De Deus Todo-poderoso ao Pai de Misericórdia: a imagem de Deus pós-teísta e o no pensamento do Papa Francisco

From Almighty God to the Father of Mercy: the post-theistic image of God and the thought of Pope Francis

Roseane do Socorro Gomes Barbosa
Mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Contato: roseanesgb@gmail.com


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Resumo: Propomos refletir acerca de alguns argumentos pós-teístas que enfatizam a necessidade de superar os conceitos: Theós e religião. Para esta reflexão é o livro em espanhol Después de Diosotro modelo es posible o qual oferece uma ampla discussão sobre o tema e reúne, sob diferentes perspectivas, artigos de vários teólogos pós-teístas. Apresentaremos também a crítica ao pós-teísmo tendo como base o texto da teóloga italiana Beatrice Iacopini intitulado A proposta de um cristianismo adulto: um olhar sobre o pós-teísmo, em que a principal crítica se refere ao “desmantelamento” dos fundamentos do cristianismo na modernidade como uma proposta de superar o teísmo. Nosso objetivo principal é fazer um contraponto à imagem do Todo-poderoso por meio do pensamento do Papa Francisco, onde se destaca a imagem de um Deus Misericórdia. Evidenciaremos que a imagem do Deus Todo-poderoso, embora seja aquela que predominou no substrato de toda a experiência religiosa cristã, não é a única face de Deus, o qual podemos afirmar tem vários rostos. Certamente é possível relacionar-se com o Deus é todo-poderoso, ao mesmo, tempo em que Ele também é Pai de Amor e de Misericórdia. Lembrando que todas essas imagens de Deus fazem parte da experiência religiosa cristã.

Palavras-chave: Deus; Pós-teísmo; Religião; Misericórdia; Papa Francisco.

Abstract: We propose to reflect on some post-theistic arguments that emphasize the need to overcome the concepts of Theos and religion. The Spanish book Después de Dios - otro modelo es posible offers a wide-ranging discussion on the subject and brings together articles by various post-theistic theologians from different perspectives. We will also present the critique of post-theism based on the text by Italian theologian Beatrice Iacopini entitled The proposal of an adult Christianity: a look at post-theism, in which the main criticism refers to destroy of the foundations of Christianity in modernity as a proposal to overcome theism. Our main objective is to counterpoint the image of the Almighty through the thinking of Pope Francis, where the image of a Merciful God stands out. We will show that the image of the Almighty God, although it is the one that has predominated in the substratum of all Christian religious experience, is not the only face of God, who we can say has several faces. It is certainly possible to relate to the all-powerful God at the same time as he is also the Father of Love and Mercy. Remembering that all these images of God are part of the Christian religious experience 

Keywords: God; Post-theism; Religion; Mercy; Pope Francis.
 

Introdução 

As reflexões sobre os “pós”, pós-teísmo, pós-religião, pós-verdade, pós-humano, etc., são muito interessantes, contudo, exigem de nós alguns critérios hermenêuticos e epistemológicos para que a reflexão não tenha um teor desconstrutivo acerca dos principais conceitos, que sustentaram, e ainda sustentam, a experiência cristã de fé em Deus. Nesse sentido a firmação pós-teísta de que é preciso “livrar-se” do Theós, que é um conceito tão complexo e, ao mesmo tempo basilar para toda a experiência de fé em Deus, nos parece muito complexa, pois ao retirar o Theós do centro da questão deixa em seu lugar apenas ideias abstratas de Deus e da espiritualidade, além de pôr abaixo todo o edifício da fé. 

É preciso concordar, em partes, com os pós-teístas sobre a ideia de que é necessário “libertar” o ser humano das mãos do Theós. É bem verdade que a imagem de um Deus todo-poderoso, que tudo governa e em tudo pode intervir, recompensando ou punindo, de certo modo foi e é danosa à experiência de Deus. É nesse sentido que se faz urgente e extremamente necessário ressignificar o conceito de Deus. Contudo, ressignificar não significa abolir, e sim encontrar um novo sentido para uma relação que não esteja pautada pelo medo e temor, mas pelo amor. 

