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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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				<journal-title>REVELETEO - Revista Eletrônica Espaço Teológico</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">REVELETEO</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Teologia / Pontifícia Universidade Católica de São Paulo</publisher-name>
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					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title xml:lang="pt">Da serpente a Jesus, da árvore à cruz: a intertextualidade em Jo 3,14-15</article-title>
				<article-title xml:lang="en">From the serpent to Jesus, from the tree to the cross: intertextuality in John 3:14–15</article-title>
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				<institution content-type="original">Universidade Católica do Pernambuco</institution>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
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				<year>2025</year>
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			<volume>19</volume>
			<issue>37</issue>
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<title>Resumo</title>
<p>Este artigo aborda o tema da intertextualidade bíblica, que vai além da citação direta, amplamente conhecida nos meios exegéticos por “concordância verbal” entre diferentes textos. O objetivo desta pesquisa é descobrir o caminho feito pelos autores sagrados até chegar à releitura cristã que relaciona a serpente de bronze com o Cristo na cruz a partir de Jo 3,14-15. Para tal, utiliza-se o método da exegese dos textos sagrados, considerando o vocabulário e os padrões narrativos. Para o desenvolvimento do tema, seguem-se os seguintes passos: primeiro, toma-se a releitura de João 3,14-15 para marcar o vocabulário empregado; em seguida, faz-se uma análise do texto de Nm 21,4-9, comparando-o com a releitura joanina; em seguida, analisa-se o campo semântico da mensagem veiculada, buscando os diferentes sentidos agregados a esses termos no Antigo Testamento; na sequência, consideram-se as outras releituras neotestamentárias desse texto. Com esse percurso, conclui-se que a releitura joanina é resultado de um longo processo de releituras no interior da Escritura.</p>
</abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>Abstract</title>
<p>This article addresses the the-me of biblical intertextuality that goes beyond direct quotation, widely known in exegetical circles as “verbal concordance” between different texts. The objective of this research is to discover the path taken by sacred authors to arrive at the Christian reinterpretation that relates the bronze serpent to Christ on the cross. To this end, the method of exegesis of sacred texts is used, considering vocabulary and narrative patterns. To develop the theme, the following steps are taken: First, John 3:14-15 is reinterpreted to highlight the vocabulary used; then, the text of Numbers 21:4-9 is analyzed and compared with John’s reinterpretation; then, the semantic field of the message conveyed is analyzed, seeking the different meanings attached to these terms in the Old Testament; next, other New Testament re-readings of this text are considered. With this approach, it is concluded that the Johannine re-reading is the result of a long process of re-readings within Scripture.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Intertextualidade.</kwd>
<kwd>Antigo e Novo Testamentos</kwd>
<kwd>Serpente</kwd>
<kwd>Madeiro</kwd>
<kwd>Cruz</kwd>
</kwd-group>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Intertextuality</kwd>
<kwd>Old and New Testaments</kwd>
<kwd>Serpent</kwd>
<kwd>Wood</kwd>
<kwd>Cross</kwd>
</kwd-group>
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	<body>
<sec sec-type="intro">
<title>
<bold>Introdução</bold>
</title>
<p>Este artigo aborda a questão essencial da interpretação intrabíblica, ou seja, a interpretação de algum “evento” bíblico por outro. Neste caso específico, a interpretação do evento Cristo à luz de uma narrativa que tem Moisés por protagonista: Nm 11,4-9. O evangelista diz claramente a qual narrativa veterotestamentária ele se refere. Com isso, o leitor sabe que o evangelista está criando um texto novo à luz de um texto da tradição bíblica. Entende-se, portanto, que no trecho de João há uma intertextualidade.</p>

<p>Do ponto de vista teórico, conhecem-se duas formas básicas de intertextualidade: a explícita e a implícita, ou de stricto sensu e de lato sensu (Teixeira; Oliveira, 2025, p. 138; Santos, 2016, p. 123). Na primeira, se encontra citação e, na segunda, a alusão. A citação, por sua vez, tem dois modos: direta e indireta. Para Lavoie (1992, p. 49), a intertextualidade bíblica se apresenta, quase sempre, como citação indireta ou implícita. Mas, a intertextualidade bíblica se apresenta também pela segunda forma, a alusão. E esse fato não deve ser menosprezado no estudo da intertextualidade bíblica.</p>

