A especificidade da Páscoa Cristã em relação à Pessach judaica
The specificity of the Christian Easter in relation to the Jewish Pessach

Sidnei Fernandes Lima
Doutor em Teologia dos Sacramentos pelo Pontifício Ateneo Santo Anselmo em Roma. Professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Contato: padre.sidnei@gmail.com

Arthur Carvalho Moraes
Bacharel em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Contato: arthur_moraes@hotmail.com


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Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar a linha de descontinuidade que há entre a Pessach Judaica e a Páscoa Cristã. Se, de um lado, os autores do Novo Testamento interpretaram o mistério da morte e ressurreição de Cristo a partir de categorias pascais, os gestos e palavras de Jesus, por outro lado, presentes na última ceia, possuem algo de originalidade – consubstanciado na identificação do corpo e sangue com o pão e o vinho – que consistirá no núcleo da “nova Páscoa” cristã. Ademais, essa primitiva celebração cristã será concebida como encontro com o Ressuscitado, mediante a qual renova-se a esperança dos cristãos na libertação definitiva de toda situação de pecado e da própria morte (cf. 1Cor 15,20-23).

Palavras-chaves: teologia bíblica; Pessach; Páscoa Cristã; descontinuidade

Abstract: This article aims to present the line of discontinuity that exists between the Jewish Pesach and the Christian Easter. If, on the one hand, the authors of the New Testament interpreted the mystery of the death and resurrection of Christ based on paschal categories, the gestures and words of Jesus, on the other hand, presents in the Last Supper, have something of originality - embodied in the identification of the body and blood with the bread and the wine - which will be the nucleus of the Christian "New Easter". Furthermore, this early Christian celebration will be conceived as an encounter with the Resurrected, through which the hope of christians is renewed in the definitive liberation from every situation of sin and death itself (cf. 1Cor 15,20-23).

Keywords: biblical theology; Pessach; Christian Easter; discontinuity

Introdução

Desde que o “mistério pascal” foi reposicionado no centro do culto cristão pela reforma litúrgico-eclesial operada pelo Concílio Vaticano II, a importância da Páscoa tornou-se evidente para a vida da Igreja. Na Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium (SC), n. 5, os padres conciliares expõem com clareza a natureza do culto de Cristo: 

Esta obra da Redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, da qual foram prelúdio as maravilhas divinas operadas no povo do Antigo Testamento, completou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal de Sua sagrada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão. Por este mistério, Cristo, “morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando, recuperou a nossa vida” (Missal Romano, prefácio da Páscoa) (SC, n. 5, grifos nossos).

Vê-se, portanto, que, ao mistério salvífico da Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus Cristo, o Concílio Vaticano II dá o nome de “mistério pascal”. Por esse termo, inscrito no esforço conciliar de “retorno às fontes”, faz-se alusão ao evento da Páscoa na Antiga Aliança, pelo qual o povo hebreu experimentou a ação libertadora operada por Deus (cf. Ex 12,1-28). Quando a Sacrosanctum Concilium preceitua que “foram prelúdio as maravilhas divinas operadas no povo do Antigo Testamento” (SC, n. 5), pontua a importância da economia veterotestamentária – em especial, a Pessach[1] judaica – para se compreender o Mistério Pascal de Cristo. (SORCI, 2001, p. 772)

A importância da festa judaica de Pessach evidencia-se também pela centralidade que o memorial da libertação do Egito possui na oblação de Jesus Cristo. O grande mistério redentor da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo ocorreu em ambiente da festa pascal judaica. A ela, os quatro Evangelhos fazem referência (Mc 14,12-16; Mt 26,17-19, Lc 22,7-13; Jo 13,1). O próprio Jesus, já pela tradição neotestamentária (1Cor 5,7; cf. Jo 1,29.36), é identificado com o cordeiro pascal feito oferenda agradável a Deus. (SERRANO, 1997, p. 37-38).

Ademais, assim como a Pessach judaica é memorial da ação libertadora de Deus em favor do povo escolhido (cf. Ex 12,1-28), Jesus também quis deixar, na última ceia, um memorial definitivo de sua ação salvífica operada na cruz (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20; 1Cor 11, 23-26), quando, em um gesto profético, deixa o pão e vinho como sacramentais de sua presença na celebração cristã.

Nesse sentido, os autores do Novo Testamento tomarão das categorias dessa festa os significados mais importantes para interpretar a morte e ressurreição de Jesus Cristo, de modo que a Páscoa cristã foi elaborada e concebida pelos primeiros cristãos dentro do horizonte semântico e de significações da Pessach Judaica. (SERRANO, 1997, p. 52)

Contudo, a influência judaica não explica a origem da Nova Páscoa dos cristãos enquanto autodoação de corpo e sangue do Senhor Ressuscitado, tal como consta nos relatos das primeiras celebrações cristãs. A Páscoa Cristã, celebrada semanalmente no domingo como “fração do pão”, possui algo de profundamente original em relação à Páscoa Judaica. 

Isso porque repetir os gestos da última ceia do Senhor significava, para os discípulos, entrar em comunhão com o próprio Jesus, que se oferece ao Pai em sacrifício (cf. 1Cor 10,16). Pelas palavras e gestos da última ceia, que identificam o pão com o corpo e o vinho com o sangue, Jesus dá-se a si mesmo, anunciando profeticamente a sua entrega definitiva, que se realizaria na Cruz. Esse será o ponto central da celebração primitiva do povo cristão.

Ademais, a Páscoa Cristã das primeiras comunidades era memorial não apenas do sacrifício de Jesus operado na cruz, mas celebração da ressurreição de Cristo, realizada no 8º dia, domingo, dia da nova criação (BOROBIO, 2005, p. 15, tradução nossa; BENTO XVI, 2011, p. 133). Enquanto celebração da presença viva do Ressuscitado no meio de nós (cf. DD[2], n. 29), a “fração do pão” é encontro com o Ressuscitado (cf. Lc 24,13-35), em que se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. 