Frente às questões levantadas pelo pós-teísmo a filosofa e teóloga italiana Beatrice Iacopini, escreveu um artigo intitulado A proposta de um cristianismo adulto: um olhar sobre o pós-teísmo, publicado no Brasil pelo Instituto Humanitas Unisinos. Esse texto nos faz refletir sobre os principais pontos da teologia pós-teísta a partir de uma perspectiva crítica, a qual enfatiza que há elementos positivos no pós-teísmo, mas também há algumas debilidades que necessitam ser aprofundadas, amadurecidas. A legitimidade da teologia pós-teísta encontra-se em fazer emergir o peso que a fé em um Deus antropomórfico colocou sobre a relação entre o ser humano e Deus. Todavia, o mesmo ser humano que projetou em Deus as suas forças e debilidades, será capaz de ressignificar essa relação com Deus, mas não a partir de uma espiritualidade abstrata. 

Ao mesmo tempo que se pode afirmar que Deus é Todo-poderoso e criador, e historicamente essa imagem tem um peso teológico e antropológico, dentro e fora do cristianismo, também se pode dizer que Deus é Misericórdia, é Mãe, é Amor e tantos outros substantivos que metaforicamente foram empregados para representar Deus. Esse é o contraponto da nossa reflexão, isto é, destacar a partir do pensamento do Papa Francisco, outra imagem de Deus que também influencia a experiência cristã. Francisco tem uma pedagogia amorosa que reaproxima o ser humano de Deus a partir do amor e não do temor. Um Deus coercivo é muito mais eficaz quando se quer impor limites que somente por medo de uma punição se é capaz de obedecer. Contudo, diante desse Deus punitivo o ser humano nunca terá autonomia nem será livre para amar, e consequentemente Deus não será próximo, ou pai, ou mãe. Somente, um Deus Misericórdia pode libertar o ser humano da heteronomia imposta pela imagem do Todo-poderoso. 

Este texto é fruto do estudo e reflexões tecidas no decorrer da disciplina “Questões Especiais de Teologia Fundamental III”, no primeiro semestre de 2023, na PUC-Rio, sob a orientação da professora Maria Clara Bingemer. Nas aulas pudemos refletir ampla e extensamente a proposta de um pós-teísmo. Este tema, até então novo e pouco debatido no Brasil, fez brotar em mim muitos questionamentos em relação à fé teísta, mas, ao mesmo tempo me fez perceber o que é essencial em minha experiência de fé. Desse modo, esse texto é mais propriamente uma resposta às minhas inquietações pessoais, no sentido de “reorganizar” o que as leituras sobre o pós-teísmo “bagunçou”. 

Nosso itinerário seguirá essa ordem: primeiro apresentaremos os principais argumentos a favor do pós-teísmo. Não temos a pretensão de apresentar detalhadamente todos os argumentos pós-teístas, mas apenas dois pontos que consideramos mais relevantes presentes no livro Después de Dios, outro modelo es posible[1], o qual foi estudado durante a disciplina acima citada, e que apresenta uma reflexão detalhada sobre o pós-teísmo. Depois faremos uma breve exposição sobre alguns pontos de crítica ao pós-teísmo a partir do artigo de Beatrice Iacopini já citado nesse acima texto. Por fim, faremos o contraponto entre a imagem do Deus todo-poderoso com outras imagens de Deus a partir do pensamento do Papa Francisco na Bula Papal Misericordiae Vultus, na Exortação Apostólica Evangelii gaudium e na Encíclica Laudato si’

Os principais postulados dos pós-teístas 

A palavra Deus  

O pós-teísmo como corrente de pensamento busca construir um ponto de vista religioso ou espiritual de superação ao teísmo. O termo teísmo deriva do grego Theós, que designa a crença em um Deus todo-poderoso que rege e governa o mundo. Esse Deus é transcendental, mas de modo algum também é pessoa, precisa ser superado, para assim se chegar a “um ponto de encontro entre o confessional e o secularismo” (VILLAMAYOR, 2021, p. 62) o que torna possível unir em uma só espiritualidade teístas e ateístas.

Como corrente de pensamento teológico e também filosófico o pós-teísmo não é novo, contudo, ao retomar esse tema os pós-teístas se propõem demonstrar que, na Modernidade, já não é mais possível aceitar algumas verdades de fé cristãs construídas sobre o alicerce do Theós. O que é inquietante no pós-teísmo é que toda a desconstrução proposta como superação do Theós não vem de ateus, mas parte de  

Cristãos que vivem na modernidade e se questionam criticamente sobre a herança religiosa que receberam, o discurso oficial da Igreja sobre Deus não responde mais. Esses cristãos que se esforçam para refletir pessoalmente e pensar por si mesmos estão cansados de ouvir ou ler afirmações que podem ser consideradas impostas de cima, ou seja, colocam Deus como ponto de partida, como postulado inquestionável, a partir do qual tudo é organizado e faz sentido (MUSSET, 2021, p. 29). 