<p>Essa forma de intertextualidade exige do leitor uma capacidade de decodificação porque supõe perceber um texto ausente no texto presente. Aliás, hoje se define a alusão como “um enunciado no qual a compreensão supõe a percepção de uma relação entre um texto presente e um texto ausente, e no qual essa relação mesma desperta a ideia” (Lavoie, 1992, p. 50). Assim, a alusão é muito mais sutil e muito mais presente na Escritura do que se pensa.</p>

<p>Nesta pesquisa, trabalha-se com os dois tipos de intertextualidade porque, em determinados momentos, atesta-se a citação direta, em outros, a indireta e, ainda, a alusão. No percurso bíblico de Números a João, a Escritura passa por todas essas formas de retomadas, ou releituras. Mas a principal aqui é a citação indireta.</p>

<p>Para a compreensão desse trabalho de interpretação no interior da própria Bíblia, recorre-se à análise narrativa dos textos bíblicos e do vocabulário e campo semântico presentes nos textos. A análise de cunho qualitativo se dá mediante avaliação da bibliografia existente sobre o tema. Como a intenção é compreender o processo que culmina na reinterpretação do evangelista João, começa-se pela análise desse trecho do Evangelho para remontar ao texto de Números.</p>

</sec>
<sec sec-type="discussion">
<title><bold>A reinterpretação de Jo 3,14-15 do texto de Nm 21,4-9</bold></title>

<p>O evangelista João conclui o texto do diálogo de Jesus com Nicodemos com esses versículos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o que nele crer tenha vida” (Jo 3,14-15). No Evangelho, Jesus fala de si como o Filho do Homem enviado para a salvação da humanidade. Ao falar da condição de salvador de Jesus, fazendo uma citação indireta ao texto de Números, é toda uma cosmovisão que é retomada. Como é possível perceber isso? Sabe-se pela comparação entre os dois textos. Por isso, dispõe-se abaixo o texto do evangelho e, em seguida, dispõe-se o texto veterotestamentário.</p>

<p>Jo 3,14-15</p>

<p>Καὶ καθὼς Μωϋσῆς ὕψωσε τὸν ὄφιν ἐν τῇ ἐρήμῳ, οὕτως ὑψωθῆναι δεῖ τὸν Υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου, ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται, ἀλλ᾿ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον.</p>

<p>E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o que nele crer não pereça mas tenha vida eterna.</p>

<p>No texto de João, destacam-se o verbo “levantar” em duas formas temporais distintas; o substantivo próprio Moisés, que funciona como citação indireta do texto veterotestamentário, e o substantivo “vida”, que também vincula o texto evangélico com o texto de Números. O termo grego para “levantar” é ὐψόω e aparece vinte vezes no Novo Testamento. Em quase todos os casos, o termo tem o sentido de exaltar. Esse verbo aparece como termo oposto a humilhar (Lüdemann, ano, col. 1910).</p>

<p>Nm 21,8-9</p>

<p>8 καὶ εἶπεν κύριος πρὸς Μωυσῆν Ποίησον σεαυτῷ ὄφιν καὶ θὲς αὐτὸν ἐπὶ σημείου, καὶ ἔσται ἐὰν δάκῃ ὄφις ἄνθρωπον, πᾶς ὁ δεδηγμένος ἰδὼν αὐτὸν ζήσεται.</p>

<p>8 e disse o Senhor a Moisés: “Faze uma serpente venenosa e coloca-a sobre uma haste. E se uma pessoa for mordida de serpente, mas o mordido olhar para ela viverá”.</p>

<p>9 καὶ ἐποίησεν Μωυσῆς ὄφιν χαλκοῦν καὶ ἔστησεν αὐτὸν ἐπὶ σημείου, καὶ ἐγένετο ὅταν ἔδακνεν ὄφις ἄνθρωπον,</p>