Este artigo tem como objetivo apresentar as especificidades da celebração da Páscoa Cristã em relação a Pessach judaica. Para isso, pauta-se em dois argumentos fundamentais: a Páscoa Cristã enquanto comunhão com o corpo e sangue de Jesus Cristo e como memorial da ressurreição do Senhor. Não sem motivo, a nova celebração cristã usa o vinho e o pão, típicos da pessach judaica, mas tem lugar em ritmo semanal, em dia de domingo, em vez do ciclo anual usado pelos judeus. 

1. Páscoa Cristã enquanto comunhão com o corpo e sangue de Cristo (1Cor 10,16)

Analisando a práxis litúrgica das primeiras comunidades cristãs, um ponto salta aos olhos: a comunidade cristã primitiva se reunia no primeiro dia da semana, que depois se chamaria “domingo” – “dia do Senhor” –, para celebrar o que nomearam de “a fração do pão”, em obediência ao mandato do Senhor: “fazei isto em memória de mim”. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 21-22.)

Da tradição da última ceia, tomada na noite de Páscoa – ou, ao menos, em contexto pascal –, de onde provinha o mandado de iteração, os discípulos tomam fundamento e inspiração para uma celebração própria, fora das sinagogas judaicas e do dia de shabat, em que fazem memória (anamnesin, zikkaron) e entram em comunhão com o próprio Senhor (cf. 1Cor 11,23: eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti).[3]

Se a morte de Cristo é o novo êxodo (cf. Jo 31,1) e ele é o autêntico cordeiro pascal que se imola por todos (cf. 1Cor 5,7 e Jo 19,36), não há mais do que um passo para que a Eucaristia se entendesse como o equivalente cristão a ceia pascal judaica. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 74)

Conforme atestam os Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42; 20,7), essa prática litúrgica primitiva era conhecida por “fração do pão”, expressão que advém das refeições judaicas, sobretudo da ceia pascal, a mais expressiva das ceias sagradas (ALDAZÁBAL, 2002, p. 45), porque seu primeiro gesto é precisamente que o pai de família tome em suas mãos o pão e com uma bênção a Deus o parta para os seus. (JEREMIAS, 2003, p. 127-130; PERROT, 2006, p. 83)

Contudo, esse gesto, para os cristãos, ganhou sentido específico e se configurou como nome primitivo de sua própria celebração[4], entendida em referência ao corpo e sangue de Cristo. Conforme se constata nos relatos deixados por Atos dos Apóstolos e pelas cartas paulinas, havia algo de profundamente original nas primeiras celebrações cristãs, de modo que “a comunidade não celebra a ceia segundo o rito pascal, nem mesmo uma vez por ano, mas todos os dias, ou todos os domingos” (JEREMIAS, 2003, p. 64, tradução nossa). 

Os primeiros cristãos, quando se reuniam para a “fração do pão”, o que celebravam era o mistério da nova Páscoa, isto é, o mistério da morte e ressurreição de Cristo, seu trânsito [passagem] deste mundo para o Pai (Jo 13,1). (SERRANO, 1997, p. 83)

De fato, um dos escritos mais antigos do Novo Testamento, a Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, redigida por volta do ano 55, questiona se: o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? (1Cor 10,16).

“Cálice da bênção” e “pão que partimos” são expressões judaica tomadas de contexto pascal. O “cálice da bênção” designa, entre os judeus, o cálice sobre o qual o presidente da refeição recita uma oração de louvor e bênção (berakah): esse cálice, na refeição pascal, é o terceiro de uma série de quatro (LEGASSE, 1985b, p. 59)[5]. O “partir o pão” designava tanto o ato do presidente da refeição (pai de família) que tomava o bolo[6] de pão ázimo e o repartia entre os comensais, quanto o rito introdutório da refeição. (JEREMIAS, 2003, p. 127)

Contudo, os primeiros discípulos tomam essas expressões com sentido novo: o cálice da bênção – agora abençoado também pelos cristãos – e o pão partido fazem entrar em comunhão (koinônia) com o sangue e corpo de Jesus Cristo. Eram expressões antigas, mas tomadas com significados inéditos. Assim explica o autor Serrano (1997, p. 55): “creio que os primeiros cristãos celebraram assim a Páscoa, desde o princípio: com os ritos antigos, mas com o novo conteúdo que Jesus lhes dera na ceia com seus discípulos. Era uma tradição recebida do Senhor (1Cor 11,23)” (SERRANO, 

A palavra que se traduz por “comunhão” ou “participação” (koinônia) é um termo usado por Paulo que caracteriza seu vocabulário. Em 1Cor 1,9, Paulo escreve “é fiel o Deus que vos chamou à comunhão [koinônia] com o seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. Para Paulo, a salvação cristã consiste em se estabelecer uma relação particular com Jesus Cristo, a fim de se tornar, graças à “comunhão do Espírito Santo” (2Cor 13,13), filho adotivo e, assim, chegar até Deus (cf. Rm 8,14-17; Gl 4,6-7). (LEGASSE, 1985b, p. 61) 

Simon Legasse mostra que a união (comunhão) do cristão com Jesus se efetua por intermédio do duplo binômio vinho-sangue e pão-corpo, conforme deixado por ele na última ceia. Confira o esquema a seguir:

Quadro 1 – união do cristão com Jesus por meio do binômio vinho-sangue e pão-corpo.

nós   ->   vinho   ->   sangue   ->   Cristo

nós   ->   pão     ->   corpo     ->   Cristo

Fonte: LEGASSE, 1985b, p. 61.

