numa sociedade industrial, onde o homem se torna número no âmbito de uma organização que decide por ele, onde a força individual, se não exercitada na atividade esportiva permanece humilhada diante da força da máquina que age pelo homem e determina os movimentos mesmos do homem – numa sociedade de tal tipo, o herói positivo deve encarnar, além de todo limite possível, as exigências de poder que o cidadão comum nutre e não pode satisfazer (ECO, 2008, p. 246-247).


Eco é um dos primeiros estudiosos da arte e da linguagem a considerar em suas análises o “romance popular” e, posteriormente, como visto, as HQ’s. Depois de Eco outros estudiosos também elegeram as HQ’s como objeto de estudo. Como exemplos podem ser citadas as coletâneas de divulgação de temas filosóficos da série Cultura Popular e Filosofia, títulos originalmente publicados pela editora estadunidense Open Court, um selo da editora Carus. Muitos destes títulos foram publicados no Brasil pela editora Madras. Dentre os interessam mais de perto aos propósitos do presente artigo encontram-se WHITE, ARP,IRWIN (2008), MORRIS, MORRIS (2009), WHITE (2009), HOUSEL, WISNESKI(2009), WHITE (2014), IRWIN, WHITE (2015). Como o próprio título de cada uma destas coletâneas indica, o foco principal de abordagem é a filosofia. E há nestas obras uma preferência, pode-se dizer, pela filosofia da religião, o que as torna úteis para um diálogo entre HQ’s e estudos de religião e HQ’s e teologia.

No Brasil, já na segunda metade da década de 1970 fui publicada uma coletânea organizada pelo jornalista Álvaro de Moya com título sugestivo e apropriado: Shazam! (MOYA, 1977). Nesta coletânea há colaborações de autores inusitados, como o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa e o humorista Jô Soares. O mesmo autor publicou alguns mais tarde outro estudo histórico sobre o tema das HQ’s (MOYA, 1986). Ainda dentre os pioneiros dos estudos sobre HQ’s no Brasil há de mencionar as pesquisas de Sonia Bibe-Luyten (BIBE-LUYTEN, 1985) e do Professor Valdomiro Vergueiro, da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), onde organizou e coordena o Laboratório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP. Bibe-Luyten apresenta uma história das HQ’s, tendo como foco produções europeias (especialmente italianas e francesas) e brasileiras. HQ’s estadunidenses são citadas em seu levantamento histórico apenas en passant. Valdomiro Vergueiro por sua vez tem foco na possibilidade de uso de HQ’s como ferramenta didática (VERGUEIRO, RAMA, 2004; VERGUEIRO, RAMOS, 2009; VERGUEIRO, SANTOS, 2015). Em obra mais recente, Vergueiro apresenta considerações interessantes e importantes sobre a legitimidade da cidadania acadêmica do estudo de HQ’s, quando fala da “legitimação cultural e científica das histórias em quadrinhos” (VERGUEIRO, 2017, p. 11-42). Conforme Vergueiro,


Algumas (HQ’s) apresentam uma visão acerba e crua da sociedade, em desenhos aparentemente grotescos e mesmo horripilantes. Outras buscam proporcionar deleite estético em níveis similares aos proporcionados pelas outras artes, inspirando-se abertamente em grandes obras de representação pictórica universal. E todas elas, sem exceção, propugnam a utilização da arte gráfica sequencial para expressar narrativas complexas e profundas, que levam seu leitor a mergulhar nos meandros do fazer artístico e experimentar sensações que se elevam bem acima do corriqueiro (VERGUEIRO, 2017, p. 42).


Nesta mesma linha, enquadra-se a pesquisa de Paulo Eduardo Ramos (RAMOS, 2009).

Em suma: este levantamento sobre o estado da arte de HQ’s como objeto de estudo acadêmico é sugestivo, não tendo pretensão de exaustividade. Para os propósitos do presente artigo é suficiente, pois mostra como há pelo menos quarenta anos pesquisadores que trabalham com diferentes pressupostos teóricos e diferentes metodologias em diferentes áreas do saber elegeram HQ’s como objeto de suas análises críticas.

O tópico seguinte deste artigo afunilará o foco para as HQ’s como fonte de pesquisa em estudos de religião e teologia, levando em conta especificamente o contexto brasileiro.