<p>9 Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente</p>

<p>καὶ ἐπέβλεψεν ἐπὶ τὸν ὄφιν τὸν χαλκοῦν καὶ ἔζη.</p>

<p>e olhava para a serpente de bronze, vivia.</p>

<p>Em Números, tudo aparece dobrado pela dinâmica própria da narrativa, que comporta uma ordem divina e uma execução da ordem por Moisés. Assim, o termo para serpente aparece quatro vezes, duas no nominativo, portanto, como sujeito, e duas no acusativo, como objeto. Também aparece duas vezes a construção ἐπὶ σημείου, ou seja, uma forma genitiva do termo “sinal”.</p>

<p>Quando se observa a ordem dada por Deus e a execução da ordem por Moisés, a primeira dificuldade que o pesquisador encontra é compreender a escolha da Septuaginta para traduzir o termo hebraico nes (.)ֵנֵסEles optaram por uma construção rara formada pela partícula epí (έπί) mais o termo semeion (σημειόν) no genitivo, ou seja, semeiou (σημείου). Essa construção estranha só aparece nesses dois versículos. O termo “semeion” no genitivo sem a partícula aparece duas vezes em Ex 4,8. No entanto, no texto de Êxodo, semeion traduz o termo hebraico (,)אֹותe isso é o mais comum. A tradução ao vernáculo pelo texto grego ficaria um tanto estranha, algo como “sobre o sinal”.</p>

<p>No entanto, quando se recorre ao texto hebraico, entende-se o sentido da mensagem de Números. O termo nes1 indica algo suspenso sobre uma haste, ou seja, um estandarte ou uma bandeira. Aliás, dos vinte e um usos do termo, ele foi traduzido por estandarte ou bandeira em dezenove deles. A exceção foram os nossos versículos. O que se pode dizer é que a versão dos LXX fez uma escolha infeliz e que, provavelmente, o texto por trás da releitura de João deve ser o da versão hebraica e não da grega do Antigo Testamento. O texto grego de Números, portanto, não apresenta um termo específico para haste, vara, madeiro ou qualquer coisa parecida. E isso não constitui uma ausência de termo correspondente da língua grega, pois existem ao menos dois termos que serviriam a esse propósito. Além disso, havia a opção de usar um verbo correspondente à ação de levantar, como o faz João. Aliás, o termo escolhido por João é amplamente usado na Septuaginta. Sendo assim, só é aceitável essa tradução ao vernáculo pelo conhecimento do termo hebraico. Nesse caso, talvez a melhor tradução fosse “coloca-a num estandarte”. Para além dessa dificuldade inicial, a releitura joanina traz uma particularidade. Sua citação veterotestamentária é indireta. Não há uma retomada de frases que mantenham a construção do texto do Antigo Testamento. Ele faz uma comparação não entre os personagens, mas entre as situações. Se fazemos uma aproximação dos elementos comparados, Jesus (Filho do Homem) é comparado não com Moisés, e sim com a serpente: ambos são levantados. A construção verbal os coloca como “passivos”. Os sujeitos do levantar são Moisés, explicitamente, e Deus, implicitamente. Assim, pode-se dizer que no texto joanino encontra-se a intertextualidade implícita, já que aqui atesta-se uma alusão estrita, conforme a descrição de Teixeira e Oliveira (2025, p. 139):</p>

<p>A alusão estrita, como o próprio nome insinua, alude a um texto-fonte, isto é, apresenta uma menção de forma indireta, como o título de uma obra, expressões referenciais, personagens etc. Não é passível de ser confundida com a citação, visto que a citação é a transcrição de uma parte do texto-fonte e a alusão estrita apresenta modificações no texto, podendo-se criar um novo dizer.</p>

<p>E é exatamente isso que faz João ao arrematar o texto usando uma partícula conjuntiva “para que” (ἵνα) e acrescenta um condicional “todo o que crer” e a consequência disso “tenha a vida eterna”. Tanto em João quanto em Números, o resultado é a vida. Em números, isso vem indicado pelo uso do verbo ζάω e, em João, pelo substantivo ζωνήν. Mas, com isso, percebe-se que a releitura joanina foca no elemento da elevação pelo uso do verbo ὑψόω = exaltar ou elevar.</p>

