Implicações da fraternidade como paradigma eclesial neste tempo de pandemia
Implications of fraternity as an ecclesial paradigm in this pandemic time 

Leandro Rasera Adorno*
*Mestrando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. pe.leandro@misericordia.com.br 


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Resumo:

Os recentes escritos do magistério de Francisco caracterizam- -se por seus insistentes apelos em prol do princípio evangélico da Fraternidade como farol a iluminar uma humanidade envolta em espessas nuvens de indiferença, individualismo e discórdia. Este cenário tornou-se ainda mais acirrado com a disseminação pandêmica da Covid-19, que desestabilizou, repentinamente, os já enfraquecidos vínculos fraternais que esforçadamente resistiam. Se por um lado, persiste um salutar processo de sensibilização humana frente a escalada de inimizade social patente em diversos âmbitos, constata- -se com perplexidade quantos instrumentalizam o discurso da fraternidade para fins ideológicos, interesseiros. Portanto, este artigo objetiva-se, primeiramente, em arrazoar a mensagem de Francisco sobre a Fraternidade como bússola para a Igreja e a sociedade hodierna e, sobremaneira, intenta explicitar algumas inevitáveis exigências que esta impõe àqueles que, verdadeiramente, sentem-se impelidos a vivenciá-la. 

Palavras chave: Fraternidade; paternidade; filiação; Francisco; pandemia; vírus; indiferença 

Abstract

The recents writings of Franci’s magisterium are characterized by their insistent appeals in favor of the evangelical principle of the Fraternity as a beacon to illuminate mankind that is shrouded by a thick cloud of indifference, individualism and discord. This situation was aggravated by the Covid-19 Pandemic, which suddenly undermined the already weakened fraternal bonds that remained. If on the one hand, a healthy process of human sensibility perdures in the face of the rise in social enmity evident everywhere, it is perplexing to see how many use the fraternity discourse for ideological, self-serving purposes. Therefore, this article aims primarily to explain Franci’s message on Fraternity as a compass to the Church and todays society and above all, it intends to make unequivocal some inevitable demands its imposes on those who truly feel impelled to experience it.  

Keywords: Fraternity; paternity; sonship; Francisco; pandemic; virus; indifference 

Introdução 

Como se sabe, Concílio Vaticano II inaugurou uma nova era na história plurissecular da Igreja graças, em grande parte, a mudança de seu locus theologicus, ao passar a privilegiar a adoção de categorias históricas – e não mais o essencialismo escolástico preponderante até então – como critério hermenêutico preeminente de sua reflexão teológica. O grande teólogo conciliar Karl Rahner (1904-1984) afirmaria que, com o Concílio Vaticano II, dava-se início a terceira grande época (Grossepochen) do cristianismo, cuja especificidade seria tornar-se um “cristianismo mundial” (THEOBALD, 2015, pp. 380-381). Em todo caso, a finalidade capital desta renovação conciliar era, segundo o próprio João XXIII, infundir as energias vivificadoras do Evangelho nas veias do mundo moderno (1961, n. 3). Nos anos posteriores, esta renovação eclesial foi desenvolvendo-se, em avanços e retrocessos, sempre visando, no entanto, ser fidedigna ao mandato de animar, com a força do Evangelho, uma humanidade imersa num frenesi de transformações socioculturais, porém sempre mais carente de sentido. 

Em 2013, Francisco é eleito bispo de Roma, e desde então, impelido pelo “espírito conciliar” e discernindo os sinais dos tempos, vem esforçando-se por firmar a Igreja em sua missão de “servidora da humanidade”, como declarara Paulo VI em seu discurso na última sessão do Concílio (1965). Como, portanto, dever-se-ia prosseguir a missão evangelizadora da Igreja para que neste mo-mento atual, ela torne-se deveras servidora duma humanidade cuja singulari-dade evidencia-se em sua pluralidade de religiões, culturas e raças? O desafio agrava-se ainda mais com a recente pandemia do Covid-19, que desde março do ano passado tem assolado o mundo com sua espiral de medo e de morte.

Francisco tem respondido a esta questão acentuando um aspecto essencial da revelação cristã, que nos últimos anos parece ter sido minimizado: a frater-nidade. Contudo, embora o ideal da fraternidade humana seja de per si aceito e admirado por muitos, ele comporta sérias implicações que, para ser efetiva-mente concretizado e não se desenraizar ideologicamente, exige uma disposi-ção autêntica de conversão interior e abertura confiante à graça divina. Quais seriam, então, estes elementos da fraternidade que Francisco tem apontado à Igreja para que ela se torne realmente universale sacramentum salutis (LG 48), especialmente neste tempo pandêmico?

1. O novo normal do reino de deus

“Deus nos pede que ousemos criar algo novo”! É este apelo que Francisco tem feito ecoar à humanidade afligida e desnorteada pela pandemia do Covid-19 desde março de 2020. Ele declara: “o que ouço neste momento é semelhante ao que Isaías ouviu Deus dizer: ‘Venham e discutiremos. Atrevamo-nos a sonhar’” (2020, p. 12).1 Francisco, de fato, sem diminuir o drama que a pandemia encer-ra, interpreta-a sobremaneira como um “tempo de decisão” (2020b) para que a humanidade reencontre o verdadeiro caminho: “Vejo este momento como a hora da verdade (...) É um momento em que tanto os nossos parâmetros como as nossas formas de pensar são sacudidos e as nossas prioridades e os nossos estilos de vida são postos em questão” (2020, p. 7) e sublinha, assim, que não será possível passar por essa crise e sair da mesma maneira; ou a humanidade sairá melhor, ou pior: “Não é o tempo do Teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros” (2020b, grifo nosso). Francisco é contundente: “temos de mudar o modo como a sociedade funciona após a crise da Covid-19” (2020, p. 24).2

Contudo, o apelo que Francisco tem feito neste momento drástico da his-tória humana é reverberação veemente de inúmeros outros bramidos dos últi-mos anos. Seu diagnóstico transcende às questões biológicas e sanitárias. Estas afetam, segundo ele, “visivelmente” a sociedade; existem, porém, “milhares de outras crises igualmente terríveis, mas, por serem tão distantes, é como se não existissem para alguns de nós” (2020, p. 11). 

Com tristeza, volto a destacar que vivemos já muito tempo na degra-dação moral, descartando a ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios in-teresses. Voltemos a promover o bem, para nós mesmos e para toda a humanidade, e assim caminharemos juntos para um crescimento genuíno e integral. Cada sociedade precisa garantir a transmissão dos valores; caso contrário, transmitem-se o egoísmo, a violência, a corrupção nas suas diversas formas, a indiferença e, em última análise, uma vida fechada a toda a transcendência e entrincheirada nos interesses individuais (FT 113).