Nesse sentido, bebendo o vinho, o cristão participa do sangue de Cristo; comendo o pão, o cristão entra em comunhão com o corpo de Cristo.[7] É por isso que Paulo adverte os coríntios para não comer as carnes sacrificadas das celebrações pagãs, haja vista que, mesmo os ídolos pagãos não significando nada para Paulo, isso poderia ser interpretado como entrar em comunhão (koinônia) com os demônios pagãos, o que poderia ser motivo de escândalo para a comunidade (cf. 1Cor 10,20.32): não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1Cor 10,21). (SERRANO, 1997, p. 47)

Basta pesquisar a história das religiões para se demonstrar que o homem associa espontaneamente o comer e o beber a seus atos religiosos. Sem sair do mundo pagão que cercava são Paulo, muitos templos eram ao mesmo tempo, por assim dizer, restaurantes aos quais se convidavam os amigos para refeições, sendo o deus suposto hospedeiro-conviva. (LEGASSE, 1985b, p. 63)

Assim, a mesa do Senhor é aquela para a qual o Senhor Ressuscitado, tal qual os deuses pagãos, convida os seus discípulos a fim de uni-los a si (fazê-los entrar com comunhão consigo). Tal é, segundo Simon Legasse, a conclusão a que se pode chegar a partir do contraste que Paulo faz da participação na mesa do Senhor com a participação na mesa dos ídolos pagãos. (LEGASSE, 1985b, p. 64)

Conforme o relato de Paulo, o contexto é de culto. A refeição cristã não é apenas caracterizada por um cunho religioso como as refeições domésticas judaicas, especialmente as festivas, tomada em ação de graças e em memória das libertações do passado (entre as quais, destaca-se a Pessach). A mesa do Senhor aparece como um autêntico ato de culto, e culto ao Senhor Jesus Cristo. “Sem dúvida, Cristo ocupa de algum modo o lugar do ídolo nos banquetes sagrados, mas apenas para reivindicar que é ele próprio o termo desse culto” (LEGASSE, 1985b, p. 64, grifos nossos ). 

Vê-se, portanto, que a celebração cristã significava, para os primeiros discípulos que dela tomavam parte, entrar em relação (ou comunhão) com o próprio Jesus, estabelecer com ele uma intimidade, de modo que pudessem, unidos a Cristo, serem levados, mediante Ele, a Deus (cf. 1Cor 3,23). O Papa João Paulo II, na Carta Apostólica Dies Domini (DD), não deixa dúvidas dessa conclusão: “a participação na ceia do Senhor é sempre comunhão com Cristo, que por nós se oferece ao Pai em sacrifício” (DD, n. 44).

A importância e o valor desse testemunho de Paulo deixado na 1ª Carta aos Coríntios residem fundamentalmente no fato de que se trata do primeiro documento escrito que atesta a existência dessa primitiva celebração litúrgica, estando muito próximo, cronologicamente, ao evento fundador da eucaristia. Se a conversão de Paulo ocorreu alguns anos após a morte de Jesus, por volta do ano 35/36, e a Primeira Carta aos Coríntios tenha sido escrita por volta do ano 55, são apenas 20 anos para se constituir, na cidade de Corinto, essa primitiva práxis cristã, que Paulo pressupõe. (SERRANO, 1997, p. 46)

De fato, por volta do ano da redação da carta (55 d.C.), os binômios “cálice-sangue” e “pão-corpo” já são presumidos por Paulo, como uma verdade prévia. Conforme 1Cor 10,16, o apóstolo dos gentios usa esses binômios em perguntas retóricas, às quais os habitantes de Corinto só podem responder afirmativamente, porque já sabem que o cálice de vinho e o pão repartido são comunhão com o sangue e o corpo de Cristo ALDAZÁBAL, 2002, p. 90-91). O prof. Borobio (2005, p. 6, tradução nossa) assim se exprime acerca do que consiste a “ceia do Senhor” na 1ª Carta aos Coríntios:   

Para Paulo, a eucaristia faz as vezes de resumo de toda a realidade cristã de salvação, é a ceia do Senhor em que continua atuando o poder do Kyrios glorioso (cf. 1Cor 11,20), e na qual o comer e beber são anúncio rememorativo da morte do Senhor, pois se trata de uma “comida sacrifical” muito diferente das comidas sacrificais dos judeus e dos gentios (1Cor 10,18-22). 

Para o Papa Bento XVI, a ação de Jesus de partir o pão, além de ser o gesto do pai de família para os comensais – o que recorda a ação de Deus Pai que distribui os dons à humanidade –, significa um gesto de hospitalidade, em que o judeu fazia participar o estrangeiro das coisas próprias, acolhendo-o na comunhão do banquete. Assim, em Jesus, quando parte o pão, há uma dimensão profundamente nova: Ele não apenas dá alimento a quem necessita (cf. Mc 6,30-44; 8,1-10; Mt 14,13-21; 15,32-39; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15), mas dá-se a Si mesmo. 

A bondade de Deus, que se manifesta no distribuir, torna-se totalmente radical no momento em que o Filho, no pão, Se comunica e distribui a Si mesmo. [...] Nela nos beneficiamos da hospitalidade de Deus, que, em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, Se entrega por nós. (BENTO XVI, 2011, p. 123)

Não é à toa que esse gesto de “fração ou partir o pão” foi o primeiro nome que designou a celebração primitiva cristã. Ainda que não tivessem sido captadas em seu máximo alcance pelos discípulos – o que irá ocorrer após a morte e ressurreição de       Jesus –, as palavras da última ceia ditas sobre o pão e o cálice anunciam a doação/entrega definitiva que Jesus realizou na cruz.

Jesus faz do pão partido  sinal do destino do seu corpo e do sangue da uva, sinal do seu sangue derramado. «Vou morrer como a verdadeira vítima da Páscoa»; este é o significado da última ação simbólica de Jesus. O fato de Jesus expressar a mesma ideia com uma dupla explicação é consistente com sua preferência pelo uso do paralelismo. (JEREMIAS, 2003, p. 246, tradução nossa) 

Giraudo ajuda a entender a relação fundamental existente entre esses três eventos sucessivos (última ceia – oblação de Jesus na cruz – celebração cristã), os quais, embora diversos em relação às respectivas coordenadas espaçotemporais, encontram-se unidos no mesmo ritual.