Os pós-teístas declaram que a Igreja na Modernidade continua falando de Deus como se a sua existência fosse algo evidente. Todavia, as afirmações dogmáticas cristãs, segundo o pós-teísmo, são hoje indemonstráveis. Há um certo desconforto frente ao conjunto de doutrinas do cristianismo e “tem-se a impressão de visitar um museu em que o ‘repositório’ do passado está cuidadosamente guardado em múltiplas salas o ‘depósito’ do passado” (MUSSET, 2021, p. 31). Daqui se conclui a urgente necessidade pós-teísta de se corrigir a imagem “de um Deus à nossa imagem e semelhança” (VILLAMYOR, 2021, p. 64). 

O Iluminismo é considerado o ponto de partida da emancipação do homem em relação à autoridade divina e da religião. É na Modernidade que o indivíduo percebe que pode viver sem a Igreja, dado que o Estado assume as ações da Igreja na sociedade, tais como: a educação (escolas), o cuidado dos doentes (hospitais), o cuidado com os pobres (obras sociais, orfanatos). “A modernidade, portanto, nada mais foi do que o movimento dessa grande crise que veio de fato com a ousadia do ser humano em atrever-se a pensar por si mesmo, em buscar a verdade” (MUSSET, 2021, p.26). 

Nesse contexto, o primeiro conceito que necessita ser revisto é o próprio termo “Deus”, pois sendo uma palavra criada pelo ser humano, ela nasce dentro de um contexto para expressar algo que sem ela, ou antes, dela existir, nenhuma outra palavra conseguiu contextualizar ou dar sentido àquela realidade que transcende o ser humano. Sendo uma palavra criada ela tem limites e abrangências, e assim como nasce também pode morrer. Desse modo, Deus “não é uma palavra unívoca, nem universal, nem necessária. E, por mais venerável que seja, é particular e histórica. Como todas as palavras têm uma origem e uma história que se modifica de acordo com as circunstâncias ecológicas, econômicas e sócio-políticas” (ARREGI, 2021, p. 94). 

 Do mesmo modo, assim como outros conceitos teológicos, o termo “Deus” apresenta uma complexidade semântica e o seu sentido pode variar conforme o meio e ambiente onde é usado. No campo religioso, devocional e popular, falar de “Deus” não parece apresentar tantos problemas, quanto no universo acadêmico. Na religiosidade popular Deus é Deus e ponto. No campo teológico “quando dizemos Deus, no entanto, queremos nos referir à Realidade em toda a sua plenitude, não apenas ao mundo físico. Uma nova concepção de matéria e consciência é, portanto, necessária” (VILLAMYOR, 2021, p. 67). 

Desde os tempos mais primitivos da humanidade já existia a percepção de que “Algo” mais estava por trás dos fenômenos naturais, do cosmo, da terra; e em tais eventos se reconhecia que uma “Força” sobrenatural agia por meio de raios, trovões, ventos, etc. Essa forma de interpretar as forças naturais levavam a considerar toda a biosfera como sagrada. Os seres humanos sentiam-se “profundamente unidos com a natureza que os nutriu, envolveu, abrigou e ameaçou, com a terra que eram, mas que, ao mesmo tempo os transcendia” (ARREGI, 2021, p. 95). É assim que se compreende o culto e a veneração das forças da natureza antes mesmo do culto à divindade, aos deuses e deusas. 

A palavra Deus, mesmo sendo uma criação humana, “emergiu progressivamente na consciência do ser humano para designar, na sua procura de sentido, a causa, a explicação dos fenômenos sem explicação” (MUSSET, 2021, p. 30). Porém, outros termos mais abstratos, tais como: o “Sagrado”, o “Transcendente”, o “Mistério”, contribuíram para o conceito teísta de Deus mais pessoal. 

Com o advento das ciências modernas, a afirmação de que Deus é a origem dos fenômenos naturais, antes inexplicáveis, já não é mais necessária. E, segundo o pós-teísmo o conceito de Deus, hoje, estaria mais a serviço das ideologias e dos poderes religiosos, que como causa e origem das coisas. Para o indivíduo moderno que não se vê mais obrigado a aceitar as imposições religiosas e morais do cristianismo sobre a sociedade esse Deus já não é mais necessário. 