<p>João usa o mesmo verbo e reforça essa ideia em 12,32-33 ao dizer: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. E dizia isto, significando de que morte havia de morrer”. Nesse versículo, ele também trabalha com a citação indireta ao texto de Números, pois ali, todos que eram mordidos olhavam para o estandarte da serpente de bronze e eram “curados”. Mas, em Números, o verbo para elevar, levantar, não é atestado. A ideia de elevação fica subentendida no fato de a serpente de bronze estar em uma espécie de estandarte, mas não demonstra uma atenção ou importância especial à elevação. Cabe, então, a pergunta: viria de outra passagem bíblica? Se sim, qual ou quais? Em vista de uma possível resposta, agora passa-se a considerar o campo semântico da elevação na Bíblia.</p>

</sec>
<sec sec-type="discussion">
<title><bold>Aporte do campo semântico dos textos</bold></title>

<p>Com o horizonte do texto de João, ou seja, de uma elevação/ suspensão, não se encontram outros textos que atestem o verbo ὑψόω, que é traduzido geralmente por “exaltado” ou “elevado”. No entanto, há o texto emblemático de Dt 21,23-24 que usa o verbo κρεμάννυμι que traduz o vocábulo hebraico ( )ָתָ ָלָהe pode ser traduzido ao vernáculo por “suspenso”, “elevado” ou ainda “pendurar”. No Novo Testamento, esse termo assume dois sentidos: o mais literal de pendurar algo (cf. Mt 18,6), e o figurado. Mas, no Novo Testamento o termo aponta para a crucificação como suplício (Kuhn, 2005, col. 2402).</p>

<p>O texto grego de Deuteronômio traz:</p>

<p>Dt 21,22-23</p>

<p>22 Ἐὰν δὲ γένηται ἔν τινι ἁμαρτία κρίμα θανάτου καὶ ἀποθάνῃ καὶ κρεμάσητε αὐτὸν ἐπὶ ξύλου,</p>

<p>Mas, se acontecer de alguém cometer um pecado e for sentenciado à morte e executado e suspenso numa árvore,</p>

<p>23 οὐκ ἐπικοιμηθήσεται τὸ σῶμα αὐτοῦ ἐπὶ τοῦ ξύλου, ἀλλὰ ταφῇ θάψετε αὐτὸν ἐν τῇ ἡμέρᾳ ἐκείνῃ, ὅτι κεκατηραμένος ὑπὸ θεοῦ πᾶς κρεμάμενος ἐπὶ ξύλου· καὶ οὐ μιανεῖτε τὴν γῆν, ἣν κύριος ὁ θεός σου δίδωσίν σοι ἐν κλήρῳ.</p>

<p>não poderá o corpo dele ficar sobre a árvore,</p>

<p>mas deverás sepultá-lo no mesmo dia, pois o que foi suspenso sobre a árvore é maldito por Deus, e não deverá manchar a terra que o Senhor teu Deus te dá em herança.</p>

<p>Nesse texto, a noção de “elevação” não tem o sentido positivo de exaltação. Por isso, geralmente se traduz esse termo por “suspenso”, que assume, assim, um caráter negativo. Um exemplo de cumprimento dessa orientação é Js 8,29, no qual Josué pendura o rei de Hai sobre uma árvore e o deixa “até à tarde”, quando manda que desçam o corpo da árvore e o sepultem.</p>

<p>Quanto ao fato de ser maldito o que foi enforcado por suspensão em uma árvore, tem-se o texto de Est 8,7, no qual o rei persa manda enforcar Amã. Pode-se perceber que há um padrão no qual aparecem três elementos gramaticais. Essa construção está presente em todos os textos que falam de uma condenação por enforcamento. A variação fica por conta do modo em que é empregado o verbo.</p>