Em suma, Francisco reconhece que a humanidade está contaminada por um vírus ainda pior: o vírus da “indiferença egoísta”, que se transmite “a partir da ideia de que a vida melhora se vai melhor para mim, que tudo correrá bem se correr bem para mim” (2020d).3 De fato, “a Covid-19 pôs em evidência a outra pandemia, a do vírus da indiferença, que nos faz olhar sempre para o outro lado e nos diz que, como não há solução imediata ou mágica, o melhor é não sentir” (2020, p. 25, grifo nosso). Deveras, a “globalização da indiferença” tem sido uma das mais contundentes denúncias apregoadas por Francisco, desde o início de seu pontificado: 

A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna--nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a res-peito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mun-do da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!” (2013).4

No entanto, longe de ser um “profeta da desgraça” (EG 84), Francisco sabe – como afirmara Bento XVI – que a missão da Igreja é “despertar as forças es-pirituais” da sociedade (DCE 28) e, sobretudo em tempos de crise, “lembrar o povo de sua alma” (2020, p. 115). Em que consistiria, efetivamente, tal missão?Francisco elucida: “somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração a Deus e o amor ao próximo” (FT 282).5 Assim sendo, Francisco intenciona reavivar o cerne da revelação cristã – o amor a Deus e ao próximo – como o anúncio essencial a ser proclamado pela Igreja neste tempo de crise! De certo, o evangelista Mateus atestara que “desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40). Por sua vez, Marcos ressalta ainda que, perante o escriba que sabiamente reconhecera a preeminência deste mandamento do amor, Jesus acresce: “Tu não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34). Portanto, o “Evangelho do Reino de Deus” (Mt 4,23) – cuja essencialidade consiste no mandamento amor – irrompe novamen-te como caminho a ser perseguido pela humanidade, que desorientada, hesita encontrar seu “novo normal”. Francisco assevera: “A normalidade a que somos chamados é a do Reino de Deus” (2020e, grifo nosso).

Agora voltemos a normalidade”: não, assim não pode ser, porque essa normalidade estava doente de injustiças, desigualdades e degradação ambiental (...) Assim, a normalidade do Reino é importante: que o pão chegue a todos, a organização social se baseie em contribuir, partilhar e distribuir, com ternura, e não em possuir, excluir e acumular. Pois no final da existência, nada levaremos para a outra vida! (...) Animados pelo Espírito Santo, poderemos trabalhar juntos para o Reino de Deus que Cristo inaugurou, vindo até nós, neste mundo. É um Reino de luz no meio da escuridão, de justiça no meio de tantos ultrajes, de alegria no meio de tanta dor, de cura e salvação no meio da doença e da morte, de ternura no meio do ódio (2020e).6

Considerando ser rotulado como discurso meramente religioso e, por isso, passível de discriminações, Francisco exprime: “Refletindo sobre o Reino de Deus, em resposta à maneira como vivemos no mundo moderno, a Igreja de-senvolveu uma série de princípios para reflexão, juntamente com critérios de juízo que também oferecem diretivas para a ação. É conhecida como Doutrina Social da Igreja (DSI)” (2020, p. 60). Quer em seus princípios (opção preferen-cial pelos pobres, o bem comum, o destino universal dos bens, a solidariedade e a subsidiariedade)7 (2020, p. 61), quer em seus valores (verdade, liberdade, justiça e amor) (Cf. DSI 197 e 205), “a caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados de-rivam da caridade que é – como ensinou Jesus – a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22,36-40)” (CV 2).8 

Conquanto ateste que a mensagem da DSI é acessível a todos, e possibilita traduzir e difundir o Evangelho do Reino “aqui e agora” (2020, p. 60), existe outro conceito que, por confluir potencialmente em si a essencialidade da re-velação cristã, vem sendo enfatizado com veemência por Francisco a fim de contrapor tamanha “globalização da indiferença” preponderante, e embora tal conceito sempre tenha orbitado no vocabulário da Igreja, neste momento his-tórico tem se tornado paradigma preeminente para sua ação evangelizadora.

2. Explicitações sobre a fraternidade humana

Fratelli Tuttti – “todos irmãos” – é o nome da recente encíclica social publi-cada por Francisco no intuito de, “perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros”, a sociedade seja capaz de “reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FT 6).9 Em outras palavras, Francisco deseja “ardentemente (...) fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade” (FT 7, grifo nosso): “Agora é a hora de um (...) novo humanismo que possa canalizar essa irrupção de fraternidade e pôr fim à globalização da indiferença e à hiperinflação do indivíduo” (2020, p. 55, grifo nosso).10

Embora este apelo à fraternidade ecoe estranho aos ouvidos de não pou-cos cristãos, e esta divisa já tenha sido aventada até mesmo por movimentos avessos ao cristianismo (ex. Revolução Francesa),11 Francisco é categórico: “Outros bebem de outras fontes. Para nós, essa fonte da dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo” (FT 277, grifo nosso).12 De fato, o próprio Senhor declara-o: “um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos” (Mt 23,8). O evangelista João, descrevendo o sentenciamento de morte de Jesus pelo Sumo Sacerdote Caifás e demais líderes judaicos, explicita seu caráter sal-vífico: “Jesus morreria pela nação – e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51-52). Raniero Cantalamessa, em sua meditação da Sexta-Feira da Paixão deste ano, reflete sobre este “fundamento cristológico da fraternidade” inaugurado com a morte de Cristo. Segundo ele, se até sua morte os irmãos de Cristo eram “todos aque-les que faziam a vontade do Pai” (cf. Mt 12,48-50), após a Páscoa, inicia-se uma “etapa nova e decisiva”. Graças a ela – retomando o apóstolo Paulo – Cristo se torna “o primogênito de muitos irmãos” (Rm 8,29): 

Os discípulos se tornam irmãos em sentido novo e profundíssimo: compartilham não apenas o ensinamento de Jesus, mas também seu Espírito, sua nova vida de ressuscitado. É significativo que, somente após sua ressurreição, pela primeira vez, Jesus chama os seus discípu-los de “irmãos”: “Vai dizer aos meus irmãos – diz a Maria Madalena – que eu subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu deus e vosso Deus” (Jo 20,17). “Pois tanto o Santificador, quanto os santificados –lê-se na Carta aos Hebreus – todos procedem de um só. Por esta ra-zão, ele (Cristo) não se envergonha de chamá-los irmãos (Hb 2,11)” (CANTALAMESSA, 2021).

Esta concepção cristã de fraternidade, para Cantalamessa, não substitui os demais laços de fraternidade fundados na família, nação ou raça, mas antes, “coroa-os”, fazendo da fraternidade de Cristo “algo de único e transcendente, em relação a qualquer outro gênero de fraternidade, e deve-se ao fato de que Cristo é também Deus”. Por conseguinte, 

todos os seres humanos são irmãos enquanto criaturas do mesmo Deus e Pai. A isso, a fé cristã acrescenta uma segunda e decisiva razão. Somos irmãos não apenas a título de criação, mas também de redenção; não só porque todos temos o mesmo Pai, mas porque todos temos o mes-mo irmão, Cristo, “primogênito entre muitos irmãos” (2021).