 A superação das estruturas formais da religião 

É a partir da organização das cidades e da vida em sociedade, que o homem começa a se sentir dono e senhor da terra. Nesse contexto de uma vida sedentária surge a religião como um espelho da vida que assume certa hierarquia, na qual fazem falta “mitos, leis, chefes, autoridade, funcionários são necessários para transmitir as ordens do senhor e aplicá-las e garantir a ordem, e guerreiros para defender, conquistar e subjugar” (ARREGI, 2021, p. 97). Assim a religião, sendo fruto da cultura, se estruturou como uma espécie de reflexo da vida em sociedade. 

A religião, com todos os seus ritos e hierarquizações, torna-se o canal por meio do qual o Deus supremo e todo-poderoso exerce o seu domínio sobre à terra. Toda religião é reflexo do tempo, do lugar e da cultura onde nasce. Não é estática, de modo que para se compreender melhor uma determinada religião, não se pode separá-la da cultura em que ela nasceu e se estruturou. “A religião, além de um poderoso motor cultural, é um reflexo da cultura particular de uma época e de um lugar” (ARREGI, 2021, p. 98). 

Do mesmo modo que o conceito de Deus precisa ser superado, o conceito de religião com todo o seu arcabouço também, pois segundo o pós-teísmo 

A religião que vem das profundezas da humanidade, pode estar vivendo suas últimas horas. Porquê? Porque a religião é o elo social que integra uma sociedade, quando esta sociedade está ligada a um passado divino, ao passado de um herói divino, ou quando é interpretada pela força de uma tradição, pela força dos seus laços sociais. O desaparecimento da religião significa uma sociedade que rompe com a religião porque não precisa mais dela (MUSSET, 2021, p. 27).  

Hoje vive-se numa sociedade secularizada, economicista e pluralista, nela o indivíduo percebe que pode viver sem estar subordinado aos vínculos religiosos de um passando no qual todos eram cristãos e se batizavam. Por conseguinte, o ser humano emancipado dessa categoria de religião não se sente mais obrigado a se submeter a autoridade da Igreja, e nem de Deus, entretanto, os valores cristãos adquiridos permanecem na sociedade com uma nova referência, ou seja, as pessoas “abandonam a fé cristã conservam os valores cristãos, sem os referir a Deus” (MUSSET, 2021, p. 28). 

As propostas de superação pós-teístas 

O que está em jogo na discussão pós-teísta é o Theós, isto é, a ideia de um Deus todo-poderoso que foi criado pelo homem para ser um fator de coerção e ordenamento entre os indivíduos. Sendo assim resulta a necessidade de “superar algo mais profundo e paradigmático, um modelo de interpretação de uma realidade profunda que hoje se revela obsoleto, além de prejudicial: o próprio Theós” (VIRGIL, 2021, p. 220). É importante ressaltar que essa proposta de superação é válida para “invenção” humana do Theós e não para Deus como aquela realidade do Absoluto, Transcendente e divino. 

A religião, também deve ser superada, para vir a ser a vivência de uma espiritualidade secular que se baseia numa experiência do amor gratuito. Essa é a experiência que o filósofo irlandês Richard Kaerney designou de anateísmo, entendido como a “superação do dogmatismo religioso e um apelo a uma terceira via entre teísmo e ateísmo” (VILLAMYOR, 2021, p. 75). Embora o pós-teísmo proponha uma “religião sem religião”, no sentido convencional como é conhecido o termo, a força dessa palavra não seria totalmente eliminada por uma questão de linguagem que a torna útil. Nesse sentido afirma-se que

Três funções da religião ainda persistem e podem ser exercidas pela sociedade secular: abrir caminho para a expressão simbólica para mostrar o que não pode ser expresso de outra forma, fortalecer a motivação pessoal onde jogam altas convicções morais e, finalmente, dar sentido a tudo o que dado errado ou foi objeto de perda. “Enquanto a comunicação não encontrar melhores palavras para dizer o que a religião pode dizer, terá que conviver abstinentemente com ela, sem apoiá-la ou combatê-la” (VILLAMYOR, 2021, p. 73).  

Visto que a humanidade é chamada a experimentar uma mística transteísta, ou seja, uma religiosidade que vai além das crenças, do culto, do dogma, da doutrina e que por isso une crentes e não crentes, teístas e ateístas. Desse modo o pós-teísmo se distancia do ateísmo, pois  

O pós-teísmo não é a renúncia à divindade, ao absoluto na vida humana, mas segundo quais configurações ou imagens. O pós-teísmo é um reconhecimento do Mistério sem nome, um apelo ao polimorfismo simbólico, uma aceitação da incompreensão que sempre nos acompanha. Um apelo ao anateísmo, à superação de todo teísmo e ateísmo, ao valor do aqui, lar paradoxal de um além possível e improvável que está aqui apenas por enquanto. Um viver esperançoso de forma intermitente, como se esse Deus existisse e como se não existisse. Uma esperança sem saber, uma espiritualidade anônima (VILLAMYOR, 2021, p. 77).  