<p>verbo partícula substantivo</p>

<p>κρεμάννυμι ἐπὶ ξύλου</p>

<p>No entanto, os textos aqui citados consideram o caso de uma execução por enforcamento; com isso, não se sabe se essa suspensão sobre a árvore/madeiro que constitui uma maldição se aplicaria também aos casos de suicídio por enforcamento. Se o vínculo for buscado via vocabulário, há que se dizer que não há uma vinculação entre o suicídio por enforcamento e a maldição. Os textos bíblicos que atestam “enforcamento” são apenas três: o de Aquitofel em 2Sm 17,23; a consideração de um enforcamento em Tb 3 e o caso de Judas em Mt 27,5. Em todos esses casos, o verbo usado é o άπάγχω e não há referência ao instrumento do enforcamento, ou seja, não há qualquer referência à árvore ou madeiro.</p>

<p>Outro elemento a ser considerado é o termo hebraico para designar “árvore, madeira, peça de madeira, cajado, vara, ramo”. O termo mais comum para designar árvore, madeira ou objeto de madeira é.ֵעֵץ Esse termo foi traduzido ao grego, na maioria das vezes, por ξύλον. O termo hebraico também é usado para designar “vara, cajado, bastão”, juntamente com outros termos, tais como ַמַ ֵקֵ ל, ֵׁשֵ ֶבֶט, ַמַ ֶטֶהe, além desses, o construto,ִמִ ְׁשׁ ֶעֶֶנֶתque aparece no Sl 22/23,4 (BibleWorks, 2006). A tradução grega do Antigo Testamento deu preferência aos termos ῥάβδος e βακτηρία para traduzir os vocábulos hebraicos que designam cajado, bastão e vara (BibleWorks, 2006). Isso indica que, para a compreensão da releitura apostólica da imagem da elevação, deve-se ater aos textos e termos que façam referência direta ou indireta à árvore ou às “colunas de madeira” que sirvam de instrumento de suplício.</p>

</sec>
<sec sec-type="discussion">
<title><bold>A releitura apostólica do texto de Números</bold></title>

<p>De acordo com o visto acima, a releitura apostólica do ocorrido com Jesus Cristo pela imagem da elevação no madeiro está ancorada tanto em Nm 21,4-9 quanto em Dt 21,22-23. Mas, antes de considerar os outros textos neotestamentários, é necessário fazer uma consideração sobre os livros nos quais eles se encontram para situá-los cronologicamente. Além do Evangelho segundo João, essa releitura se encontra em Atos dos Apóstolos, na Carta aos Gálatas e na Primeira Carta de Pedro.</p>

<p>A Primeira Carta de Pedro foi escrita provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C., pois os indícios internos revelam que a carta deve ter sido escrita antes de uma forte perseguição e a primeira grande perseguição ampla da qual se tem registro é a de Domiciano, que ocorre entre os 93 e 96 d.C. O limite final no ano 90 é corroborado pelo fato de que a carta foi atribuída a Pedro, que no final do século I já tinha se tornado uma figura importante na Igreja nascente (Konings; Krull; Mareano, 2019, p. 29; Mosconi, 2002, p. 29). Quanto ao livro de Atos dos Apóstolos, ele é datado por volta do ano 90 ou um pouco mais tarde (Mascilongo; Landi, 2022, p. 194). Marguerat (2009, p. 146) aponta para a composição do livro no período entre 80 e 90 d.C. Por sua vez, a composição do Evangelho segundo João é datada entre os anos 90 e 100 d.C. (Malzoni, 2018, p. 29), o que permite deduzir que as duas primeiras obras são contemporâneas e o evangelho de João é quase contemporâneo a elas.</p>

<p>Já a Carta aos Gálatas é indiscutivelmente o mais antigo dos textos aqui citados, uma vez que é protopaulina. Além disso, a carta aos Gálatas tem muitas afinidades com a carta aos Romanos, de modo que se pode afirmar um curto período entre elas. Romanos foi escrita por volta do ano 57 (Lourenço, 2020, p. 13), enquanto a carta aos Gálatas provavelmente foi escrita entre os anos 54-57 d.C. (Silvano, 2020, p. 77). Enfim, entre os textos que leem o evento Cristo à luz de relatos veterotestamentários, Gálatas é anterior aos outros e, portanto, deve ser o escrito inspirador da releitura.</p>