HQ’s como fonte para pesquisa em estudos de religião e em teologia no Brasil

Na academia do Atlântico Norte há já alguns anos um interesse em pesquisas no diálogo entre Bíblia e cultura pop. Evidência deste interesse: a Bibleand Popular Culture Unit da American Academy of Religion (Sessão ‘Bíblia e Cultura Popular’ da Academia Americana de Religião), a maior entidade acadêmica de estudos de religião e teologia do planeta, abrigará em sua reunião de 2019 2 três mesas sobre religião e cultura popular e Bíblia e cultura popular, sendo uma destas em conjunto com a reunião da Society of Biblical Literature (Socied ade de Literatura Bíblica). Uma destas mesas tratará exclusivamente da questão da presença (e ausência) da Bíblia e da religião em geral, no mundo das HQ’s3.

Mas o interesse do presente artigo é apresentar, posto que em síntese, sobre o diálogo entre HQ’s e teologia e HQ’s e religião no Brasil. Quanto a isso, obrigatoriamente há que se mencionar a contribuição do jovem pesquisador brasileiro Iuri Andréas Reblin, pioneiro nesta interface na academia nacional. REBLIN (2008) apresenta de maneira descritiva e analítica uma introdução ao tema das HQ’s. conforme o próprio Reblin, sua pesquisa “procurou introduzir o universo da superaventura por meio de abordagens atípicas, a fim de se vislumbrar uma visão mais holística desse universo mágico e encantador” (REBLIN, 2008, p. 111). Merecem destaque as considerações de Reblin sobre as “perspectivas religiosas dos super-heróis” (REBLIN, 2008, p. 91-109). Reblin recorre à teologia da cultura de Paul Tillich como uma possível fundamentação teórica para este diálogo. Conforme Reblin,


Por isso, a pergunta da teologia diante do fenômeno dos super heróis não é se esse é ou não um fenômeno religioso – esta seria uma pergunta deveras superficial e, ao mesmo tempo, eternamente carente de uma resposta que lhe satisfizesse – mas quais são os símbolos que ali se manifestam, “porque o símbolo é a linguagem da fé”4. Assim como o símbolo, a religião é um evento que irrompe da relação que é estabelecida com algo ou com alguém. Ela não surge da abstração, da metafísica, mas sim de um encontro, de uma experiência. Portanto, é pelo caminho dos símbolos que a teologia compreenderá o fenômeno dos super-heróis. Naturalmente, ela não percorrerá sozinha por essa trilha, mas na companhia de suas outras irmãs: a sociologia, a antropologia e a psicanálise (REBLIN, 2008, p. 96).


De acordo com o mesmo autor


Mesmo que axiológica (sic), as histórias dos super-heróis lidam com os anseios e problemas existenciais humanos devido ao seu caráter mítico. Esse contato do ser humano consigo mesmo e com o outro conduz a um “olhar para dentro de si”, a um insight. Por isso, as histórias dos super-heróis são religiosas e ganham expressão nas histórias em quadrinhos. Por todas essas razões, é importante não só sociólogos, psicólogos, mas também teólogos lançarem um olhar crítico sobre os produtos da cultura de massa (REBLIN, 2008, p. 111).


Reblin ofereceu outra contribuição de destaque para o diálogo entre HQ’s e teologia com sua tese de doutorado em teologia defendida na Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, a primeira da história da teologia no Brasil sobre um tema ligado ao mundo das HQ’s. Este trabalho, que por sua ousadia e criatividade, valeu ao autor o Prêmio CAPES de Teses na subárea de Ciências da Religião e Teologia em 2013, foi publicado em forma de livro com um título interessante e diferente: O alienígena e o menino5 (REBLIN, 2015). Se em sua pesquisa anterior Reblin recorreu ao referencial da teologia da cultura de Tillich, em sua tese doutoral o recurso teórico utilizado foi de autor nacional: a partir de considerações de Rubem Alves, Reblin formula o que denomina “teologia do cotidiano”. Nas palavras de Reblin,


A teologia do cotidiano se insere na discussão à medida que as concepções e símbolos religiosos articulados e apresentados nas narrativas da superaventura emergem do cotidiano, isto é, não se trata de argumentações de teólogos ou discurso de instituições religiosas que transparecerão nas narrativas, a menos, é claro, que uma determinada narrativa seja produzida por um teólogo ou um clérigo de uma determinada instituição com o objetivo de transmitir uma mensagem específica. O que se encontrará nas histórias da superaventura serão antes elementos ou elaborações provenientes de uma religiosidade popular, de um imaginário religioso coletivo, atrelado ao contexto social de onde e para onde a história se destina, à religião civil tal como identificada por Robert Bellah (no caso do contexto estadunidense), às motivações e angústias dos artistas que a criam, etc. em outas palavras, o que se encontrará nas diferentes narrativas, ora em maior, ora em menor proporção, são elementos teológicos resultantes de experiências de vida, sujeitos tanto à intencionalidade da narrativa quanto aos valores e às crenças do próprio autor. Aqui vale lembrar que a teologia do cotidiano não é uma nova teologia, nem outra corrente teológica, mas um termo formal que alude à percepção de uma teologia que se imiscui nos meandros da vida cotidiana; trata-se de uma teologia constituída pelo sujeito ordinário no dia a dia e expressa das mais diferentes maneiras. Em outras palavras, as pessoas em sua vida diária não “apenas” têm experiências e vivências religiosas, mas, também, procuram elaborar para si e para os outros, argumentativamente, o que essas experiências significam (REBLIN, 2015, p. 183-184, ênfase do autor).