A fraternidade humana, portanto, não pode ser relegada à um aspecto marginal da revelação cristã. Consiste, ao contrário, em seu núcleo fontal: a Igreja deve ser, em Cristo, sacramento da “união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1, grifo nosso).13 Francisco reconhece, as sim, que a fraternidade resulta no único vínculo autêntico que tornará tal unidade efetiva, e não meramente etérea. Devemos, dessarte, “recordar a verdade que Deus pôs em nosso coração: que pertencemos a Ele e aos nos-sos irmãos” (2020, p. 21). 

Em seu desdobramento social, Francisco compreende que os efeitos encer-rados na fraternidade são capazes, inclusive, de provocar não apenas na Igreja, mas em toda sociedade, um transcender do tradicional horizonte de solidarie-dade e assistencialismo preponderantes, pois “uma sociedade que fosse apenas solidária e assistencial, e não fraterna, seria uma sociedade de pessoas infelizes e desesperadas, da qual todos procurariam fugir, em casos extremos até me-diante o suicídio” (FRANCISCO, 2017).14

Foi o testemunho evangélico de São Francisco, com a sua escola de pen-samento, que atribuiu a este termo o significado que sucessivamente se conservou ao longo dos séculos, ou seja, de constituir o complemen-to e ao mesmo tempo a exaltação do princípio de solidariedade. Com efeito, enquanto a solidariedade é o princípio de planificação social que permite aos desiguais tornar-se iguais, a fraternidade é o princípio que permite aos iguais ser pessoas diferentes. A fraternidade consente que pessoas que são iguais na sua essência, dignidade, liberdade e direitos fundamentais, participem diversamente no bem comum, em conformi-dade com a sua capacidade, o seu plano de vida, a sua vocação, o seu trabalho ou o seu carisma de serviço. Desde o início do meu pontifica-do quis indicar “que no irmão está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós” (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 179). Com efeito, o protocolo segundo o qual seremos julgados funda-menta-se na fraternidade: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25, 40)” (FRANCISCO, 2017, grifo nosso).15

Entretanto, Francisco é ciente que para se promover a fraternidade como “princípio organizacional” da sociedade,16 e ser possível “sonhar com um mun-do diferente”, é necessário – imprescindivelmente – confrontar o individualis-mo alojado no interior do ser humano (2020, p. 77). Os Padres conciliares já haviam afirmado que “os desequilíbrios de que sofre o mundo hodierno estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do ho-mem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem” (GS 10). Portanto, é preciso considerar o que Francisco acena como “consci-ência isolada”, que atua como “um obstáculo importante à união de mentes e corações”, não permitindo transpor as barreiras que impedem a construção da fraternidade (2020, p. 78).17

Consequência inevitável desta “consciência isolada” é o que Francisco cha-ma de “paralisia da polarização”: a incapacidade das pessoas – quer na socieda-de como na Igreja – estabelecerem diálogos sinceros e respeitosos com pessoas cujos pontos de vistas divergem, degenerando, assim, numa “competição de quem fala mais alto, em que os oponentes procuram ‘cancelar’ uns aos outros enquanto disputam o poder” (2020, p. 85). 

A violência verbal crescente reflete a fragilidade do egoísmo, um desen-raizamento, uma realidade em que se encontra segurança no descrédi-to de outros, por meio de narrativas que fazem com que nos sintamos justos e nos dão razões para silenciar outras pessoas. A ausência de diálogo sincero na nossa cultura pública faz com que seja cada vez mais difícil criar um horizonte partilhado, rumo ao qual podemos caminhar juntos. Quando se instala a paralisia da polarização, a vida pública é reduzida a discussões violentas entre facções que buscam a supremacia (2020, pp. 85-86).

Todavia, para confrontar esta polarização nociva, Francisco exorta a neces-sidade de reconhecer a “raiz espiritual” que a retroalimenta: “O mundo con-temporâneo, com as suas feridas abertas que tocam muitos dos nossos irmãos e irmãs, exige que enfrentemos toda forma de polarização (...) Sabemos que, na ânsia de nos libertar do inimigo externo, podemos ser tentados a alimentar o inimigo interno” (2020, p. 86). Para Francisco, este inimigo interno – que se aloja no coração humano e não pode ser ignorado – é o diabo, o “Grande Acusador”: “quando estamos num ambiente polarizado, temos que ter consciência do mau espírito, que entra na divisão e cria uma espiral perversa de acusação e contra--acusação” (2020, p. 86).18 Cantalamessa ratifica: a divisão é, por excelência, “a obra daquele cujo nome é ‘diábolos’, isto é, o divisor, o inimigo que semeia o joio, como o define Jesus em sua parábola (cf. Mt 13,25)” (2021).19

Na violência verbal, na difamação e na crueldade supérflua, achamos seu esconderijo. É melhor não entrar. Não discuta ou dialogue com o Acusador, porque isso é entrar na sua lógica, na qual os espíritos es-tão disfarçados de razões. É necessário resistir a ele por outros meios, expulsá-lo, com fez Jesus. Da mesma forma que o coronavírus, se o vírus da polarização não pode ser passado de hospedeiro para hospedeiro, ele desaparece gradualmente (FRANCISCO, 2020, p. 86, grifo nosso).20

Na esteira de Francisco, Cantalamessa também indica o exemplo de Jesus encontrado nos evangelhos como caminho a ser seguido para não se deixar en-redar pela “paralisia da polarização”: “ao redor dele, havia uma forte polariza-ção política. Existiam quatro partidos: Fariseus, Saduceus, Herodianos e Zelotes. Jesus não ficou do lado de nenhum deles e resistiu energicamente à tentativa de ser arrastado para uma parte ou outra”. Também observa que “a comunidade cristã primitiva o seguiu fielmente nesta opção” (2021).21 Em sua homilia de Pentecostes deste ano, Francisco reitera: 

Hoje, se dermos ouvidos ao Espírito, deixaremos de nos focar em con-servadores e progressistas, tradicionalistas e inovadores, de direita e de esquerda; se fossem estes os critérios, significava que na Igreja se es-quecia o Espírito. O Paráclito impele à unidade, à concórdia, à harmonia das diversidades. Faz-nos sentir parte do mesmo Corpo, irmãos e irmãs entre nós. Procuremos o conjunto! E o inimigo quer que a diversidade se transforme em oposição e por isso faz com que se tornem ideologias. Dizer “não” às ideologias, “sim” ao conjunto (2021c, grifo nosso).22

Ainda em sua mensagem para o 1º dia Internacional da Fraternidade Humana, celebrado em 04 de fevereiro deste ano, após reafirmar que “a frater-nidade é a nova fronteira da humanidade”, Francisco apregoa de modo enérgico os malefícios oriundos da divisão: 