<p>Assim, é possível afirmar que os outros escritos neotestamentários retomam a releitura paulina, cada um à sua maneira. Destaque-se o fato de que, à exceção de João, os outros textos neotestamentários que atestam a releitura em questão, têm alguma relação com a teologia paulina via autoridade por trás dos textos aqui considerados.</p>

<p>Lucas, autoridade por trás de Atos dos Apóstolos, era companheiro e amigo de Paulo e dele tem-se notícia por referências feitas pelo próprio Paulo em algumas de suas cartas: “Saúdam-vos, enfim, Lucas, o querido médico, e Demas” (Col 4,14); “Só Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, porque é prestativo para ajudar-me” (2Tm 4,11); “[...] igualmente, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores (Flm 24). Quanto à Carta de Pedro, a autoridade do escrito remonta a Pedro e a seu secretário Silvano. Além disso, faz referência a Marcos, que seria o João Marcos, antigo colaborador de Paulo. Segundo Cothenet (1984, p. 8),</p>

<p>Muito provavelmente, este Silvano não é outro senão Silas, um profeta da primeira comunidade de Jerusalém (At 15,22.40), que acompanhou Paulo na sua segunda viagem missionária. [...] As relações de Marcos, mencionado em 5,13, com Pedro são mais estreitas. [...] No entanto, no início, Marcos acompanhou Paulo na sua missão, mas o seu abandono (At 13,13) provocou a irritação do apóstolo (15,38). Posteriormente, Marcos foi intérprete de Pedro [...].</p>

<p>Enfim, uma vez definida a cronologia dos testemunhos apostólicos e as relações entre eles, pode-se passar à consideração dos textos de referência para esta pesquisa. Para isso, dispõe-se o texto abaixo na língua original e sua tradução ao vernáculo.</p>

<p>Gl 3,13 Χριστὸς ἡμᾶς ἐξηγόρασεν ἐκ τῆς κατάρας τοῦ νόμου γενόμενος ὑπὲρ ἡμῶν κατάρα· γέγραπται γὰρ· ἐπικατάρατος πᾶς ὁ κρεμάμενος ἐπὶ ξύλου.</p>

<p>Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; pois está escrito: maldito todo aquele que for suspenso no madeiro</p>

<p>1Pd 2,24 ὃς τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν αὐτὸς ἀνήνεγκεν ἐν τῷ σώματι αὐτοῦ ἐπὶ τὸ ξύλον, ἵνα ταῖς ἁμαρτίαις ἀπογενόμενοι τῇ δικαιοσύνῃ ζήσωμεν· οὗ τῷ μώλωπι αὐτοῦ ἰάθητε.</p>

<p>Levando, ele mesmo, em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.</p>

<p>At 5,30</p>

<p>ὁ Θεὸς τῶν πατέρων ἡμῶν ἤγειρεν ᾿Ιησοῦν, ὃν ὑμεῖς διεχειρίσασθε κρεμάσαντες ἐπὶ ξύλου.·</p>

<p>O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro.</p>

<p>καὶ ἡμεῖς ἐσμεν μάρτυρες πάντων ὧν ἐποίησεν ἔν τε τῇ χώρᾳ τῶν ᾿Ιουδαίων καὶ ἐν ῾Ιερουσαλήμ· ὃν καὶ ἀνεῖλον κρεμάσαντες ἐπὶ ξύλου.</p>

<p>E nós somos testemunhas de tudo o que fez na região dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, suspendendo-o no madeiro.</p>

<p>At 10,39</p>

<p>O primeiro a fazer a releitura do ocorrido com Jesus foi Paulo, e ele ancora, sem sombra de dúvida, sua reflexão sobre o texto de Dt 21,23. Paulo faz uma citação direta do texto de Deuteronômio, mas, ao invés de considerar Jesus Cristo como um “maldito”, como esperado pelo critério da lei mosaica, ele inverte a situação. Como isso foi possível? A resposta a essa questão é: foi possível pela fé na Ressurreição.</p>

