The art of bible translation: by Robert Alter

A arte da tradução da Bíblia: por Robert Alter

Petterson Brey
Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Contato: pettersonbrey@gmail.com


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RESENHA DO LIVRO: ALTER, Robert. The Art of Bible Translation. New Jersey: Princeton University Press, 2019, 127p.


Introdução

Propõe-se, aqui, uma resenha crítica do mais recente livro de Robert Alter, intitulado “The Art of Bible Translation” (A arte da tradução da Bíblia), de 2019, pela editora Princeton University Press, ainda sem tradução para o Português. Pretende-se avaliar, no âmbito desse breve texto, a pertinência da referida obra para o campo da exegese bíblica, porquanto, em perspectiva da índole literária de um dos objetos de estudo fundamentais da teologia – a Bíblia –, a tradução dos idiomas originais pode, também, ser considerada uma arte, conquanto seja monitorada por ferramentas metodológicas cientificamente ajustadas. O desenvolvimento, portanto, dessa abordagem ao livro de Alter percorrerá as seguintes etapas: (1) o autor; (2) a obra; (3) considerações finais.

1. O autor

Robert Alter, nascido em 2 de abril de 1935 – em Nova Iorque, EUA –, é considerado um dos maiores estudiosos de hebraico e literatura comparada da atualidade. Doutor em literatura comparada pela Universidade de Harvard e Humanidades pela Universidade de Yale, leciona, desde 1967, na Universidade da Califórnia em Berkeley. Tendo, ao longo de sua carreira, recebido vários prêmios e condecorações, Alter é autor de mais de vinte livros e centenas de artigos científicos, podendo-se, aqui, dar destaque aos títulos conhecidos pelo presente resenhista: “The Art of Biblical Narrative” (1981); “The Art of Biblical Poetry” (1985); em coautoria com Frank Kermode “The Literary Guide to the Bible” (1987); “The World of Biblical Literature” (1992); “Hebrew and Modernity” (1994); “The David Story” (1999); “Canon and Creativity: Modern Writing and the Authority of Scripture” (2000); “The Five Books of Moses” (2004); além da tradução – com comentários – completa da Bíblia Hebraica para o inglês, concluída e publicada (2019) em três volumes, sob os títulos “The Hebrew Bible: The Five Books of Moses”, “The Hebrew Bible: Prophets” e “The Hebrew Bible: The Writings”.

2. A obra

O livro “The Art of Bible Translation” (A arte da tradução da Bíblia) possui 127 páginas e é dividido em seis capítulos, precedidos por um prelúdio autobiográfico de 8 páginas – onde Alter, ao relatar etapas de sua trajetória de vida acadêmica, planta questões acerca de seu ponto de vista da Bíblia Hebraica, que serão melhor desenvolvidas no decorrer da obra –, e sucedidos por uma seção de 2 páginas com sugestões de leituras posteriores. Os capítulos estão distribuídos da seguinte maneira: (1) “The Eclipse of Bible Translation” (O eclipse da tradução bíblica), com 26 páginas; (2) “Syntax” (Sintaxe), com 17páginas; (3) “Word Choice” (Escolha de palavras), com 19 páginas; (4) “Sound Play and Word Play” (Jogo de som e jogo de palavras), com 16 páginas; (5) “Rhythm” (Rítmo), com 20 páginas; “The Language of Dialogue” (A linguagem do diálogo), com 19 páginas.

Em seu livro, ao examinar o desafio da tradução das características distintivas da literatura bíblica hebraica, incluindo seu estilo poético, sua estrutura narrativa e sua linguagem simbólica,[1] Alter discute acerca das diferenças entre a tradução e a interpretação da Bíblia. Ele compara e analisa várias traduções bíblicas, incluindo versões clássicas e contemporâneas, discutindo a respeito do que ele considera serem as mais bem-sucedidas e as menos bem-sucedidas. Outrossim, ele oferece, também, conselhos práticos sobre como traduzir a Bíblia de maneira eficaz, dando ênfase a importância da precisão linguística, da precisão literária e da compreensão do contexto histórico-cultural.

De acordo com Alter, a tradução se concentra na transferência da mensagem original da Bíblia para outra língua, enquanto a interpretação se concentra na compreensão do significado da mensagem. Destarte, a tradução da Bíblia requer habilidade linguística e compreensão da literatura bíblica hebraica, já que é importante capturar a precisão da linguagem original. No entanto, a tradução, também, envolve interpretação, porquanto, para produzir uma tradução precisa, é necessário compreender o contexto histórico-cultural da época em que a Bíblia foi escrita.[2]

Todavia, a interpretação também leva em conta a leitura atual e as crenças dos leitores, uma vez que a Bíblia é considerada uma obra viva que evolui com o tempo.[3] Por conseguinte, em perspectiva da tradução se concentrar na transferência da mensagem original para outra língua, enquanto a interpretação se concentra na compreensão do significado da mensagem original, uma tradução bem-sucedida, de acordo com Alter, deve equilibrar a precisão linguística e literária com a interpretação adequada do contexto histórico-cultural.