Ou somos irmãos ou destruímo-nos uns aos outros. Hoje não há tempo para a indiferença. Não podemos lavar as mãos à distância, com des-prezo, com desinteresse. Ou somos irmãos — permiti-me — ou tudo se desmorona. É a fronteira. A fronteira sobre a qual devemos construir; é desafio do nosso século, é o desafio dos nossos tempos. Fraternidade significa mão estendida; fraternidade quer dizer respeito. Fraternidade significa ouvir com o coração aberto. Fraternidade quer dizer firmeza nas próprias convicções. Pois não há verdadeira fraternidade se negociarmos as nossas convicções. Somos irmãos, nascidos do mesmo Pai. Com cultu-ras e tradições diferentes, mas todos irmãos. E no respeito pelas nossas diferentes culturas e tradições, pelas nossas diversas cidadanias, deve-mos construir esta fraternidade. Sem a negociar. É o momento da escuta. É o momento da aceitação sincera. É o momento da certeza de que um mundo sem irmãos é um mundo de inimigos. Gostaria de o salientar. Não podemos dizer: ou irmãos ou não irmãos. Digamos bem: ou irmãos ou inimigos. Pois o desprezo é uma forma muito ardilosa de inimizade. Não é preciso uma guerra para fazer inimigos. É suficiente o desprezo. Basta com esta técnica — transformou-se numa técnica — basta com esta ati-tude de olhar para o outro lado, sem se importar com o outro, como se ele não existisse (2021b, grifo nosso).

E, para desmascarar qualquer atitude de generalização impessoal ou “isencionismo”, Francisco explicita a necessidade de cada pessoa reconhecer a “par-te de guerra” que traz dentro de si: “aquele juízo duro que tenho no coração contra o meu irmão ou a minha irmã, a ferida não curada, aquele mal não per-doado, o rancor que só me faz mal, é uma parte de guerra que tenho dentro, é um fogo no coração que deve ser apagado a fim de não irromper num incêndio” (FT 243, grifo nosso).23

Pragmático como é, Francisco sabe, no entanto, que o desafio principal não consiste, primeiramente, em evitar as polarizações, mas sim em “nos compro-metermos com o conflito e as discordâncias, de maneira a precaver que dege-nerem em polarização” (2020, p. 87). Em outras palavras, Francisco encoraja as pessoas a praticarem a “arte do diálogo cívico”, sendo capazes de “sintetizar diferentes pontos de vista num plano maior”, permitindo assim uma “nova for-ma de pensar” que possa transcender as divisões (2020, p. 87).24 Por outro lado, Francisco adverte que o mau espírito pode também atuar de modo contrário, negando “a tensão entre os polos numa contraposição, optando por uma espé-cie de coexistência estática”, e exprime: “esse é o perigo do relativismo ou do falso Irenismo, uma atitude de ‘paz a qualquer preço’, em que o objetivo é evi-tar totalmente o conflito. Nesse caso, pode não haver solução, porque a tensão foi negada e abandonada. É também uma recusa a aceitar a realidade” (2020, p. 89). Em suma, Francisco adverte: “temos aqui duas tentações: uma, a de nos alinharmos a um ou outro lado, exacerbando o conflito; e outra, a de evitarmos totalmente iniciar um conflito, negando a tensão implicada a lavando as mãos sobre o assunto” (2020, p. 89).

Em todo caso, à esta nova síntese resultante de um “ato de caridade, no qual procuramos soluções em conjunto, para benefício de todos” (2020, p. 87), Francisco refere-se como “transbordamento”, porque “ultrapassa os limites que confinavam nosso pensamento e, como uma fonte transbordante, faz com que as respostas que a contraposição anteriormente não nos permitia ver conti-nuem a se derramar” (2020, pp. 89-90).25 Neste transbordar, “a solução para um problema intratável surge de maneiras inesperadas e imprevistas, como resul-tado de uma nova e maior criatividade, vinda de fora” (2020, p. 89). Francisco atribui a isso uma intervenção divina, um “presente de Deus, porque é a mesma ação do Espírito descrita nas Escrituras e evidente na história” (2020, p. 90).26

Por fim, esta postura dialética – que para Francisco é a “tarefa do reconci-liador” (2020, p. 89) –, é singular e urge ser assumida corajosamente por pes-soas que anseiam pelo ideal da fraternidade humana. Ele admiti que “não é fácil ‘aguentar’ o conflito, encarando-o” (2020, p. 89) e que, portanto, para esta missão, “precisamos da humildade necessária para abandonar o que agora vemos como errado e de coragem para acolher outros pontos de vista que con-tenham elementos de verdade” (2020, p. 87).27 Apesar de ser árdua a tarefa de “suportar o desacordo, e transformá-lo em elo de um novo processo”, Francisco encoraja-o vivamente: “é uma missão valiosa para todos”, aludindo que “quan-do Jesus disse ‘Felizes os que promovem a paz’ (Mt 5,9), certamente se referia a essa missão” (2020, p. 87, grifo nosso).

3. A exigência da Paternidade Divina

Após esta abordagem sobre a fraternidade humana como elemento essen-cial da revelação cristã, importa evidenciar ainda – mesmo que de forma sumá-ria – a verdade que não somente fundamenta a fraternidade, mas lhe confere a sua verdadeira dignidade.

Como pessoas que creem, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo à frater-nidade. Estamos convencidos de que só com esta consciência de filhos que não são órfãos, podemos viver em paz entre nós. Com efeito, a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabe-lecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade (FT 272, grifo nosso).

De fato, embora a Igreja busque “a promoção do homem e da fraternidade universal” (FT 276), ela não o faz alheia ao seu referencial maior, pois “se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio seguro que garanta re-lações justas entre os homens” (FT 273) e, portanto, “quando se pretende, em nome de uma ideologia, excluir Deus da sociedade, acaba-se adorando ídolos, e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é pisoteada, os seus direitos violados” (FT 274).

Por conseguinte, a originalidade da mensagem cristã não consiste apenas na afirmação de um Deus criador que assegura aos seres humanos uma digni-dade sagrada enquanto seres criados à sua “imagem e semelhança” (Gn 1,26), “imagens visíveis do Deus invisível” (cf. FT 273), mas sobremaneira na revelação de que este ser humano foi assumido por Deus não apenas como criatura, mas como “filho”. Atesta o apóstolo Paulo: “Com efeito, não recebestes um espí-rito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai!” (Rm 8,15). Deveras, o próprio Cristo – após afirmar que “todos vós sois irmãos” (Mt 23,8) –, exortava: “a ninguém chameis de ‘Pai’ na terra, por que um só é vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23,9), revelando assim que o Pai, em seu desígnio salvífico, a todos “pre-destinou a serem seus filhos adotivos por Jesus Cristo” (cf. Ef 1,5). Desta forma, Cristo desvela plenamente o sublime mistério da dignidade humana e confia-o à Igreja a sua perpetuação: “Cristo ressuscitou, destruindo a morte com a pró-pria morte, e deu-nos a vida, para que, tornados filhos no Filho, exclamemos no Espírito: Abba, Pai” (GS 22).