Desse modo, estaremos em condições de entender melhor, no âmbito neotestamentário, a relação dinâmico-salvífica entre o sinal profético dado na última ceia, o evento fundador da morte-ressurreição do Senhor e o momento ritual por excelência da Igreja que são nossas celebrações eucarísticas. (GIRAUDO, 2014, p. 95, grifos do autor )

Ou ainda: 

A compreensão das palavras institucionais como o oráculo de promessa com que o Senhor Jesus, na véspera de sua paixão, se deu profeticamente à comunidade do cenáculo e, por meio dela, à Igreja de todos os tempos, sob o sinal do pão partido e do cálice do sangue derramado, aporta clarificações que estão longe de serem secundárias para a teologia eucarística. Ela põe à luz ao mesmo tempo a diversidade e o nexo íntimo que existe entre a última ceia, a morte-ressurreição do Senhor e nossas missas. Estes três momentos, embora sendo diversos em relação às respectivas coordenadas espaçotemporais, estão de fato destinados a tomarem-se, no rito, um único e mesmo momento, o momento de nossa reapresentação sacramental ao sacrifício da cruz, mediante a retomada formal, não só dos sinais dados para esse propósito na última ceia, mas das mesmas palavras com que eles nos foram dados. (GIRAUDO, 2014, p. 164)

Para compreender essa relação existente entre última ceia, oblação de Jesus e Páscoa cristã, vale recordar a categoria de memorial presente na tradição judaica e cristã. Com ela, entende-se que a eucaristia não possui dimensão unicamente histórica, com referência ao passado. Ao revés, o evento fundador – que não é mais o Êxodo do Egito, mas a oblação de Jesus na cruz – é revivido no presente, trazendo efeitos para os cristãos que dela tomam parte.

Além da repetição no presente, a categorial de memorial carrega uma abertura ao futuro. Na Pessach, os hebreus recordavam sua saída do Egito e renovavam a esperança na libertação definitiva prometida por Deus. Em Jesus, concebido como o Messias, os cristãos celebram seu memorial, aguardando a segunda vinda de seu mestre (parusia), quando instaurará, em definitivo, o Reino de Deus, cujo sinal é o banquete escatológico de Is 25,6-9. Portanto, Paulo adverte os coríntios: todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha (1Cor 11,26).

Essa dimensão escatológica garante a continuação da ação libertadora e salvífica de Deus operada em Jesus Cristo (SERRANO, 1997, p. 85). Assim, conforme ensina Legasse, a Eucaristia será a Páscoa continuamente oferecida àqueles que creem:

Portanto, não devemos opor o fato de celebrar a eucaristia em memória de Jesus ao itinerário do crente que, pela Ceia, visa a se ligar, para a sua salvação e a de seus irmãos, ao ato redentor. Enquanto comemoração deste último, a eucaristia traduz algo bem diferente do que urna recordação de Jesus destinada a alimentar a piedosa melancolia de seus antigos adeptos: ela afirma a realidade permanente da redenção, de uma páscoa continuamente oferecida aqueles que creem. (LEGASSE, 1985a, p. 49, grifos nossos)

Assim, a comunidade cristã tem cumprido desde então este mandamento: atualizar na memória de Jesus, até que ele retorne, o rito do pão e do vinho transformado em seu corpo e em seu sangue (SERRANO, 1997, p. 73). O famoso liturgista José Aldazábal consegue resumir a influência dessa categoria de memorial na nova Páscoa cristã, que alude a novos eventos históricos e espera pela realização de novas promessas.

Com esta categoria tão assimilada pelos judeus [memorial], compreende-se como a primeira comunidade pôde celebrar a Eucaristia aplicando esta chave à nova realidade histórica – agora a morte salvadora de Cristo – com abertura para o futuro – o “até que ele venha” de Paulo – mas, sobretudo com uma consciência feliz de que no “hoje” , na própria celebração, Cristo se faz presente, fazendo-nos partícipes desse acontecimento salvador da cruz e de seu Reino escatológico. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 45)

Ou ainda:

Todo o cenário entende-se no marco de uma relação interpessoal entre Cristo e os discípulos, e em seu gesto de doação e participação: Jesus antecipa e oferece-lhes a comunhão em sua nova aliança da cruz através da Eucaristia, pensando também no futuro. A morte não vai romper os laços de comunhão: ao contrário, tornará possível uma comunhão mais profunda e universal pela nova presença de Cristo e a atualidade perene do acontecimento da cruz para a comunidade escatológica, à qual Cristo promete a doação de si mesmo por meio dos gestos eucarísticos. Cada Eucaristia nos tornará partícipes dos bens escatológicos do Reino. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 83)

O Papa Bento XVI (2011, p. 114), em seu livro Jesus de Nazaré, afirma que “não há nada de mais original do que precisamente a tradição da Ceia”. Discordando que a última ceia de Jesus tenha ocorrido no mesmo dia da Pessach judaica, afirma, contudo, que a eucaristia seja a “nova Páscoa” para os cristãos:  

Jesus convidou os Seus para uma Última Ceia de caráter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele dava algo de novo, isto é, dava-Se a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa. (BENTO XVI, 2011, p. 110)

De fato, ainda que se considere a influência do seder pascal na última ceia de Jesus, há de se destacar que a frase de Jesus após repartir o pão no começo da refeição, quais sejam, “isto é o meu corpo por vós: fazei isto em minha memória” (1Cor 11,24), são inesperadas palavras ao rito judaico. De igual forma, após terminar a ceia, quando se tomava o terceiro cálice – “cálice da bênção” –, Jesus, mais uma vez, pronúncia palavras proféticas que não estavam no ritual pascal: “este cálice é a nova aliança em meu sangue. Cada vez que o beberdes, fazei-o em minha memória" (1Cor 11,25). (BELMAIA, 2017, p. 555-556)

A diferença entre a interpretação das particularidades do rito pascal e as palavras explicativas de Jesus é que a primeira se refere principalmente à história salvífica passada; as palavras de Jesus, ao revés, à história salvífica presente; mas essa diferença é facilmente explicada no contexto da Última Ceia. (JEREMIAS, 2003, p. 63, tradução nossa)

Para Pesch, Jesus se interpreta, mediante essas palavras e gestos, como o Messias, fonte de bênção e salvação, mediador salvífico. Ademais, pelo sangue, concede aos discípulos participação na expiação dada com a sua morte e na comunhão com Deus na "nova aliança".