O pós-teísmo propõe uma nova era axial na qual o indivíduo é mais consciente de si, e emancipado do poder de Deus sobre a sua vida. Consequentemente, não se deve mais recorrer à metafísica ou ao sobrenatural para responder às questões existenciais da vida, pois a “experiência possível de Deus hoje não se constrói venerando as imagens de uma determinada religião, mas ouvindo todas as músicas do mundo, especialmente aquelas que vêm de povos sem voz” (VILLAMYOR, 2021, p. 83). Para os pós-teístas o que deve restar ao ser humano, sem a fé teológica, será a fé antropológica. 

A crítica ao pós-teísmo 

Uma análise muito interessante acerca do pós-teísmo é feita pela teóloga italiana Beatrice Iacoponi[2]. Em 2023, o Instituto Humanitas Unisinos publicou um artigo intitulado “A proposta de um cristianismo adulto: um olhar sobre o pós-teísmo” onde a teóloga analisa os argumentos propostos pelos pós-teístas. Segundo Iacopini a teologia pós-teísta ao propor uma “fé para além de Deus e das crenças” herdadas das gerações antigas, acaba por destruir todo o arcabouço religioso construído e vivido até os tempos atuais. 

A reflexão sobre a superação do teísmo não é uma novidade, pois antes alguns filósofos já haviam falado sobre esse tema, como, por exemplo Nietzsche. Contudo, segundo Iacopini, o que é novo nessa temática é o fato dessa reflexão nascer a partir de dentro do próprio cristianismo por um grupo de teólogos, que aparentemente insatisfeitos com a própria fé, se põem a descontruir aquilo que um dia eles mesmo ensinaram. Ou seja,

Em grande parte, trata-se de ministros ordenados que, formados nas universidades eclesiásticas e até professores, saem intencionalmente das salas acadêmicas com trabalhos de fácil leitura, muitas vezes desprovidos de notas de rodapé, e usam instrumentos populares como televisões, redes sociais digitais e blogs, sem temerem apresentar a todos, de modo explícito e compreensível, suas próprias conclusões, até chegarem ao aparente paradoxo de pregar o cristianismo desmantelando-o (IACOPINI, 2023, p. 06). 

Para Iacopini uma característica em comum entre os teólogos pós-teístas, além da língua espanhola, é que eles assumem como fundamento para o desenvolver as abordagens sobre o cosmos, o planeta, a vida sobre à terra, a perspectiva da Big History, que é a narrativa cronológica e histórica das civilizações. Em tal perspectiva, o teísmo figura como invenção humana originária do período Neolítico, e os fundamentos da fé cristã, cujo centro é a história da salvação a partir da eleição do povo de Israel, a quem Deus se revelou, ficam relegados a um subtipo da invenção teísta. Outrossim, por trás dos argumentos pós-teístas não está somente a negação do Deus todo-poderoso, nesse conjunto encontra-se “a negação de plausibilidade a qualquer revelação presumida e, portanto, às pretensões de verdade do corpus bíblico e dos dogmas” (IACOPINI, 2023, p. 07).  

Conforme o pensamento pós-teísta a metafísica também chegaria ao fim, pois se não há outros mundos além deste, “não há sequer enunciações sobre a natureza de Deus e seu agir aos quais o ser humano é chamado a aderir: é o fim da era da fé, tanto no sentido de submissão intelectual a crenças quanto no de dependência moral a hipotéticas autoridades e vontades divinas” (IACOPINI, 2023, p. 22). Mas, segundo o mesmo argumento não se trata da negação da transcendência, e sim da superação do Theós para se encontrar com o Mistério originário pré-paulino, pré-dogmático. 

A superação do Theós, isto é, passar do Deus teísta a uma divindade transteísta, apontaria para o fim da religião fundamentada na crença em Deus, mas não constituiria necessariamente no fim da espiritualidade. Esta, sim, permanecerá e será o possível elo que unirá a todos aqueles que se sentem estrangeiros na própria crença, bem como os que não creem. Entretanto, segundo Iacopini, apesar se não ser uma reflexão nova, os argumentos pós-teístas configuram-se como contribuições que, em sua maioria, concentram-se em mais demolir o cristianismo, sem conseguir “delinear perspectivas suficientemente argumentadas a ponto de serem convincentes” (IACOPINI, 2023, p. 40). E certamente a reflexão pós-teísta precisa de maior amadurecimento. 