Confessar um Pai que ama infinitamente cada ser humano implica des-cobrir que assim lhe confere uma dignidade infinita. Confessar que o Filho de Deus assumiu a nossa carne humana significa que cada pes-soa humana foi elevada até ao próprio coração de Deus. Confessar que Jesus deu o seu sangue por nós impede-nos de ter qualquer dúvida acerca do amor sem limites que enobrece todo o ser humano (EG 178).

Assim sendo, a fraternidade humana universal enraíza-se na paternidade divina universal: a todos os seres humanos é ofertada gratuitamente o dom da filiação divina (cf. EG 162), do amor paternal de Deus, pois o “amor de Deus é mesmo para cada pessoa, seja qual for a religião. E se é um ateu, é o mesmo amor” (FT 281). O apóstolo João explicitá-lo-á primorosamente: “Vede que ma-nifestação de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o so-mos” (1Jo 3,1), e acresce: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou primeiro” (1Jo 4,10). Como supracitado, “o ponto central do cristianismo é o querigma, cuja mensagem essencial é: Deus me amou e deu a vida por mim” (FRANCISCO, 2020, p. 116), “o Deus que mani-festou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado” (EG 11).

Existe, portanto, uma profunda correlação entre a experiência da frater-nidade humana e da paternidade divina. Poder-se-ia afirmar que enquanto a paternidade divina fundamenta a fraternidade humana, esta, por sua vez, confere-lhe sua autenticidade.28  Tão verdadeiro quanto saber que “Deus, que por todos cuida com solicitude paternal, quis que os homens formassem uma só fa-mília, e se tratassem uns aos outros como irmãos” (GS 24),29 é saber que “quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar”.30

Isto posto, Francisco insiste então que, no núcleo essencial da revelação cristã – sintetizado no querigma – existe de modo intrínseco, um “conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida co-munitária e o compromisso com os outros. O conteúdo do primeiro anúncio (querigma) tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade” (EG 177). De certo, “Cristo não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens” (DSI 52). E tal prevalência dos vínculos sociais – constitutivo da fraternidade humana – tem se tornado, certamente, uma das principais admoestações de Francisco à Igreja.31 Ele confessa-o: “se me pergun-tassem qual é, hoje em dia, um dos desvios do cristianismo, diria sem hesitar: o esquecimento de que pertencemos a um povo” (2020, p. 116). E, novamente, Francisco acredita que a pandemia do Covid-19 é uma oportunidade singular de resgate desta dimensão social: “estamos num momento de restaurar a ética da fraternidade e da solidariedade, regenerando vínculos de confiança e pertenci-mento” (2020, p. 117). De modo mais veemente, Francisco expressa que “este é um momento de mostrar integridade, de desmascarar a moralidade seletiva da ideologia e assumir plenamente o que significa ser filho de Deus” (2020, pp.42-43, grifo nosso).

Enfim, para que o verdadeiro progresso da fraternidade humana possa triunfar neste instante da história, é preciso – decididamente – “fazer crescer a consciência de que, hoje, ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém” (FT 137), pois todos têm um “destino partilhado” (2020, p. 117), e “estão no mesmo barco” (FT 30; 2020b). Fortunosamente, a humanidade deveras não está sozinha neste barco: “na aceitação das diferenças e na alegria de sermos irmãos porque filhos de um único Deus” (FT 279), o Pai dará sua graça para ser possível concretizar o sonho de fraternidade de toda família humana (cf. FT 214, nota 8).32 Portanto, “unamos, pois, as nossas forças e, cada dia mais fiéis ao Evangelho, procuremos, por modos cada vez mais eficazes para alcançar este fim tão alto, cooperar fraternalmente no serviço da família humana, chamada, em Cristo, a tornar-se a família dos filhos de Deus” (GS 92).

Conclusão

Como já se evidenciou desde o início de seu pontificado, Francisco está continuamente atento aos “sinais dos tempos” intencionando discernir com mais acuidade os caminhos pelos quais deve conduzir a Igreja, pois sabe que “interpretando e rezando por acontecimentos ou tendências à luz do Evangelho, podemos detectar movimentos que refletem os valores do Reino de Deus ou seus opostos” (2020, p. 66). Ele reconhece, por trás destes movimentos, a ação do próprio Espírito Santo que, guiando a Igreja em todas as épocas, anima-a na “tradução da Boa-Nova, sob diversas circunstâncias, para que as palavras de Jesus continuem a ressoar no coração de homens e mulheres de todos os tempos” (2020, p. 65).

Destarte, Francisco compreende que o imperativo evangélico que mais urge ser anunciado neste momento da história – agravado especialmente pela pandemia do Covid-19 – é a fraternidade humana. Progressivamente, ele tem acentuado esta nota essencial do cristianismo, propondo como “ícone ilumi-nador” a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), “capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos fazer para reconstruir nosso mundo ferido” (FT 67). Ser, portanto, “bons samaritanos” e não “viandantes indiferentes”33 é a opção que se impõe a cada pessoa de boa vontade neste momento (FT 69), e sobretudo aos cristãos, obrigados pela fé a “amar a Deus e ao próximo como a si mesmo” (cf. Mc 10,27-28), lembrando sempre que “a essência de Deus é a misericórdia, que não consiste apenas em ver e comover-se, mas em responder com ação” (2020, p. 26).34

E, para que de fato a humanidade seja capaz de cruzar a “nova fron-teira” da fraternidade humana, a prece que Francisco eleva ao céu é que se despontem os verdadeiros heróis: “os heróis do futuro serão aqueles que sabe-rão romper com essa mentalidade doentia, decidindo sustentar palavras cheias de verdade, para além das conveniências pessoais. Queira Deus que esses he-róis estejam surgindo silenciosamente no meio de nossa sociedade” (FT 202). Decerto, a vivência autêntica da fraternidade evangélica, longe de ser um dis-curso politicamente correto, exige uma verdadeira ascese interior: uma conver-são sincera e contínua da tendência egocentrista subjacente nas raízes de mui-tas expressões de divisão humana, quer religiosa, política, cultural. Tal caminho implicará uma magnanimidade que, de certo, somente com um heroísmo de caráter se poderá concretizá-la. Além disso, tornar-se-á imprescindível o auxílio da graça, pois somente animados e impelidos pela filiação divina – e permane-cendo sob o olhar paterno de Deus –, será possível a realização do Seu Reino, onde todos se reconhecerão irmãos. 

Assim sendo, apesar das fortes tempestades que tantas vezes parecem querer naufragar as esperanças de uma humanidade onde se irrompa verda-deiramente a fraternidade, Francisco continua fazendo ressoar ao coração dos homens e mulheres deste tempo aquelas mesmas palavras que, através dos séculos, fortaleceram e impulsionaram milhares de pessoas a este autêntico heroísmo na caridade: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé? (Mc 4,40)” (2020b). Em verdade, “na medida em que o Senhor conseguir reinar em nós e no meio de nós, poderemos participar da vida divina e seremos uns para os outros instrumentos da sua graça, para infundir a misericórdia de Deus e te-cer redes de caridade e fraternidade”. (2017, grifo nosso). Portanto, “que Deus nos conceda ‘viralizar’ o amor e globalizar a esperança à luz da fé” (2020e, grifo nosso).