Em sua explicação do pão, ele pressupõe o significado particular de sua própria pessoa. Os discípulos puderam compreender isto: este sou eu, o Messias. O gesto com o pão, juntamente com as palavras de explicação que se referem enfaticamente à pessoa de Jesus, não podiam ser entendidos pelos discípulos senão como uma auto interpretação messiânica e admissão à comunhão com Ele como Messias (cf. 1 Cor 10,16 ).

[...]

Também com a explicação do vinho, Jesus se interpreta como mediador da salvação: como mediador da (nova) aliança, que Deus estabelece por meio de sua morte para os outros. Os destinatários de seu dom (antecipado) representam o novo povo de Deus, redimido por sua morte, e tornam-se as mensagens da “nova aliança”, à qual todo Israel, e posteriormente todos os povos, convidam após a Páscoa. (PESCH, 1980, p. 529.533, tradução nossa)

Diante disso, Bento XVI (2011, p. 111) conclui que, resguardada a nítida influência da Pessach judaica na última ceia, as palavras e gestos pelos quais Jesus se deu a Si mesmo aos discípulos no pão e no vinho constituem o núcleo central da tradição da última ceia e aquilo que é determinante na celebração primitiva do povo cristão. 

Mas surge a pergunta: O que é que o Senhor mandou, concretamente, repetir? Seguramente não foi a ceia pascal [...] a ordem diz respeito apenas àquilo que constituía uma novidade nas ações de Jesus naquela noite: o partir o pão, a oração de bênção e agradecimento e, com ela, as palavras da transubstanciação do pão e do vinho. (BENTO XVI, 2011, p. 131)

Isso não significa que os primeiros cristãos tenham agido errado em interpretar a sua reunião dominical com as categorias de páscoa. Em Jesus, há uma nova Páscoa, a sua Páscoa, de modo que se possa buscar um visão unificadora entre o Antigo e Novo Testamento. É isso o que Paulo faz em 1Cor 5,7, ao evidenciar a dimensão moral da nova celebração cristã mediante o vocabulário pascal, já conhecido pelos Coríntios.

O primeiro testemunho dessa visão unificadora do novo e do antigo, que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação à Páscoa no contexto da sua morte e ressurreição, encontra-se em Paulo, em I Coríntios 5, 7: “Purificai-vos do velho fermento para serdes nova massa, já que sois sem fermento. Pois nossa Páscoa, Cristo, foi iniciada” (cf. Meier, A Marginal Jew, I, pp. 429s). [...] Agora os ázimos "sem fermento” devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. Mas o Cordeiro imolado é Cristo. Nisso, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece. Com base nisso, pode-se compreender como a Última Ceia de Jesus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – acaba, bem depressa, por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E o era verdadeiramente. (BENTO XVI, 2011, p. 110-111)

Jesus é, assim, o fundador da nova Páscoa, em que a Eucaristia substitui o cordeiro pascal. “Uma comunidade que continuou a celebrar a festa judaica da Páscoa de uma forma 'nova', cristã, procurou o modelo desta nova celebração na Última Ceia de Jesus” (SCHÜRMANN, 1951, p. 424 apud JEREMIAS, 2003, p. 132, tradução nossa). Assim, ainda que tenha resgatado categorias da antiga pessach judaica, toda a celebração cristã possui fundamento no próprio Jesus Cristo: “No ‘dia do Kyrios’ reúne-se ‘a comunidade do Kyrios’ para celebrar a ‘ceia do Kyrios’: toda a vida cristã está centrada no Senhor, o Kyrios glorioso” (ALDAZÁBAL, 2002, p. 29).

Portanto, a Páscoa celebrada pelos cristãos tem algo de originalidade em relação à Páscoa Judaica, aquilo que, pouco a pouco, vai identificá-los e distingui-los da comunidade dos judeus, qual seja, a eucaristia (EYT, 1985, p. 85). Nesse sentido, confira magistral conclusão de Bento XVI (2011, p. 110, grifos nossos):

Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial dessa Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou nesse contexto. Mesmo que esse banquete de Jesus com os Doze não tenha sido uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se, com a morte e ressurreição de Jesus, evidente o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, nesse sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou: os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo, e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Dessa forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim o poderia ser – levado ao seu sentido pleno.

2. Jesus é o Ressuscitado: a esperança escatológica da vitória sobre a morte

No tópico anterior, foi visto que o novo culto dos cristãos representava entrar em comunhão com o corpo e sangue de Cristo. Contudo, o que mais diferencia a nova celebração cristã da Pessach judaica é ser o memorial da Ressurreição de Jesus, o que O torna uma presença viva em sua comunidade reunida. De fato, a Eucaristia das primeiras comunidades e mesmo a última ceia de Jesus têm as suas raízes não só na vida e morte de Cristo, mas especialmente na sua Ressurreição (BOROBIO, 2005, p. 15, tradução nossa; BENTO XVI, 2011, p. 133). 

A Páscoa cristã, do ponto de vista histórico uma continuação da festa pascal judaica, mas com conteúdo diferente, distingue-se, em nossa avaliação, pela lembrança da Ressurreição de Jesus. (MICHL; BAUER, 2004, p. 312)

Enquanto presença viva de Jesus na comunidade cristã, a ressurreição do Senhor é a fonte última da qual emana a eucaristia da Igreja posterior, a ponto de que sem a ressurreição a eucaristia não existiria. Isso porque, se a vida e morte de Jesus poderiam suscitar a memória dos discípulos, só a ressurreição poderia ser geradora da presença de Cristo na celebração cristã (BOROBIO, 2005, p. 15, tradução nossa)[8].

Mas, visto que o dom de Jesus é essencialmente um dom radicado na ressurreição, na celebração do sacramento devia necessariamente estar a memória da ressurreição. (BENTO XVI, 2011, p. 133)

É tão nítido o fato de a “Nova Páscoa cristã” celebrar a Presença do Ressuscitado, que o teólogo Manuel Gesteira (1992, p. 74) afirma que as experiências iniciais da presença viva do Ressuscitado chegam a influenciar os relatos bíblicos das aparições e, posteriormente, os Atos dos Apóstolos, os quais revelam uma práxis cristã primitiva, que se prolongará pelos séculos.