O paradigma pós-teísta e pós-religional pressupõe abandonar tudo o que foi construído sobre o alicerce das religiões, para se alcançar um pluralismo e uma espiritualidade que abrace as diferentes crenças. Querer unir teístas, ateístas, agnósticos, crentes e não crentes em uma só fé parece ser não só ousado, mas absolutamente utópico. 

A imagem de Deus no pensamento do Papa Francisco 

Para o pós-teísmo é preciso abandonar o conceito de Theós, isto é, o Ser todo-poderoso, criador do universo e que ao mundo governa, para então libertar a fé de todas as “amarras” que o conceito de Deus, bem como a religião. E segundo a teologia pós-teísta os conceitos de Deus e de religião impuseram ao ser humano uma eterna heteronomia de um Deus que está sempre pronto para intervir no mundo caso seja do seu agrado. Entretanto, Deus é multifacetado e Theós não é a única imagem de que se pode depreender de Deus. 

Nessa última parte do texto, a partir do pensamento do Papa Francisco, iremos contrapor à imagem do Theós o Deus que é misericórdia, sendo essa imagem é muito recorrente no pensamento do Papa Francisco. Ao falar de Deus Francisco sempre coloca o ser humano numa relação de corresponsabilidade e de autonomia diante de seu poder e da própria vida. O Deus todo-poderoso e criador de todas as coisas também está presente na teologia do Papa, contudo, paralelamente a ela muitas outras imagens são apresentadas para referir-se a Deus. 

Nos documentos do Papa Francisco as imagens de Deus são variadas, por exemplo, na Encíclica Laudato Si’ o Deus criador cuida e zela pela natureza e também pelo ser humano que mata e destrói toda a criação. Já na Fratelli Tutti Deus que é Pai, e também mãe, acolhe a todos nós e quer que vivamos como irmãos. Na Bula papal sobre o Ano da Misericórdia Misericordiae Vultus é o próprio Deus que nos convida a viver num caminho de misericórdia, e que nos chama a pôr em práticas as obras de misericórdias nas periferias existenciais da humanidade. Todas essas imagens podem nos ajudar a tecer uma relação com Deus para além do Theós, sem bani-lo de genuína experiência de fé e do cristianismo. 

Em seus escritos, Francisco sempre apresenta a imagem de um Deus que é antes de tudo Misericórdia, e que ama incondicionalmente a todos os seus filhos e filhas, independentemente de sua condição social, cultural ou religiosa. O rosto de Deus Misericórdia é tão caro a Francisco que ainda nos inícios de seu pontificado foi dedicado um Ano Jubilar[3] Extraordinário da Misericórdia[4] o qual convocava os cristãos dizendo 

Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado (FRANSCISCO, 2015a, nº 3).  

Além da imagem do Deus Misericordioso na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium o Papa Francisco apresenta a imagem de um Deus amoroso, capaz de perdoar e acolher a todos os seus filhos, independentemente dos seus erros ou pecados passados. Essa imagem de Deus também é apresentada como um modelo que deve ser seguido pelos líderes religiosos e pelas comunidades cristãs em todo o mundo, que devem espalhar essa mensagem de amor e misericórdia através de suas ações e palavras, e promover um verdadeiro encontro com Deus. Afirma Francisco: 

Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autoreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro (FRANSCISCO, 2013, nº 8).  

O Papa Francisco enfatiza a importância do amor, da compaixão e da solidariedade em nossas relações com os outros, e na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Entretanto, Francisco também reconhece que na transmissão da mensagem cristã há certas limitações que não favorecem a compreensão de Deus, pois “com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, em algumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave” (FRANSCISCO, 2013, nº 41). 

É evidente que nos escritos de Francisco transparece a sua preocupação não tanto com a quantidade de fiéis que a Igreja tem, mas com a qualidade da fé que os católicos são chamados a viver, de modo que o Papa chama a atenção para “o desafio da proliferação de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus” (FRANSCISCO, 2013, nº 63).  