A partir das intuições pioneiras de Reblin6 outras contribuições têm surgido, de maneira que aos poucos no Brasil neste início de século XXI está a se formar um corpus de pesquisas e pesquisadores na interface entre a literatura das HQ’s e a teologia e os estudos de religião. Esta produção constitui-se no que tem sido chamado de “teologia nerd” (cf. CALDAS, 2015)7.

Apresentando o Demolidor

O Demolidor é um herói diferente dos demais: o conceito do herói, criado em 1964, é de Stan Lee, e o primeiro a desenhá-lo foi o artista Bill Everett8. Stan Lee (1922-2018) foi o responsável pela criação de um sem número de super heróis e super vilões presentes no imaginário popular de literalmente bilhões de pessoas ao redor do planeta. Duas características nas criações de Stan Lee chamam a atenção de quem escolhe o tema das HQ’s como objeto de estudo: a inclusão e a humanização. Evidência de sua preocupação com a inclusão encontra-se na criação do Pantera Negra, de 1966, o primeiro super herói negro da história das HQ’s9 .Evidência de sua preocupação com a humanização encontra-se na criação do Quarteto Fantástico, de 1961: pela primeira vez na história das HQ’s surge uma família dotada de superpoderes10. Eis aí não um super- herói solitário, nem um grupo de voluntários, mas uma família.

Esta breve apresentação de algumas características da criação de Stan Lee tem por objetivo facilitar a compreensão dos leitores quanto ao personagem central do arco que é o objeto de estudo do presente artigo: o Demolidor é cego, ou seja, é o primeiro super-herói da história das HQ’s com deficiência física. Logo, o Demolidor é outro exemplo da preocupação de Stan Lee com a inclusão. Mais uma vez percebe-se aí como HQ’s nem sempre são alienantes e não se resumem a uma literatura de fruição.

Na mitologia do personagem, um menino por nome Matthew – Matt – Murdock, criado por seu pai, um boxeador em fim de carreira chamado Jonathan Murdock. Pai e filho vivem em Hell’sKitchen (“Cozinha do Inferno”), tradicional bairro de classes baixa e média-baixa em Nova York, formado majoritariamente por imigrantes de origem irlandesa. Um dia o menino Matt salva um idoso cego de ser atropelado por um caminhão, que transportava produtos radioativos. O motorista, tentando evitar o atropelamento do menino e do ancião, freia bruscamente, mas o caminhão capota, e um latão da carga é arremessado do veículo. O latão se rompe com o impacto, e parte do seu conteúdo cai exatamente nos olhos do menino, deixando-o cego. Mas acontece o inesperado, e os demais quatro sentidos do menino ficam apurados a um nível sobre-humano. Além disso, Matt adquire uma espécie de sentido de radar (como os morcegos), que eventualmente compensará sua falta de visão11.

Mesmo contra a vontade do pai, Matt aprende a lutar – o pai não quer de modo algum que o filho siga os caminhos dele. Sua vontade é que o filho, ao crescer, se torne ou um médico ou um advogado, para ter uma vida financeiramente mais tranquila. Matt em parte faz o que o pai deseja, pois se forma em Direito. Mas desenvolve uma vida dupla: de dia, é um advogado, e de noite, um herói fantasiado e mascarado, que persegue e prende criminosos. De um modo ou de outro, Matt Murdock luta pela justiça. Escolhe “Demolidor” como nome do seu alter ego. Seu uniforme é vermelho12, com duas letras D sobrepostas no peito (de Daredevil, o nome do super herói no original), e uma máscara com dois pequeninos chifres, o que faz lembrar a representação do diabo no imaginário popular ocidental. A intenção é assustar e amedrontar os criminosos. Curiosamente, a palavra Daredevil significa “ousado”, “intrépido”, “destemido”13. O sufixo devil – “diabo” – na palavra daredevil pode servir como um intensificador, dando à palavra o sentido de “muito corajoso” ou “corajoso demais”. Não sem razão o Demolidor é conhecido pela alcunha de The Man Without Fear – literalmente, “O homem sem medo”.