O Livro dos Atos dos Apóstolos não afirma explicitamente que o "partir do pão" seja a presença do Ressuscitado. No entanto, dá a entender que esse gesto era a memória viva do evento da ressurreição, o que é indicado pela alegria transbordante da comunidade reunida que parte o pão nas casas (At 2,42-47). (GESTEIRA, 1992, p. 65)

Ademais, Pedro, anunciando aos pagãos um dos querigma mais primitivos, traz uma relação mais clara entre a ressurreição e a comunidade reunida, quando fala de “comer” e “beber” com Jesus, após a ressurreição:

Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e concedeu-lhe que se tornasse visível, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, isto é, a nós, que comemos e bebemos com ele, após sua ressurreição dentre os mortos (At 10,40-41).

Contudo, nenhum texto neotestamentário traz de forma tão clara a relação eucaristia-ressurreição quanto o relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Trata-se de uma catequese eucarística (MARCHADOUR, 1985b, p. 73), organizada em uma unidade literária “estruturalista” (ALDAZÁBAL, 2002, p. 26). 

A cena é construída desde a saída de Jerusalém, quando os dois discípulos abandonam a comunidade, até sua volta à mesma comunidade; da desesperança até a alegria; dos olhos vendados (v. 16) até os olhos abertos (v. 31); do desconhecimento do companheiro de caminhada até seu reconhecimento na partir do pão. No meio do caminho físico e espiritual, está a grande revelação de que o Messias, que devia morrer e ser glorificado (v. 25-27), está vivo, isto é, ressuscitado. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 26)

Nessa perícope, Lucas objetiva ressaltar a presença do Ressuscitado na comunidade e, mais precisamente, na fração do pão. Através de três elementos, quais seja, a Palavra, a fração do pão e a comunidade reunida[9] – elementos que vão caracterizar e estruturar a Eucaristia –, Lucas sinaliza como os discípulos podem fazer a experiência com o Ressuscitado. Portanto, é uma catequese escrita para leitores que não conheceram pessoalmente a Jesus, mas que assiduamente já estão participando da Eucaristia. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 33)

Desde que Cristo inaugurou a nova era através de sua morte, os cristãos que não o conheceram em sua vida terrena e não o veem podem “encontrar-se com ele” e experimentar assim sua presença viva. E precisamente as três chaves – palavra, Eucaristia e comunidade – se concentram de modo privilegiado na celebração cristã por excelência, a fração do pão. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 33)

Assim, o liturgista Borobio considera esse texto como uma “catequese historicizada”, elaborada pela comunidade lucana a partir de uma experiência eucarística celebrativa. “A intenção do autor seria ressaltar o acontecimento da ressurreição, assim como a presença do Ressuscitado que continua e se reconhece no ‘partir do pão’” (BOROBIO, 2005, p. 7, tradução nossa).  

Segundo o relato, Cristo Ressuscitado continua presente acompanhando a comunidade, e todas as sequências da Eucaristia estariam referidas a essa presença viva e ativa do Ressuscitado, desde o encontro ou reunião, passando pela Palavra, e chegando à missão ou anúncio, mas sobretudo esta presença, assim que reconhecida e confessada, aparece unida à fração ou ao "partir o pão" (24,30-31). (BOROBIO, 2005, p. 16, tradução nossa)

De fato, as celebrações das primeiras comunidades descritas por Lucas (Evangelho e Atos) têm uma relação bem viva com Cristo Jesus. O teólogo Aldazábal ensina que, na obra lucana, a principal motivação para os cristãos se reunirem na “fração do pão” é a presença do Senhor ressuscitado. 

Pode-se dizer que a ideia central, sobretudo dos textos de Lucas, é a presença do Senhor ressuscitado, uma presença nova e misteriosa no meio dos seus e precisamente no contexto da Eucaristia: assim se pode entender a intenção de Lucas em seu sumário da vida comunitária [At 2,42-46], na celebração de Trôade [At 20,7-12], no relato de Emaús [Lc 24,13-35] e no episódio do naufrágio [At 27,33-38]. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 32, grifos do autor )

Segundo Aldazábal, a obra lucana não sublinha tanto a espera escatológica nem a recordação memorial da morte de Cristo na cruz, mas, sim, sua presença viva hoje. “O fato eucarístico vem ligado ao Senhor glorioso como Kyrios, Salvador, doador de consolo e de vida, que vem ao encontro dos seus e o faz de modo privilegiado na ceia eucarística como aquele que une, que enche de alegria, que salva e dá a vida” (ALDAZÁBAL, 2002, p. 33).

Devem ter pressentido que esta morte era um ato de nascimento para eles, uma participação a uma aliança nova. Será preciso a páscoa para que isso se torne explícito. Hão de compreender então que se deve fazer memória não apenas de uma morte permanente, mas também de uma presença nova: a do Senhor que continua a convocá-los para sua refeição. (MARCHADOUR, 1985a, p. 57)

A vinculação da celebração cristã com a ressurreição mostra-se ainda evidente em razão de a reunião dos cristãos acontecer no primeiro dia da semana, justamente o dia da ressurreição. Nos relatos escritos deixados pelos Atos dos Apóstolos, vê-se que a celebração cristã primitiva não possuía um ritmo anual, como a páscoa judaica, mas semanal. “O costume semanal se impôs rapidamente, em ligação direta com o motivo da ressurreição no oitavo dia” (PERROT, 2006, p. 100). 

É aos domingos, no “dia do Senhor” – como o chama Ap 1,10 –, que a comunidade se reúne, em torno da mesa, para entrar em comunhão com o Ressuscitado. Mais que apenas uma determinação cronológica da liturgia cristã, essa escolha pelo domingo define a natureza íntima e a forma desse novo culto, de modo que Bento XVI (2011, p. 135) considera que “a ressurreição é o lugar exterior e interior do culto cristão”.