<p>A afirmação da ressurreição é, grosso modo, “aquele que foi morto, vive”. A fé na ressurreição quebra a lógica existente até aquele momento. Segundo a lei, o ser morto suspenso na árvore/madeiro, ou seja, ser condenado e executado nessas condições, revelava uma maldição da parte de Deus. Mas, como e por que o ser suspenso numa árvore se torna sinal de maldição?</p>

<p>Para responder a isso, é necessário entender o horizonte dos relatos iniciais de Gênesis e de Deuteronômio. Em Gênesis, no jardim, encontram-se duas árvores: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. De acordo com o relato de Gn 3, a segunda se torna um símbolo da queda e da condição mortal do ser humano. A árvore torna-se para o ser humano um sinal ambíguo: pode ser o instrumento de suplício e também um símbolo da vida. Não parece ser acaso que, nos textos aqui considerados, principalmente quando o termo “árvore” está presente, o verbo ζάω ou substantivo dele derivado, ζωνην, também se encontra. Isso indica uma primeira contraposição entre morte e vida, maldição e bênção.</p>

<p>O segundo texto é 1Pd 2,24 e nele encontram-se todos os termos importantes atestados em Dt [e de João]: árvore, pecado, vida, corpo. Como em Gálatas, 1Pd traz uma construção na qual Jesus Cristo assume a condição negativa para transformá-la para o ser humano. Aqui ele “leva em seu corpo os nossos pecados” para que, ao morrer sobre o madeiro, como um maldito, para que morrendo a condição de pecado do ser humano, ele possa viver para a justiça. Aqui aparece a segunda contraposição entre o pecado e a justiça, outro modo de falar da oposição vida e morte.</p>

<p>Por fim, temos as duas atestações de Atos dos Apóstolos. A primeira delas encontra-se no relato da presença dos apóstolos diante do Sinédrio e ali, Pedro com os outros apóstolos, responde à perguntacensura do sumo sacerdote sobre o ensinamento no nome de Jesus. Ao questionamento “Não vos proibimos expressamente de ensinar nesse nome?” (At 5,28), respondem: “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro” (At 5,30). Já a segunda atestação encontra-se no segundo discurso de Pedro, que versa sobre a pregação da boa-nova aos gentios e que, por isso, segue o texto da visão de Pedro, na qual recebe a ordem de matar e comer animais impuros. Ali faz uma memória de todo o bem que Jesus fez e que curou a muitos. A isso segue a afirmação de que eles [os judeus] o mataram “suspendendo-o no madeiro” (At 10,39).</p>

<p>Em Atos, a afirmação de que Jesus Cristo foi suspenso no madeiro está dentro de confissões de fé dos apóstolos de maneira geral e, particularmente, em falas de Pedro, pois encontram-se na primeira parte do grande dístico de Atos dos Apóstolos (Bossuyt; Radermakers, 1995, p. 10). Pelo acordo verbal, sabe-se que a base é também o texto do Deuteronômio, como em Gálatas. Mas, para além do acordo verbal, a afirmação da suspensão no madeiro como resultado de uma execução e condenação. O que diferencia as atestações de Atos de Gálatas e 1 Pedro é o foco; nas cartas, a releitura visa uma compreensão teológica na qual realça a consequência positiva para os seres humanos do ocorrido com Jesus, enquato Atos reforça o aspecto negativo e a chamada à responsabilidade pelo ocorrido.</p>

<p>Essas releituras antecedem a de João, uma vez que o Evangelho de João é datado entre os anos 90 e 100. Cronologicamente, ele estaria mais próximo de Atos dos Apóstolos. Porém, teologicamente, afina-se mais com Gálatas e 1 Pedro porque tentam ressignificar o traumático evento da morte violenta sofrida por Jesus e apresentá-la como algo positivo, salvífico para os seus seguidores e para a humanidade inteira. Mas o evangelista foi além da releitura de Deuteronômio e trabalhou também com o texto de Números para dar conta do escândalo da cruz e mostrar que ela é motivo de salvação.</p>