As primeiras aventuras do Demolidor tinham todas enredos muito simples, destituídos de profundidade e sem camadas ou sentidos adicionais de leitura14. Cerca de vinte anos depois de criado, o Demolidor estava em um virtual limbo, como um dos heróis menores do panteão da Marvel. Em 1986 o roteirista Frank Miller recebeu convite para escrever uma história para a revista Daredevil. A partir daí acontece uma reviravolta definitiva na história das histórias do Demolidor: Miller escreve o arco Born Again, que no Brasil receberá o título A queda de Murdock, ou seja, o arco que se constitui no objeto de estudo do presente artigo. Miller fez com que uma revista que estava prestes a ser cancelada vendesse milhares e milhares de exemplares, e transformou um herói até então desprezado em um dos personagens mais complexos e amados de todo o universo Marvel.

Para tanto, Miller introduz um elemento fundamental na compreensão do Demolidor: a fé cristã católica de Matt Murdock. Na fase pré-Miller o Demolidor era tão secularizado como qualquer outro dos heróis (e vilões) da Marvel. Miller muda radicalmente esta situação ao apresentar o jovem Murdock como um estadunidense de origem irlandesa que, como todo irlandês que se preza, é católico. Mas o catolicismo de Matt Murdock não é nominal. Ele leva a fé cristã a sério, e sofre com dúvidas e conflitos existenciais e espirituais. Em A queda de Murdock o Demolidor, que é um herói diferente dos outros, enfrentará Wilson Fisk, cognominado Rei do Crime (Kingpin no original15), um vilão igualmente diferente dos outros. Fisk não tem super poderes. É um barão do crime, multimilionário, totalmente inescrupuloso, que usa à farta recursos como extorsão e suborno para conseguir o que quer. A partir daí desenvolve-se a trama, que será apresentada com um pouco mais de detalhes na próxima divisão deste artigo.

Síntese do enredo de A queda de Murdock

Considerando que provavelmente nem todos os leitores terão lido o arco16 A queda de Murdock, nesta parte do artigo será apresentada síntese do enredo da referida história (cf. MILLER, MAZZUCCHELLI, 2014, passim).

Na história, Karen Page, que foi secretária do escritório de advocacia Nelson & Murdock, e namorada de Matt, tornou-se atriz de filmes pornô e está viciada em heroína, em algum lugar no México. Em troca de uma dose da droga, vende para um traficante uma informação: a identidade do Demolidor. O traficante por sua vez vende esta informação para o próprio Wilson Fisk, o poderoso Rei do Crime. No passado, Fisk fora prejudicado em seus negócios escusos tanto pelo advogado cego Matt Murdock como pelo herói Demolidor. Ao saber que os dois são a mesma pessoa, Fisk inicia sua vingança. Acionando seus contatos, faz com que Matt aos poucos perca tudo que tem. Matt descobre que Fisk está por detrás das desventuras em série que o acometem, e vai atrás do lorde do crime. Os dois entram em luta corporal, e pela primeira vez em sua vida, Matt é derrotado: Fisk o espanca impiedosamente. O “Rei” quer vê-lo morto, e simula um acidente, mandando que seus capangas coloquem Matt em um carro, que é jogado no Rio Hudson. Mais tarde o carro é descoberto pela polícia, mas para espanto de Fisk, não há cadáver, nem no carro, nem nas proximidades de onde o veículo fora jogado na água. De algum modo Matt conseguiu sair do carro. Enquanto isso, Karen, de volta aos Estados Unidos, anda pelas ruas como uma sem teto. Matt, também perambulando sem rumo, avista dois assaltantes de rua, tenta impedir um roubo, mas é esfaqueado por um dos marginais. De alguma maneira, é levado para um convento, onde é cuidado por uma freira. Quando recobra a consciência, ao conversar com ela, Matt, usando seus sentidos super aguçados, Matt descobre que aquela senhora na verdade é a sua mãe. Enquanto isso, o Rei do Crime, sabendo que Matt está vivo, contrata alguém que use a fantasia do Demolidor e ordena que assassine Foggy Nelson, o ex-sócio e amigo de Matt. A tentativa é frustrada, porque Matt chega a tempo de salvar a vida do amigo. Depois disso, meio que “por acaso”, acaba se reencontrando com Karen Page. A parte final do arco apresenta de certa forma uma quebra na narrativa, pois apresenta o Rei, desesperado para encontrar Matt, convocando um mercenário conhecido como Bazuca, um militar com transtornos psiquiátricos graves. Bazuca inicia ataques aleatórios contra alvos civis em plena cidade. A estratégia funciona, porque Matt, usando seu uniforme, aparece e ataca o Bazuca. Como a confusão é muito grande, os Vingadores também entram em cena: o Capitão América socorre uma moça que foi baleada, e ordena a Thor, o deus escandinavo do trovão, que invoque uma tempestade para apagar as chamas do incêndio iniciado pelas explosões que o Bazuca provocou. O Demolidor conseguiu dominar o Bazuca, mas o Homem de Ferro diz que os Vingadores manterão o terrorista alucinado sob sua custódia (até então a polícia, o Demolidor e os Vingadores não sabem que Bazuca fora contratado por Fisk). Matt sabe que não é páreo para o Homem de Ferro, e obedece. Mas o Capitão América quer a todo custo saber quem é o Bazuca, e se decepciona quando descobre que na verdade trata-se de uma experiência ultra secreta do exército norte-americano. O alto comando do exército ordena que o Bazuca seja assassinado, para que ele não conte o que sabe, e ele é baleado. Mesmo sendo um criminoso, o Capitão América e o Demolidor se esforçam para salvá-lo, e o levam para um hospital. Os esforços dos heróis se mostram infrutíferos, pois o Bazuca não resiste aos ferimentos e vai a óbito. No fim, a narrativa apresenta Fisk tendo problemas de toda sorte em seus “negócios”, pois surgem muitas denúncias e delações contra ele, associando-o ao ataque do Bazuca, que deixou dezenas de mortos. Toda sua atenção e considerável parte dos seus recursos é destinada a minimizar ou desviar os inúmeros problemas que passa a enfrentar. Matt Murdock retoma sua vida, ao lado de Karen Page, recuperada de seu vício. E a vida continua.