Quando a tempestade tiver passado e as estradas estiverem aman-sadas e nós formos sobreviventes de um naufrágio coletivo. Com o coração em lágrimas e o destino abençoado nos sentiremos felizes simplesmente por estarmos vivos. E daremos um abraço ao primeiro desconhecido e louvaremos a sorte de conservar um amigo. E então recordaremos tudo aquilo que perdemos e de uma vez aprenderemos tudo o que não aprendemos. Já não teremos inveja pois todos terão sofrido. Já não teremos apatia, seremos mais compassivos. Valerá mas o que é de todos, que o jamais conseguido. Seremos mais generosos e muito mais comprometidos. Entenderemos quão frágil que significa estar vivos. Sentiremos empatia por quem está ou por quem partiu. Sentiremos falta do velho que pedia uma moeda no mercado, de quem não soubemos o nome e sempre esteve ao nosso lado. E talvez o velho pobre fosse o seu Deus disfarçado. Nunca lhe perguntara o nome por-que estava apressado. E tudo será um milagre e tudo será um legado e se respeitará a vida, a vida que nos foi dada. Quando a tormenta passar peço-lhe, Deus, envergonhado, que nos retorne melhores, como nos tinha sonhado (2020, pp. 149-150).35

Referências

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PAULO VI. Discurso na última sessão pública do Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651207_epilogo-concilio.html. Acesso em: 7 de jun. 2021. 

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THEOBALD, Christoph. A recepção do Concílio Vaticano II. Vol. I. São Leopoldo: EDITORA UNISINUS, 2015. 

Notas

[1]  Este trecho de Isaias (1,18-20) inspirou também o próprio título do livro: “Vamos sonhar jun-tos: caminho para um futuro melhor” (FRANCISCO, 2020).

[2]  Francisco também alude ao atual momento de pandemia como um “momento Noé”, isto é, uma oportunidade de recomeçar a construção de uma sociedade mais humanizada, contanto que – afirma-o – “encontremos a Arca dos laços que nos unem, da caridade, do pertencimento comum” (2020, p. 21).

[3] Em sua recente encíclica Fratelli Tutti, Francisco desvela a “perspectiva de fundo” da indiferen-ça humana já no drama bíblico das origens entre Caim e Abel. A pergunta de Deus: “Onde está seu irmão”, e a resposta de Caim: “Acaso sou guarda do meu irmão” (Gn 4,9), acena que “Deus coloca em questão todo tipo de determinismo ou fatalismo que pretende justificar, como única resposta possível, a indiferença” (FT 57). Também complementa: “Vemos como reina uma indiferença aco-modada, fria e globalizada, filha duma profunda desilusão que se esconde por detrás desta ilusão enganadora: considerar que podemos ser onipotentes e esquecer que nos encontramos todos no mesmo barco” (FT 30, grifo nosso).

[4] Francisco endossaria ainda sua denúncia à globalização da indiferença na Evangelii Gaudium n. 54.

[5] Ao propor, na Fratelli Tutti, a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) como “ícone ilu-minador” para a reconstrução deste mundo ferido, Francisco exprime que esta revela uma característica essencial do ser humano, frequentemente esquecida: “fomos criados para a ple-nitude, que só se alcança no amor” (FT 67-68). Ademais, ainda na Evangelii Gaudium n. 61 Francisco exprimia: “É evidente que, quando os autores do Novo Testamento querem reduzir a mensagem moral cristã a uma última síntese, ao mais essencial, apresentam-nos a exigência irrenunciável do amor ao próximo: ‘Quem ama o próximo cumpre plenamente a lei. (…) É no amor que está o pleno cumprimento da lei’ (Rm 13, 8.10). De igual modo, para São Paulo, o mandamento do amor não só resume a lei mas constitui o centro e a razão de ser da mesma: ‘Toda a lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo’ (Gl 5, 14). E, às suas comunidades, apresenta a vida cristã como um caminho de crescimento no amor: ‘O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos’ (1Ts 3, 12). Também São Tiago exorta os cristãos a cumprir ‘a lei do Reino, de acordo com a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (2, 8), acabando por não citar nenhum preceito”.

[6] Destaca-se, neste sentido, as palavras de Francisco contidas na Gaudete et Exsultate (2018): “Dado que não se pode conceber Cristo sem o Reino que Ele veio trazer, também a tua missão é inseparável da construção do Reino: ‘procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’ (Mt 6, 33). A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos” (GE 25). Também na Evangelii Gaudium: “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa resposta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma ‘caridade por receita’, uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria cons-ciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino: ‘Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo’ (Mt 6, 33). O projeto de Jesus é instaurar o Reino de seu Pai; por isso, pede aos seus discípulos: ‘Proclamai que o Reino do Céu está perto’ (Mt 10, 7)” (180, grifo nosso).    

[7] Francisco dedicou suas catequeses de quarta-feira de 05 de agosto a 30 de setembro de 2020 ao tema “Curar o mundo”, refletindo, a cada semana, um princípio específico da DSI.

[8] Bento XVI ainda exclama: a Doutrina Social da Igreja é a “proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade” (CV 5).

[9]  Pode-se compreender a Fratelli Tutti como um compilado de frases de Francisco relacionadas ao tema da fraternidade ao longo de todo o seu pontificado. De fato, desde a Evangelii Gaudium (2013) já se encontra notoriamente este conceito tão caro a Francisco (71, 87, 91, 92, 155, 179, 180, 221, 237). Posteriormente, dentre outros, ele falaria na Laudato Si (2015) de uma “frater-nidade universal” (228). Outro momento importante foi a mensagem de Francisco à Presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em 24 de abril de 2017, explicitando a necessária transição do conceito de solidariedade para o de fraternidade. Um marco fundamental neste percurso, contudo, foi a assinatura do “Documento da Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum”, durante o encontro de Francisco e o Imã Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, no dia 04 de fevereiro de 2019. O intuito desse documento era lembrar que Deus “criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos” (FT 5). Louvavelmente, em comemoração aos dois anos de sua publicação, foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas o “Dia Internacional da Fraternidade Humana”, a ser celebrado todos os anos, no dia 04 de fevereiro. A Fratelli Tutti tornar-se-ia, por-tanto, a primeira exposição orgânica e sistemática específica sobre a fraternidade humana do magistério de Francisco. 

[10] E complementa: “Precisamos voltar a sentir que necessitamos uns dos outros, que somos responsáveis pelos outros, inclusive pelos que ainda não nasceram e pelos que ainda não são considerados cidadãos” (2020, p. 55). 

[11] Francisco aludia que, embora o lema “fraternidade” tivesse sido retomado pela Revolução Francesa, logo em seguida “a ordem pós-revolucionária abandonou — pelos conhecidos motivos— até ao seu cancelamento do léxico da política e da economia” (2017).