</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title><bold>Considerações finais</bold></title>

<p>Ao final do percurso, pode-se dizer que a intertextualidade presente nos textos estudados é principalmente do tipo citação, direta e indireta. Essa releitura foi progressiva e a observação do vocabulário utilizado ajudou bastante na compreensão do caminho feito pelos autores sagrados. Embora, em alguns momentos, seja necessário ir ao texto hebraico, para a releitura neotestamentária dos textos foi essencial a versão grega, pois foi essa a base para os autores do Novo Testamento.</p>

<p>Os autores de Gálatas e 1 Pedro ancoraram-se, em sua reflexão sobre a paixão e morte de Jesus Cristo na cruz, no texto do Deuteronômio e, com isso, sabe-se que os primeiros cristãos tiveram que enfrentar as acusações de parte dos judeus de que Jesus caiu sob a maldição tal como se encontrava na Lei de Moisés (Dt 21,22-23). Ou eles mesmos enfrentaram num primeiro momento essa dúvida e, por isso, à luz da fé na ressurreição, buscaram entender como Jesus não só não era maldito, mas era causa de salvação/cura. Daquela situação de aparente negação da bênção divina, vinha a vida eterna.</p>

<p>Mas o evangelista João foi além e encontrou no texto de Números um bom caminho para essa explicação. Ali a intertextualidade é tanto a citação quanto a alusão. Ele cita Moisés diretamente e, com isso, seu leitor identifica rapidamente a qual texto ou situação ele está se referindo. No texto veterotestamentário também se encontra o verbo ζάω (viver), que é retomado no substantivo ζωὴν e seguido do adjetivo αἰώνιον, ou seja, a vida eterna. Além disso, encontra-se a comparação do movimento de elevação. Tanto a serpente quanto Jesus são levantados. Esse é o ponto principal na releitura joanina.</p>

<p>Mas é a sequência do texto joanino que possibilita ao leitor entender que ele se ancora no texto de Números, mas tem o horizonte da releitura apostólica do texto de Deuteronômio. Pois reforça a consequência positiva para os seus seguidores, que é a vida. O ser levantado no madeiro, ou seja, ser sentenciado à morte de cruz, não é uma atestação de condenação à morte, mas causa de vida, e vida eterna. Como em Números, a serpente é tanto a causa da morte quando morde quanto a de salvação quando elevada na haste; a cruz é instrumento de morte, mas a cruz de Cristo é causa de salvação.</p>

<p>Enfim, a releitura cristã unificou as noções de dois textos distintos do Antigo Testamento ao retomar a ideia de elevação sem usar os termos presentes em Números e a da maldição deuteronômica relacionada com a árvore. Essa sim, ancorada nos termos ets e xuloun. Do ponto de vista da análise literária, o texto de Deuteronômio está mais bem atestado na releitura neotestamentária de Gálatas, 1 Pedro e Atos dos Apóstolos pela concordância verbal detectada. Mas, em João, há uma clara intertextualidade com Números, tanto pela presença de termos-chave quanto pela indicação direta por meio da citação do que fez Moisés no deserto.</p>
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				<label>1</label>
				<p>Usos de nes são: Ex 17,15; Nm 21,8.9; 26,10; Sl 60,6; Is 5,26; 11,10.12; 13,2; 18,3; 30,17; 31,9; 33,23; 49,22; 62,10; Jr 4,6.21; 50,2; 51,12.27; Ez 27,7.↩</p>
			</fn>
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        <article-title>Intertextualidade como estratégia argumentativa: um processo criativo em canções</article-title>
        <source>Revista Linguagem em Foco</source>
        <volume>17</volume>
        <issue>2</issue>
        <fpage>132</fpage>
        <lpage>150</lpage>
        <year>2025</year>
        <comment>DOI: 10.46230/lef.v17i2.14111. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/linguagememfoco/article/view/14111. Acesso em: 17 fev. 2026.</comment>
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