Simbolismo e linguagem bíblica em A queda de Murdock

Antes de prosseguir, uma síntese dos passos seguidos até o momento neste artigo: apresentou-se em primeiro lugar, de maneira sugestiva, como a Bíblia tem exercido influência ao longo dos séculos na literatura ocidental. E constatou-se como até o momento em grande parte os estudos de literatura e teologia e literatura e religião têm voltado sua atenção quase que exclusivamente para a assim chamada alta literatura. Outras possibilidades literárias, como a paraliteratura, representada pelas HQ’s, não têm sido consideradas por muitos críticos literários como sendo algo digno de atenção da parte de acadêmicos. A partir desta constatação, a parte seguinte do artigo apresentou a análise de Umberto Eco do “romance popular”, trazendo exemplos dos séculos XIX e XX, como sendo tão dignos da atenção de teóricos da literatura – e, no caso do presente artigo, também de teólogos e cientistas da religião – como qualquer outra modalidade literária. Também foram apresentados outros estudiosos que têm dedicado sua energia e sua atenção para o estudo das HQ’s. A seguir, apresentou- -se, também de maneira apenas sugestiva, como HQ’s podem ser, e efetivamente têm sido, abordadas a partir de uma ótica da teologia e dos estudos/ciência(s) da religião. Na sequência, apresentaram-se o Demolidor e um resumo do enredo da narrativa de A queda de Murdock.

Após percorrer este percurso, é chegado o momento de apresentar o que se constitui no coração propriamente deste artigo, a saber, a recepção e uso de símbolos, arquétipos, temas e linguagem da Bíblia em A queda de Murdock17.

Por primeiro, há que se observar que o arco foi publicado em série, como que em capítulos, sendo exatamente sete ao todo, a saber:


Apocalipse
Purgatório
Pária
Renascido
Salvo
Por Deus e pela pátria
Armagedon (sic)


A divisão sétupla não é mera coincidência: não são oito, nem seis, mas sete, tradicional número simbólico da perfeição na Bíblia Hebraica. O sete remete à criação do mundo (Gn 2.2). A tradição cristã, herdeira que é da tradição judaica, se apropria deste elemento simbólico do algarismo sete, que é citado por Jesus como associado ao perdão que se deve dar: não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes (Mt 18.22)18. O Apocalipse de João, pródigo em simbolismo aritmético, tem várias referências ao sete: o Cordeiro que João vê, símbolo de Jesus, tem “sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, enviados por toda a terra” (Ap 5.6)19. Na sequência de sua visão, João de Patmos contempla um livro, que é selado com sete selos (Ap 6.1). Na sequência, a narrativa do Apocalipse apresentará sete anjos que tocam sete trombetas (Ap 8.6) e depois, sete taças (Ap 16.1).