[12] E acresce: “Dele brota, para o pensamento cristão e para a ação da Igreja, o primado reserva-do à relação, ao encontro com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humani-dade inteira, como vocação de todos” (FT 277).

[13] De forma semelhante, já a Gaudium et Spes exprimia: “Na sua pregação (Jesus) mandou aos filhos de Deus que se tratassem como irmãos (...) E mandou aos apóstolos pregar a todos os povos a mensagem evangélica para que a humanidade se tornasse a família de Deus, na qual o amor fosse toda a lei” (32).

[14] E continua: “A sociedade em que a verdadeira fraternidade se dissolve não é capaz de um futuro; ou seja, a sociedade em que existe unicamente o ‘dar para ter’, ou então o ‘dar por dever’, não é capaz de progredir. Eis por que motivo nem a visão liberal-individualista do mundo, onde tudo (ou quase tudo) é troca, nem a visão estadocêntrica da sociedade, onde tudo (ou quase tudo) é obrigatoriedade, são guias seguras para nos levar a superar a desigualdade, a iniquidade e a exclusão nas quais hoje as nossas sociedades se encontram encalhadas. Trata-se de procurar uma saída da sufocante alternativa entre as teses neoliberal e neoestatal (...) Eis por que razão a Doutrina Social da Igreja convida com insistência a encontrar formas de aplicação concreta da fra-ternidade como princípio regular da ordem económica. Onde outras linhas de pensamento só fa-lam de solidariedade, a DSI fala acima de tudo de fraternidade, dado que uma sociedade fraterna é também solidária, enquanto o contrário nem sempre é verdade, como numerosas experiências no-lo confirmam” (FRANCISCO, 2017, grifo nosso). 

[15] Em seu artigo “Fraternidade, uma aproximação conceitual”, Luis Fernando Barzotto explana que a solidariedade deve ser concebida como um “momento da fraternidade”, cujo intuito seja responder a uma necessidade eventual, momentânea, sempre visando, contudo, a autonomia alheia e não sua codependência. Segundo ele, “a fraternidade deve ser proposta como sendo um princípio estrutural da sociedade, ao passo que a solidariedade deve ser pensada como conjuntu-ral”. Em termos de sabedoria popular, “a solidariedade consiste em dar o peixe (e em algumas cir-cunstâncias, isso é de absoluta necessidade) e a fraternidade, em ensinar a pescar” (BARZOTTO, 2018).

[16] Na Fratelli Tutti n. 186, Francisco – na esteira do pensamento de Santo Tomás de Aquino – distingue o “amor elícito” do “amor imperado”. O primeiro “expressa os atos que brotam diretamente da virtude da caridade, dirigidos a pessoas e povos”, enquanto o segundo “ traduz os atos de caridade que nos impelem a criar instituições mais sadias, regulamentos mais justos, estruturas mais solidárias”, e explica que “é um ato de caridade, igualmente indispensável, o empenho com o objetivo de organizar e estruturar a sociedade de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria” E exemplifica-o: “é caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contato direto com essa pessoa – para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento”. 

[17] Embora esta consciência isolada abranja a sociedade em geral, Francisco exemplifica-o dentro da Igreja Católica: “entre católicos de consciência isolada, nunca há escassez de razões para criticar a Igreja, os bispos, ou o Papa: ou somos retrógrados ou nos rendemos à modernidade; não somos o que devíamos ser ou o que, supostamente, já fomos. Deste modo, justificam seu isolamento e separação da caminhada do Povo de Deus” (2020, p. 79). Para Francisco, essa postura de uma “consciência isolada” – também chamada de “eu sitiado”, aludindo a experiencia do profeta Jonas (“síndrome de Jonas”) (2020, p. 81) – é uma versão do “mundanismo espiritual” já denunciado na Evangelii Gaudium (93-97). 

[18] Francisco evidencia esta ação do Inimigo, por exemplo, durante o Sínodo da Amazônia, em 2019: “Vimos o mau espírito em alguns dos ‘ruídos’ externos à sala sinodal, bem como dentro dela: no medo, no pânico, nas acusações de que o Sínodo é uma conspiração para minar a dou-trina da Igreja, que a Igreja está fechada a novas perspectivas atuais etc. Esses são sinais da cons-ciência isolada de que falamos antes e da frustração do mau espírito, que, quando não consegue seduzir, faz acusações ferozes (mas nunca, claro autoacusações) (...) Existe também a tentação de alguns não aceitarem o que envolve um processo sinodal e tentarem impor a todo o Corpo as próprias ideias – exercendo o monopólio da interpretação da verdade –, seja por pressão, seja por descrédito dos que não partilham os mesmos sentimentos. Alguns participantes assumiam rapidamente posições rígidas, que denunciavam uma obsessão pela pureza da doutrina, como se ela estivesse ameaçada e eles fossem seus guardiões. Outros insistiam em critérios vanguardistas que não eram condizentes com o Evangelho e a Tradição. Um dos dons do Espírito, no processo sinodal, é desmascarar agendas e ideologias ocultas” (2020, p. 95).

[19] Para Cantalamessa, a causa preeminente das divisões internas na Igreja, são sobretudo de ordem política. Sua denúncia é contundente: “A fraternidade católica está dilacerada! A túnica de Cristo foi cortada em pedaços pelas divisões entre as Igrejas; mas – o que não é menos grave –cada pedaço da túnica, por sua vez, é frequentemente dividido em outros pedaços. Naturalmente, falo do elemento humano dela, porque a verdadeira túnica de Cristo, seu corpo místico animado pelo Espírito Santo, ninguém jamais poderá dilacerar. Aos olhos de Deus, a Igreja é ‘una, santa, católica e apostólica’, e assim permanecerá até o fim do mundo. Isto, contudo, não desculpa as nossas divisões, mas as torna ainda mais culpáveis e deve nos impulsionar, com mais força, a restaurá-las. Qual é a causa mais comum das divisões entre os católicos? Não é o dogma, não são os sacramentos e os ministérios: coisas estas que, por singular graça de Deus, mantemos íntegras e unânimes. É a opção política, quando ela se sobrepõe àquela religiosa e eclesial e desposa uma ideologia, esquecendo completamente o sentido e o dever da obediência na Igreja. É isto, em certas partes do mundo, o verdadeiro fator de divisão, ainda que tácito ou indignadamente. Isto é um pecado, no sentido mais estrito do termo. Significa que o ‘o reino deste mundo’ se tornou mais importante, no próprio coração, do que o Reino de Deus. Creio que sejamos todos chamados a fazer um sério exame de consciência sobre isso e a nos convertermos” (2021, grifo nosso).