Francisco ressalta que quando Deus é retirado do seu lugar próprio, o ser humano tende a querer ocupar o lugar de Deus na criação ou mesmo substituir a Deus por outros poderes do mundo. Prossegue o Papa:

Não podemos defender uma espiritualidade que esqueça Deus todo-poderoso e criador. Neste caso, acabaríamos por adorar outros poderes do mundo, ou colocar-nos-íamos no lugar do Senhor chegando à pretensão de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele. A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses (FRANSCISCO, 2015b, nº 75).

Na ação evangelizadora, como enfatiza o Papa, para que nos relacionemos com um Deus Misericórdia e Pai amoroso é “necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” (FRANSCISCO, 2013, nº 74). É preciso ir ao encontro das novas histórias e paradigmas, para se alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos dos lugares onde o ser humano se encontra, pois, o “Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois modos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados” (FRANSCISCO, 2015b, nº 73). 

Sem dúvidas para o Papa Francisco Deus é um Pai amoroso que deseja que seus filhos vivam em união e fraternidade, independentemente de suas diferenças raciais, culturais, religiosas ou políticas. A ideia de que todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus exige que cada pessoa seja valorizada e respeitada, pois Deus ama a todos, mesmo aqueles que não o reconhecem como Deus. A verdadeira fraternidade deve superar as diferenças religiosas e de crença, promovendo o diálogo inter-religioso e o respeito mútuo. Assim, todos são chamados à cooperação e à solidariedade, como irmãos e irmãs, sob a proteção e orientação de um Pai Amoroso.  

Conclusão 

O pensamento pós-teísta nascido no meio filosófico, vem ecoando na teologia como uma tentativa de promover uma espiritualidade livre de conceitos e dogmas que aprisionaram a relação com Deus. Antes do desenvolvimento das ciências modernas, a Deus era atribuída a origem de todos os fenômenos naturais, contudo, hoje tal referência torna-se desnecessária diante do universo científico. É interessante que, mesmo no meio científico onde tudo pode ser testado empiricamente, não há um consenso em relação à existência ou negação de Deus. 

Os teólogos pós-teístas não negam a existência de Deus como ser Transcendente, entretanto, questionam a necessidade de se manter como fundamento da fé a invenção humana de um ser todo-poderoso, onipotente e onisciente, que de fora do mundo a tudo governa, e estaria sempre pronto para intervir no mundo. É nessa perspectiva que o argumento pós-teísta postula a superação do conceito de Deus, afirmando que as experiências e interpretações do sagrado devem ser baseadas na experiência humana e na relação do indivíduo consigo mesmo e com o mundo, ao invés de uma relação com um Deus externo e antropomórfico.

O teísmo surgiu durante o período Neolítico quando os indivíduos passam a viver nas cidades e a organização da vida se hierarquiza. A religião, que também é hierarquizada, torna-se o meio pelo qual os deuses agem no mundo. Com mitos, leis e chefes o conceito de Deus e de religião adquirem um fator mais coercitivo e de ordenamento da vida. Na reflexão pós-teísta a religião é compreendida como um sistema a serviço de um Deus regulador, e, também deve ser superada. 

O argumento de que Deus precisa ser superado é muito forte em se tratando de um conceito basilar da experiência religiosa. Não podemos negar a palavra Deus, como construção humana, tem suas limitações. Contudo, não é possível depurar um conceito sem danificar a experiência religiosa de Deus que sobre ele foi construída. A crítica sobre o pós-teísmo encontra-se justamente sobre a proposta desconstruir o conceito de Theós, sem deixar nada de concreto no lugar do Deus todo-poderoso, pessoal e criador de tudo. De fato, hoje é necessário repensar vários conceitos teológicos e religiosos que sejam mais concernentes com a cosmovisão da modernidade. Todavia, não podemos desconstruir o passado, mas podemos ressignificar o presente e vista do futuro sem prejuízos para a fé.

A religião como sistema de crenças e toda a experiência religiosa se desenvolveram tendo como alicerce a ideia do Theós, todavia esta não foi a única ideia ou definição atribuída a Deus que permeia a fé cristã. No cristianismo juntamente com a imagem do Deus todo-poderoso prefiguraram outras imagens de Deus. O todo-poderoso criador de todas as coisas também foi descrito como sendo é Pai, amor, bondade, mãe, etc., conceitos concretos e abstratos, mas com uma grande plasticidade estão presentes na fé cristã.