Outra observação quanto à recepção e uso da linguagem e de símbolos bíblicos em A queda de Murdock é quanto ao título propriamente do arco, e quanto aos títulos dos seus capítulos: A queda de Murdock é a opção de tradução dos editores brasileiros do arco. No original, o título é Born Again – literalmente, “nascido de novo”, citação diretamente extraída do conhecido diálogo de Jesus com Nicodemos, registrado apenas no Evangelho de João (Jo 3.3-8). A queda de Murdock é tradução interpretativa, e não literal. Em alguma medida está tradução é fiel ao espírito do original, considerando que pelo menos nos dois primeiros terços da narrativa, Matt Murdockestá em queda, visto que o Rei do Crime consegue tirar tudo (ou quase tudo) dele. Todavia, a tradução brasileira do título do arco perde de vista a associação imediata que se faz do título com a palavra de Jesus em João. E, de fato, a narrativa apresentará Murdock como que nascendo de novo, ressurgindo dos mortos qual fênix que ressurge das cinzas.

Observem-se também os títulos dos capítulos do arco: com exceção do terceiro (Pária) e do sexto (Por Deus e pela pátria) os demais são todos ecos ou reflexos, ou do texto bíblico em si (Apocalipse, Renascido, Salvo, Armagedon), ou da tradição cristã (Purgatório). Percebe-se aí que toda a estrutura narrativa do arco reflete uma estrutura religiosa, calcada no texto bíblico e, via de consequência, na tradição judaico-cristã.

Este elemento fica ainda mais evidente quando se observa a sequência narrativa em si: A queda de Murdock é como que uma releitura do livro bíblico de Jó. Miller utilizou o recurso da intertextualidade, e reconta a história do servo de Deus, abnegado, que faz o bem, ajuda ao próximo, mas, a despeito de tudo isso, sofre uma desventura após a outra, até perder praticamente tudo que tem. Na releitura de Miller, Matt Murdock é Jó, e Wilson Fisk é Satanás, “o adversário”. Satanás está por detrás das desgraças que acometeram a Jó (Jó 1.6ss; 2.1-7). Fisk está por detrás de todas as perdas que Matt Murdock sofre.

Eis aí o tema bíblico do justo sofredor. Todavia, antes de analisar a recepção do tema bíblico do justo sofredor em A queda de Murdock, é necessário levantar outra questão: o que caracteriza o herói? E o super-herói? A palavra herói é de origem grega (ήρως), que dá origem à palavra latina heros, de onde vem herói em português, tendo o sentido de “nobre”, e também de “chefe” ou “líder”. Na tradição grega clássica, o herói não é apenas quem realiza feitos notáveis – e a literatura grega é rica em exemplos neste sentido: Aquiles, Perseu, Hércules, Belerofonte são alguns exemplos – mas quem, por e com coragem, tem atos morais de justiça, solidariedade e altruísmo. O super-herói é aquele que, pela via da tecnologia, da ciência, por alterações genéticas (naturais, como os mutantes da Marvel, ou produzidas laboratorialmente) da magia, ou por ser extraterrestre, sendo por isso dotado de condições fisiológicas superiores às humanas, faz o que os heróis fazem, mas em nível superior, por conta de suas condições superiores. Neste sentido, o Demolidor é herói e super-herói ao mesmo tempo: super, no sentido que seus quatro sentidos se tornaram mais aguçados que os dos seres humanos “normais” (entre muitas aspas!), e herói no sentido que toda sua luta é a favor do próximo, e não de si mesmo. Conforme Loeb e Morris, “via de regra, os super-heróis possuem poderes e habilidades muito além da capacidade dos mortais comuns. E eles buscam a justiça, defendendo os oprimidos, ajudando os indefesos e vencendo o mal, com a força do bem” (LOEB, MORRIS, 2009, p. 24). Os dois autores acrescentam: “os super-heróis destacam-se não só por causa de suas roupas e poderes, mas também por seu ativismo altruísta e a dedicação ao que é bom” (LOEB, MORRIS, 2009, p. 26). Referindo-se especificamente ao Demolidor, afirmam: “Matt Murdock abre mão de suas noites, e de boa parte de suas horas de folga, para proteger as pessoas inocentes da Cozinha do Inferno e dos outros lugares” (LOEB, MORRIS, 2009, p. 27).