Realizando-se no domingo, a “fração do pão” é, assim, celebrada como encontro com o Ressuscitado (cf. At 20,6-11). O primeiro encontro com o Ressuscitado havia acontecido na manhã do primeiro dia – três dias após a morte de Jesus (cf. Jo 20,1). “Assim, a manhã do primeiro dia tornava-se espontaneamente o momento do culto cristão, o domingo, o ‘Dia do Senhor’” (BENTO XVI, 2011, p. 133).

Com razão, o domingo tem forte carga teológica, por superar o shabat judaico. Concebido como o dia em que o Senhor descansou na criação – Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a sua obra de criação (Gn 2,3) –, o sábado era considerado pelos judeus, a partir do pós-exílio, como um dia dedicado a Iahweh. Para os cristãos, o dia de Deus por excelência é o domingo, que será interpretado como o dia da “nova criação”, em que Jesus, vencendo a morte, adquire o “senhorio” sobre toda a criação e inaugura uma nova criação (cf. DD, n. 59). (SERRANO, 1997, p. 99)

Nesse sentido, o Papa João Paulo II, na Carta Apostólica Dies Domini, evidencia: “nós consideramos verdadeiro sábado a pessoa do nosso Redentor, nosso Senhor Jesus Cristo” (DD, n. 18); e sobre o domingo arremata: “é a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento nele da primeira criação e o início da nova criação (cf. 2Cor 5,17)” (DD, n. 1). 

Ainda que a práxis litúrgica cristã venha a conhecer, apenas a partir do século II, uma “Páscoa” anual, celebrada próxima à Pessach judaica, mas em dia de Domingo (ALDAZÁBAL, 2013, p. 281), isso não descarta que a centralidade da vida cristã seja o Ressuscitado. “No ‘dia do Kyrios’ reúne-se ‘a comunidade do Kyrios’ para celebrar a ‘ceia do Kyrios’: toda a vida cristã está centrada no Senhor, o Kyrios glorioso” (ALDAZÁBAL, 2002, p. 29).

Nesse sentido, celebrar a memória da ressurreição – mais que isso, celebrar a presença viva do Ressuscitado no meio de nós (cf. DD, n. 29) – dará significados novos para a libertação operada pela nova Páscoa Cristã. O êxodo não será apenas da escravidão física, mas de toda escravidão do pecado e da morte. 

De fato, a Páscoa de Cristo libertou o homem duma escravidão muito mais radical do que aquela que grava sobre um povo oprimido: a escravidão do pecado, que afasta o homem de Deus, que o afasta também de si mesmo e dos outros, introduzindo continuamente na história novos gérmens de maldade e violência (DD, n. 63).

Assim, mais que as libertações das opressões externas que a Páscoa Judaica proclamava, a celebração cristã liberta de escravidões mais profundas: libertação do pecado, cuja origem é o mal. “[Jesus] se entregaria para conseguir para todos os homens a autêntica liberdade, a que rompe as correntes de todas as escravidões interiores, a que quebra o poder do pecado” (SERRANO, 1997, p. 89). 

Careceriam de sentido e razão nossas celebrações da eucaristia se, como Jesus desejava e para o que se entregou, não nos libertássemos de nossas próprias escravidões e não nos opuséssemos a todas as formas de escravidão que rondam o homem e cuja raiz é o pecado e o mal [...]. O sentido libertador da Páscoa há de penetrar até os últimos rincões do coração humano, porque é neste onde depositam suas raízes todas as escravidões. A celebração da eucaristia há de ser, para uma comunidade cristã, a festa da liberdade, da verdadeira liberdade. (SERRANO, 1997, p. 90).

Sob essa perspeciva, a celebração cristã será a proclamação da ressurreição na comunidade primitiva, que renova as esperanças do cumprimento das promessas do Senhor. Ao superar a morte, Jesus abre as portas do céu a toda a humanidade. Assim, “trata-se de pessoas salvas celebrando seu Salvador” (LEGASSE, 1985b, p. 66, grifos nossos ).

Jesus vai morrer, mas nem por isso sua confiança vai diminuir: precisamente por sua morte vai ser possível a inauguração do Reino e a abertura à nova realidade escatológica. Depois, nesse Reino, compartilharão de novo os discípulos a ceia com o Messias. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 78-79)

Assim, compreende-se como a última ceia teve iminente sentido escatológico, relacionado a instauração do Reino de Deus: porque vos digo que desde agora não beberei mais do fruto da videira até que chegue o reinado de Deus (Lc 22,18).

A última ceia é assinalada pela iminência do Reino escatológico. O anúncio que Jesus havia feito ao longo de sua pregação – o Reino – torna-se agora insistente e urgente, e na ceia se apresenta como iminente. Esta vai ser a última refeição antes de inaugurar esse Reino. (ALDAZÁBAL, 2002, p. 78-79)

Ao celebrar o Senhor Ressuscitado, que veio realizar um “novo êxodo” (cf. DD, n. 63), os cristãos compreenderam que a passagem da morte para a vida realiza-se plenamente na morte e ressurreição de Jesus. (MARCHADOUR, 1985a, p. 52)

O cumprimento das promessas messiânicas e a esperança escatológica da instauração definitiva do Reino de Deus, anunciadas na última ceia de Jesus e realizadas na páscoa definitiva de Jesus, garantem que o humano não fique preso ao pecado e à morte, mas tenha possibilidade da vida eterna enquanto libertação definitiva concedida por Deus na nova aliança selada pelo sangue de Jesus.

Conclusão

Espera-se que o leitor chegue ao final deste artigo com a convicção de que a Páscoa Cristã, celebrada semanalmente no domingo, possui algo de profundamente original em relação à Pessach Judaica. Mesmo na última ceia, tomada em dia (ou contexto) pascal e interpretada segundo categorias pascais, é possível encontrar essa novidade de Jesus, quando identifica seu corpo e seu sangue com o pão e o vinho dados aos discípulos.