Na Modernidade a Igreja tem falado de Deus a partir de uma cosmovisão em que a terra não gira em torno do sol e não é plana, os raios e trovões são fenômenos que a física explica sem a necessidade de se recorrer a Deus como causa. Desde o Concílio Vaticano II, o Magistério da Igreja por meio da antropologia teológica, que considera o ser humano em sua totalidade criado à imagem de Deus, vem reforçando a imagem de Deus como pessoas em comunhão. E é para a comunhão que o ser humano é criado e chamado a viver.

Desde o início de seu pontificado o Papa Francisco usa uma linguagem mais terna para falar de Deus a uma humanidade mais tecnocrática e menos próxima das questões religiosas. Tanto nos documentos oficiais, Exortações e Encíclicas, quanto nas catequeses e homilias, Francisco ressalta a face misericordiosa de Deus. Apesar dos esforços do Papa em ressignificar a experiência humana com Deus, há um longo caminho a ser percorrido, até que o Deus Misericórdia possa, enfim, “desbancar” a imagem consolidada do todo-poderoso. 

Devemos ressignificar a experiência religiosa na atualidade? Com certeza. E nesse ponto todos, pós-teístas ou não, concordamos. Mas, ressignificar essa experiência de Deus, não significa desconstruir ou demolir toda a caminhada vivida até aqui. É claro que com o desenvolvimento das ciências modernas, não é mais atribuído a Deus a causa dos fenômenos da natureza. Entretanto, as mesmas ciências que explicam os fenômenos naturais não conseguem explicar o início que a tudo originou, e que a humanidade, em suas buscas mais profundas, entendeu ser Deus a origem de tudo. 

Referências

ARREGI, José. Dios más allá de Dios, o del teísmo. In: Después de Dios - Otro modelo es posible. Coleção Novo Tempo Axial, nº 3, ES: Red de Bubok Publishing House. p. 93-143, 2021. Disponível em https://www.academia.edu/48939349/Despue_s_de_Dios_otro_modelo_es_posible?sm=b  acessado em 28/05/2023.

FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Fratelli tutti. Sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulinas, 2020. 

FRANCISCO, Papa.  Carta Encíclica Laudato si’. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015b. 

FRANCISCO, Papa. Exortação Evangelii gaudium. Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013. 

FRANCISCO, Papa. Misericordiae Vultus Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. São Paulo: Paulinas, 2015a. 

IACOPINI, Beatrice. Diante de um cristianismo moribundo, a proposta de um cristianismo adulto: um olhar sobre o pós-teísmo. In: Cadernos Teologia Pública. Unisinos: São Leopoldo RG.  2023. Disponível em https://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/teopublica/163cadernosteologiapublica.pdf  acessado em 28/05/2023. 

MUSSET, Jacques. La modernidad, el punto de partida. In: Después de Dios - Otro modelo es posible. Coleção Novo Tempo Axial, nº 3, ES: Red de Bubok Publishing House. p. 23-32, 2021. Disponível em https://www.academia.edu/48939349/Despue_s_de_Dios_otro_modelo_es_posible?sm=b  acessado em 28/05/2023.

VILLAMAYOR, Santiago. Eso nace y sale. In: Después de Dios - Otro modelo es posible. Coleção Novo Tempo Axial, nº 3, ES: Red de Bubok Publishing House. p. 59-143, 2021. Disponível em https://www.academia.edu/48939349/Despue_s_de_Dios_otro_modelo_es_posible?sm=b  acessado em 28/05/2023.

VIRGIL, José María. Sincero para con theos. In: Después de Dios - Otro modelo es posible. Coleção Novo Tempo Axial, nº 3, ES: Red de Bubok Publishing House. p. 175-231, 2021. Disponível em https://www.academia.edu/48939349/Despue_s_de_Dios_otro_modelo_es_posible?sm=b  acessado em 28/05/2023.

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Notas

[1] Ao longo do nosso texto há várias citações do livro Después de Dios – otro modelo es posible, contudo, para facilitar a fluidez da leitura, optamos por usar uma tradução livre do texto em espanhol para o português. 

[2] Beatrice Iacopini é formada em Filosofia e em Teologia. Leciona no Instituto Científico Liceo Savoia de Pistóia e colabora com a Escola de Teologia da Diocese de Pistóia. 

[3] Jubileu ou Ano Santo é uma tradição de origem bíblica que a Igreja celebra a cada 25 anos. Esse tempo consiste em: reconciliar-se com Deus e absolvição pelos pecados por meio de indulgências, salvaguardando algumas disposições próprias para isso. 

[4] O Ano da Misericórdia que se iniciou em 08 de dezembro de 2015 e se concluiu no dia 20 de novembro de 2016.