[20] Acerca da problemática da “violência verbal”, Francisco já havia se manifestado com vee-mência na Gaudete et Exsultate: “Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se, assim, um dualismo perigoso, porque, nestas redes, dizem-se coisas que não seriam toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança. É impressionante como, às vezes, pretendendo defender outros mandamentos, se ignora completamente o oitavo: ‘não levantar falsos testemunhos’ e destrói-se sem piedade a imagem alheia. Nisto se manifesta como a língua descontrolada ‘é um mundo de iniquidade; (…) e, inflamada pelo Inferno, incendeia o curso da nossa existência’ (Tg 3, 6)” (GE 115).

[21]  Cantalamessa complementa exortando sobretudo os pastores a seguirem o exemplo de Cristo: “Este é um exemplo sobretudo para os pastores que devem ser pastores de todo o rebanho, não apenas de uma parte dele. São eles, por isso, os primeiros a ter que fazer um sério exame de consciência e se perguntar onde estão conduzindo o próprio rebanho: se à própria parte (ou ao próprio ‘partido’), ou à parte de Jesus” (2021). 

[22]  Também na homilia de Pentecostes de 2017(b), Francisco alertava sobre risco de existirem “cristãos de direita ou esquerda antes de ser de Jesus”. 

[23]  Além de diagnosticar as raízes interiores da inimizade, Francisco também indica um antídoto, inspirado no monge do deserto Doroteu de Gaza (séc. VI): “Não existe vacina contra a consciência isolada dessas pessoas ensimesmadas, mas há um antídoto. Pode ser adquirido livremente e não custa nada, a não ser nosso orgulho”: a acusação de si mesmo. E explica: “Em vez de se justificar – o espírito de autossuficiência e arrogância –, a acusação de si mesmo expressa aquilo que, nas Bem-aventuranças, Jesus chama de pobreza de espírito (...) Ao acusar a mim mesmo, confiando na misericórdia de Deus, o mau espírito é exposto e perde o controle. Muitas vezes, o que nos divide não é resultado de ter diferentes pontos de vista, mas do mau espírito por trás desses pontos de vista, que se esconde na espiral contagiosa da acusação e contra-acusação. Se aquilo que me separa do meu irmão ou irmã é o meu espírito de arrogância e superioridade (e também o deles), o que nos une é a nossa vulnerabilidade partilhada, nossa mútua dependência de Deus e dos outros. Já não somos rivais, mas membros da mesma família. Podemos discutir e discordar, mas já não ficamos presos numa espiral viciosa de antagonismo mútuo. Não pensamos o mesmo, mas somos parte do mesmo Corpo, caminhando juntos” (2020, pp. 83-84, grifo nosso). 

[24]  Francisco atribui, particularmente, à Romano Guardini (1885-1968) sua maneira de gerir tensões e conflitos. Seu projeto de doutoramento inconcluso intitulava-se “Oposição polar como estrutura de pensamento cotidiano e de proclamação cristã” (2020, p. 158, nota 17). Francisco – à luz do pensamento guardiniano – explica a distinção entre “contraposição” e “contradição”: “Um dos efeitos do conflito é ver como contradição o que, de fato, são contraposições, como gosto de chamar. Uma contraposição implica dois polos em tensão, que se separam um do outro: horizonte/limite, local/global, o todo/a parte etc. São contraposição, porque, mesmo sendo opostos, interagem numa tensão fecunda e criativa”, e exprime: “como Guardini me ensinou, a Criação está cheia dessas polaridades vivas, ou Gegensätze; são elas que nos dão vida e dinamismo. Por outro lado, as contradições (Widersprüche) exigem que escolhamos entre certo e errado. (Bom e mau nunca podem ser uma contraposição, porque mau não é a contraparte de bom, mas sua negação)”. E conclui: “Ver as contraposições como contradições é um pensamento medíocre, que nos afasta da realidade. O mau espírito – o espírito de conflito, que afeta o diálogo e a fraternidade – transforma sempre as contraposições em contradições, exigindo que escolhamos um dos lados e reduzindo a realidade a simples binário. É o que fazem as ideologias e os políticos sem escrúpulos. Assim, quando enfrentamos uma contradição que não nos deixa avançar para uma solução real, sabemos que estamos diante de um esquema mental reducionista e parcial, que devemos procurar superar” (2020, pp. 88-89). 

[25]  E acresce que, através do discernimento, será possível “ver além da superfície as razões para o desacordo, permitindo aos envolvidos a possibilidade de uma nova síntese, que não destrói nenhum dos polos, mas conserva o que é bom e válido em ambos, assumindo-os de uma nova perspectiva” (2020, p. 89). 

[26]  “Quando encaramos opções e contradições, nos perguntarmos qual é a vontade de Deus ajuda a nos abrirmos a possibilidades inesperadas. Estou me referindo a essas novas possibilidades como um ‘transbordamento’, porque frequentemente as margens do nosso pensamento transbordam. O ‘transbordamento’ acontece quando, com humildade, apresentamos a Deus o desafio que enfrentamos e Lhe pedimos ajuda. Chamamos isso de ‘discernimento de espíritos’, porque se trata de distinguir o que verdadeiramente é de Deus e o que procura frustrar Sua vontade” (2020, pp. 27-28). Francisco acresce: “tais transbordamentos de amor acontecem sobretudo nas encruzilhadas da vida, em momentos de abertura, fragilidade e humildade, quando o oceano do amor de Deus rebenta os diques da nossa autossuficiência e permite, assim, uma nova imaginação do possível” (2020, p. 90). 

[27]  “A acusação de si mesmo é o anticorpo para o vírus da consciência isolada, e a humildade diante de Deus é a chave para a fraternidade e a paz social” (2020, p. 85, grifo nosso). 

[28]  Francisco exemplifica-o, por exemplo, na Gaudete et Exsultate: “Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á porventura entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano?” (98). 

[29]  Francisco complementa: “A morte e a ressurreição de Jesus Cristo, o Seu amor na Cruz, é o que nos (...) convida a nos reconhecermos como irmãos em uma grande família humana, principalmente daqueles que se sentem órfãos” (2020, p. 116). Já na Evangelii Gaudium Francisco apontava que “a ação pastoral deve mostrar ainda melhor que a relação com o nosso Pai exige e incentiva uma comunhão que cura, promove e fortalece os vínculos interpessoais” (67). 

[30]  João é imperativo: “Este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também seu irmão” (1Jo 4,20-21). 31.  Francisco dedica a isso, por exemplo, todo o quarto capítulo da Evangelii Gaudium, intitulado “A dimensão social do Evangelho”, publicada no primeiro ano de seu pontificado, em 2013. 

[31]  “Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corre-se o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é junto que se constroem os sonhos. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos dessa mesma terra que nos abriga a todos (...) todos irmãos” (FT 8). 

[32]  “Palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento (...) queremos bani-las de todos os tempos!” (2020c). 

[33]  Para fomentar a sensibilidade fraterna nos cristãos, Francisco ressalva a importância que “a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos” (FT 86, grifo nosso). 

[34]  Poema Esperanza de Alexis Valdés, citado por Francisco no final do livro Vamos sonhar juntos (pp. 149-150).