Após o esclarecimento do que se entende por herói, pode-se prosseguir com a apresentação da releitura do tema bíblico do justo sofredor feita por Miller no arco A queda de Murdock. O tema do justo sofredor tem consideráveis peso e relevância na tradição bíblica. Na narrativa do Gênesis sobre José, filho de Jacó (conhecido na cultura popular brasileira como “José do Egito”) encontra-se aquele que, mesmo tendo feito o bem, sofre e é injustiçado. Em Jó encontra-se a que talvez seja a narrativa mais conhecida deste mesmo tema. Mas este mesmo tema aparece em muitos outros textos bíblicos. Como exemplo, há que se lembrar de muitos lamentos dos Salmos, em que o fiel protesta sua inocência diante de Javé. Scherer (1995) apresenta em detalhes como o tema do justo sofredor aparece em muitas das orações dos Salmos. Conforme Scherer, estas orações têm estrutura tríplice: (a) o justo em relação a Deus, e vice-versa; (b) o justo em relação aos seus acusadores, e vice-versa e (c) Deus em relação aos inimigos do justo, e vice- -versa (SCHERER, 1995, p. 36-37)20. O mesmo tema (se bem que com estrutura literária diferente) aparece também em Isaías, nos famosos “Cânticos do Servo”: Is 42.1-7, 49.1-9, 50.4-9 e 52.13-53.12. Este último, chamado de “Cântico do Servo Sofredor”, é o mais conhecido, por ter sido lido por escritores do Novo Testamento na perspectiva da hermenêutica do sensus plenior como tendo tido cumprimento perfeito na vida e morte de Jesus de Nazaré (Mt 8.17; Lc 22.37; At 8.32-33; 1 Pe 2.24-25). O tema do justo sofredor aplicado a Jesus aparece explicitamente na narrativa lucana da crucificação, quando o terceiro evangelho coloca na boca do centurião romano as palavras: “Verdadeiramente este homem era δίκαιος (díkaios), justo” (Lc 23.47) Por oportuno, é necessário esclarecer que o presente artigo não entrará na discussão sobre a identidade do servo (heb. ebed) em Isaías. Tal discussão fugiria aos objetivos do artigo21. Para os propósitos do presente artigo é suficiente apresentar, posto que minimamente, as características básicas deste tema bíblico. Suficiente também acrescentar que a teologia do servo sofredor é um contraponto à teologia do mérito e da retribuição. Esta última é linear, enquanto a primeira não é. Este tema transparece na narrativa do arco A queda de Murdock: Matt Murdock é dedicado a servir o próximo no exercício profissional da advocacia, e, de igual maneira, seu alter ego, o Demolidor, faz o mesmo, como um herói que esconde sua identidade do público para combater o crime. Mesmo assim, devido ao excesso de dinheiro e à falta de escrúpulos de Wilson Fisk, sua vida se desmorona. Não obstante, ele segue em sua jornada. As desventuras que sofre não o desviam do seu caminho.

Considerações finais

Talvez seja mais acertado dizer que na releitura milleriana em A queda de Murdock encontra-se o tema do herói sofredor. Porque Matt, conforme apresentado, a despeito de suas virtudes, é quase eliminado por um agente da maldade. Há sem dúvida diferenças entre a apresentação do tema do justo sofredor na Bíblia e a narrativa quadrinística de Miller e Mazzucchelli. Por exemplo, não há em A queda de Murdock um momento em que Matt ore protestando sua inocência diante de Deus ou pedindo justiça contra seu inimigo, tal como se vê na literatura bíblica.

Não obstante, a temática bíblica aparece na narrativa. Matt Murdock/ Demolidor é como um tipo de Jó do século XX: sofre injustamente, a despeito de não ter a consciência pesada por alguma falta cometida. Em outras palavras: Matt não merecia passar pelo que passou. Mesmo assim, sofreu perdas grandes. Todavia, o sofrimento e as perdas que experimentou não o fizeram desistir de ser um advogado honesto nem um combatente do crime. Assim como Jó, sua vida ao final lhe foi “devolvida”, por assim dizer.

O presente artigo apresentou uma aproximação ao tema da influência da Bíblia em uma vertente literária até o momento não muito explorada, seja por críticos e teóricos literários, seja por cientistas da religião ou por teólogos, a saber, a narrativa de HQ’s. Certamente outras HQ’s poderão servir para análises semelhantes. A aproximação à cultura pop em suas manifestações mais conhecidas, como são as HQ’s e o cinema, como objeto de estudo do fenômeno religioso, dá sinais de estar em crescimento na academia brasileira. Eis aí uma possibilidade de potencial promissor para estudos da linguagem do fenômeno religioso e de interpretação da experiência religiosa.

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Notas

[1] Eco restringiu o foco de seu estudo do romance popular do século XIX à Europa. Se tivesse incluído a América Latina em sua análise, certamente teria citado O Guarani, de José de Alencar, como exemplo, visto ter sido esta obra do escritor cearense publicada em série no Diário do Rio de Janeiro, em 1857.