O primeiro grande diferencial da celebração cristã será que esta representa entrar em comunhão com Jesus Cristo. O memorial celebrado não é a libertação do Egito, mas a oblação de Cristo na cruz. Essa comunhão se dá mediante o binômio corpo-pão e sangue-vinho. No pão e no vinho entregues, Cristo anuncia a sua autodoação, como sacrifício na cruz. 

Nesse ponto, vale a pena uma reflexão. É incontestável a presença de Jesus na celebração cristã. Essa presença se faz por meio de seu corpo e de seu sangue, que o fiel pode comungar por meio do pão e do vinho. Essa presença é, sem dúvida, real. Mas, em Paulo, essa presença não é estática, identificada a objetos de culto (no caso, pão e vinho) (ALDAZÁBAL, 2002, p. 99). Pelo contrário, conforme assinala Simon Legasse (1985b, p. 68), a presença real de Cristo refere-se a um uso e uma ação, qual seja, beber e comer (“todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” - 1Cor 11,25), o que é confirmado com a advertência posterior de Paulo “eis porque todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11,27).

Isso aponta para um aprofundamento na reflexão sobre a presença real de Cristo na Eucaristia para além das espécies sagradas do pão e do vinho. Não pode se tratar de uma concepção material. Sua presença não se encerra no pão e no vinho, mas estende-se à comunidade que o comunga. É a mesma comunidade que ouve a Palavra de Deus, reúne-se em seu nome e é enviada em missão. Todas essas são realidades eucarísticas que manifestam a presença viva e real do Ressuscitado (cf. Lc 24,13-35).

O segundo argumento apresentado neste artigo é a ressurreição de Cristo. A comunidade primitiva se reunia no domingo, dia da ressurreição, em nítida diferença à reunião judaica do shabat. A vitória de Cristo sobre a morte no 8º dia significava uma superação do sábado judaico, com a instauração da “nova criação” (cf. 2Cor 5,17).

Assim, enquanto celebração da presença viva do Ressuscitado no meio de nós (cf. DD, n. 29), a eucaristia abre as portas do céu a toda a humanidade e cumpre as promessas messiânicas e a esperança escatológica da instauração definitiva do Reino de Deus, no qual o homem será libertado de todas as escravições que o ameaça.

Raniero Cantalamessa (1993, p. 46) conclui: “A ressurreição constitui a novidade absoluta da Páscoa cristã, o não prefigurado, o inesperado”.

Naquela Páscoa da última noite de sua vida, Jesus celebrou com os seus o Seder conforme os ritos ancestrais. Ao mandar a seus discípulos que fizessem aquilo mesmo – “façam isto” – conservava os ritos, mas com um sentido novo e uma nova dimensão, tanto pelas palavras e gestos que introduziu, como pela relação que estabeleceu com os acontecimentos que iriam ocorrer poucas horas depois. Por esses gestos e essas palavras, o pão (matzá) que está sobre a mesa, transforma-se em seu corpo “entregue”, e o vinho e o cálice da bênção em seu sangue “derramado”, sinal de uma Aliança nova e eterna, selada, como todas as Alianças, com o sangue. Os discípulos de Jesus farão repetir tais ritos, com o novo conteúdo e significação, “em sua memória”; ao repeti-los, ao comer o “pão” e beber o “cálice”, proclamam “a morte do Senhor até que ele retorne” (1Cor 15,26). (SERRANO,1997, p. 115)

Referências 

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Notas

[1] Pelo termo hebraico Pessach, entende-se a Festa Pascal judaica.

[2] Usa-se a sigla DD, para indicar a Carta Apostólica Dies Domini, do Sumo Pontífice João Paulo II, publicado em 31 de maio de 1988. 

[3] Segundo o professor Serrano (1997, p. 46), há um paralelismo entre as palavras de Paulo e a forma de tradição rabínica encontrada em Pirke Abot I,1ss. Paulo diz: “Eu recebi (parélabon), os transmiti (parédoka)’; Pirke Abot: “Moisés recebeu (qibbel min)..., e a transmitiu (mesará le)”. O autor conclui: “segundo isto, o que Paulo afirma é que a tradição sobre a eucaristia remonta sem interrupção às palavras de Jesus” (SERRANO, 1997, p. 46).

[4] O termo “fração do pão” aparece ora como substantivo (Lc 24,30; At 2,42; 20,7), ora como verbo “partir o pão” (Lc 9,16; 22,19; 24,30; At 27,35; 2,46). A didaché e as cartas de Santo Inácio de Antioquia empregam igualmente esse termo. Paulo chama ainda essa celebração por outros nomes, como “ceia do Senhor” (1Cor 11,20). Somente depois, ela adotará o nome “eucaristia” (ALDAZÁBAL, 2002, p. 24.27).

[5] Esse autor evidencia que exemplos desse ato de “abençoar” (eulogia) encontram-se em Mc 8,7; Lc 9,16; 1Sm 9,13. 

[6] No tempo de Jesus, o pão ázimo não era fino e compacto como os de hoje. Ao contrário, ele era uma espécie de “bolo”, como ainda se encontra no Oriente Médio, cuja espessura poderia ter até um palmo, o que significa que era um pão macio (cf. JEREMIAS, 2003, p. 116; LEGASSE, 1985b, p. 60). 

[7] Este vinho e este pão, através da transubstanciação, são o próprio corpo e sangue de Cristo. Apesar de os primeiros cristãos não terem uma explicação teológico-racional sobre como isso acontece, o que só será elaborada séculos depois, até a definição dos dogmas da transubstanciação e da presença real de Cristo na Eucaristia, o pão e o vinho com que celebravam a ceia do Senhor representavam para eles a comunhão com o próprio Senhor Jesus Cristo. 

[8] A própria Igreja é fruto da presença do Ressuscitado: “não foi, porém, a Igreja nascente que criou a presença do ressuscitado, mas a presença do ressuscitado é que fez nascer a Igreja, que reuniu os discípulos de Jesus e deu a eles o seu Espírito” (CNBB, 2000, p. 9).

[9] Lembrar as palavras de Jesus: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20).