[2] A reunião da AAR está agenda para 23-26/11/2019 em San Diego, Califórnia.

[3] Society of Biblical Literature.2019 Annual Meeting.Bibleand Popular Culture.Disponível em:https://www.sbl-site.org/meetings/Congresses_CallForPaperDetails.aspx?MeetingId=35&VolunteerUnitId=336. Acesso em: 14 mai. 2019

[4] Reblin neste ponto cita Tillich (TILLICH, 2001, p. 31).

[5] O título faz referência a dois dos principais super heróis da DC Comics, uma das duas principais produtoras de HQ’s do mundo (a outra, competidora da DC, é a Marvel): o alienígena é o Superman, que, a despeito de sua aparência humana, é um kriptoniano, e o menino é Billy Batson, o garoto que recebeu poderes mágicos e se transforma no Shazam, “o mais poderoso mortal da Terra”.

[6] Há que se recordar que a produção acadêmica de Reblin nesta interface não se resume aos textos ora mencionados. O mencionado pesquisador tem outras publicações nesta interface, na forma de artigos acadêmicos em periódicos especializados. Optou-se no presente artigo por mencionar apenas as produções de sua lavra na área que podem ser consideradas como mais representativas.

[7] Inter alia, SANTOS, SOLLES, ARANTES (2014, p. 269-279), MACHADO, WESSENFELDER (2016, p. 55-68); CALDAS (2017, p. 70-90); CALDAS (2018, p. 211-222).

[8] Para uma apresentação do personagem Demolidor consultar, inter alia, CALDAS (2018, p. 214-215).

[9] Percebe-se aí como HQ’s não são literatura de fuga ou escapista. Antes, podem apresentar um aspecto transgressor e desafiador de um sistema de poder instituído: o personagem é criado em 1966, no auge das tensões raciais entre negros e brancos nos Estados Unidos. Curiosamente, no mesmo ano de 1966 foi organizado o grupo Black Panthers – “Panteras Negras”, organização tida como subversiva pelo governo estadunidense, que visava oferecer proteção e segurança para negros no cenário urbano daquele país.

[10] Na mitologia do Quarteto Fantástico, a família de um cientista, ao fazer um voo espacial, é atingida por radiações cósmicas, que faz com que adquiram capacidades sobre-humanas.

[11] O leitor ideal das HQ’s, assim como o leitor ideal da literatura de fantasia, da literatura do maravilhoso, do realismo fantástico (gênero do qual é pródiga a literatura latino-americana) e de gêneros afins, mais que qualquer outro, terá que aplicar o princípio da “suspensão da descrença”, do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge.

[12] Nas primeiras histórias do Demolidor seu uniforme era amarelo e preto. Mas já em 1965 surge a versão do uniforme que se tem hoje, inteiramente vermelho.

[13] A palavra daredevil em inglês é usada para se referir a profissões que exigem muita coragem para que sejam exercidas, como por exemplo, piloto de provas ou trapezista de circo.

[14] As primeiras histórias do Demolidor, publicadas originalmente em 1964 e 1965 estão reunidas em MARVEL COMICS (2017).

[15] Kingpin em inglês tem o sentido de “chefão” ou “manda chuva”, ou seja, o líder inconteste de um grupo ou organização.

[16] A palavra arco é termo técnico na literatura das HQ’s para designar uma narrativa que se estende por capítulos, publicados em edições semanais, mensais ou, em alguns casos, até anuais.

[17] O arco foi publicado originalmente nos Estados Unidos nas edições 227-233 da revista mensal Daredevil, da Marvel, em 1986.

[18] O “setenta vezes sete” (ou, conforme algumas versões, “setenta vezes sete vezes”) não deve ser entendido literalmente. Neste caso, setenta vezes sete não é igual a 490. Setenta (sete dez vezes) vezes sete (vezes) é a quantidade das quantidades, a quantidade que não pode ser quantificada.

[19] Não é objetivo deste artigo apresentar discussão detalhada do texto do Apocalipse. Uma única observação: o texto apresenta uma pletora de símbolos, em sequência. Ao contrário do que acontece na cultura popular brasileira, na linguagem bíblica o chifre é um símbolo positivo, pois remete às ideias de poder e autoridade.

[20] Scherer apresenta Sl 27.2-3, 54.3-7, 56.2-10, 57.5-8 como exemplos de súplicas do justo sofredor.

[21] Para detalhes, consultar, inter alia, JANOWSKI, STUHLMACHER (2004).

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