Ao tratar sobre a precisão linguística e literária, Alter está se referindo à importância de se capturar a linguagem da Bíblia de maneira precisa e fiel ao texto original, o que inclui aspectos como a estrutura sintática, as palavras escolhidas, o uso de metáforas e símbolos, entre outros. Segundo ele, a escolha das palavras corretas e o uso preciso da gramática podem ajudar a transmitir nuances e sutilezas na mensagem que de outra forma poderiam ser perdidas na tradução. Ao equilibrar a precisão linguística e literária com a interpretação adequada do contexto histórico-cultural, uma tradução bem-sucedida não é uma simples transferência literal da linguagem original para outra língua.

Ao discutir sobre a importância da precisão linguística e literária na tradução da Bíblia, conquanto esses termos sejam, por ele, usados juntos, Alter argumenta que ambos representam diferentes aspectos da tradução. A precisão linguística se refere à habilidade de capturar a linguagem original da Bíblia de maneira precisa, incluindo aspectos como a estrutura sintática, o uso de palavras específicas e a correta aplicação da gramática, como é o caso da configuração verbal do texto hebraico.[4] A precisão literária, por sua vez, se refere à habilidade de capturar a beleza e a riqueza da linguagem bíblica, vertida por aspectos como o uso de metáforas, símbolos e imagens, bem como a musicalidade da linguagem.

Destarte, ao discutir acerca da importância da compreensão e da preservação do estilo poético, da estrutura narrativa e da linguagem simbólica da Bíblia na tradução, Alter argumenta que a Bíblia é uma obra rica em linguagem poética, incluindo rimas, repetições, metáforas e imagens. Ele acredita que é importante preservar esse aspecto da linguagem bíblica na tradução, para transmitir a beleza e a riqueza da mensagem original. Ademais, ele também destaca a importância da estrutura narrativa na Bíblia, incluindo a forma como as histórias são contadas e as relações entre eventos.[5] 

Assim, Alter oferece vários conselhos para os futuros tradutores da Bíblia: (1) Compreenda a linguagem original: é importante que o tradutor tenha uma compreensão profunda da linguagem original da Bíblia, incluindo suas estruturas gramaticais, vocabulário e expressões idiomáticas; (2) Preserve a estrutura narrativa: a estrutura narrativa é uma parte importante do significado profundo da Bíblia e deve ser preservada na tradução; (3) Mantenha a linguagem poética: a linguagem poética da Bíblia é importante para a compreensão do significado profundo da mensagem bíblica; (4) Considere o contexto histórico e cultural: é importante considerar o contexto histórico-cultural da Bíblia para traduzi-la de maneira precisa; (5) Mantenha a consistência terminológica: é importante manter a consistência terminológica na tradução da Bíblia para evitar ambiguidade e confusão; (6) Preste atenção às nuances de significado: as nuances de significado da Bíblia são importantes para a compreensão da mensagem.

Ao se referir a estrutura, Alter está falando acerca da forma como a linguagem e a narrativa são organizadas na Bíblia. Ele acredita que a estrutura é uma parte fundamental da mensagem original da Bíblia e que a tradução deve buscar preservar essa estrutura para transmitir a mensagem de maneira fiel. Ele argumenta que a estrutura da linguagem poética da Bíblia é importante para transmitir o significado profundo da mensagem bíblica e ajudar o leitor a ter uma compreensão completa da narrativa.[6]

Por fim, Alter fala sobre metáforas como uma forma importante de expressar o significado profundo da mensagem original da Bíblia, todavia, embora se constituam como uma parte fundamental da linguagem poética hebraica, a sua tradução é um desafio significativo. Ele acredita que as metáforas são uma maneira importante de capturar o significado profundo da mensagem e ajudar o leitor a ter uma compreensão profunda da narrativa. De acordo com ele, para a tradução bem-sucedida das metáforas bíblicas, é importante compreender as associações culturais e históricas que estão ligadas a cada metáfora para transmitir a mensagem de maneira fiel para o novo público leitor.[7]

Considerações finais

Enfim, considera-se, aqui, que, “The Art of Bible Translation” de Robert Alter, constitui-se como referencial teórico indispensável não somente para os tradutores de ofício dos textos da Bíblia Hebraica, mas, também, para todos os pesquisadores e exegetas que se dedicam ao estudo das tradições bíblicas. O livro de Alter transcende a mera especificidade de um manual de tradução, porquanto, em virtude da renomada experiência do autor, ao longo de décadas de dedicação a esse trabalho, o seu texto carrega consigo a consistência dessa sabedoria acumulada. Trata-se de uma obra que não apenas ensina, mas, também, inspira novas gerações de tradutores da Bíblia a enxergar o valor de seu ofício.

Referências

BAR-EFRAT, Shimon. Narrative Art in the BibleNew York: T&T Clark, 2008.

BERKELEY – CENTER FOR JEWISH STUDIES. Robert AlterDisponível em: <https://jewishstudies.berkeley.edu/people/robert-alter/>. Acesso em: 06 abr. 2023.

BERKELEY – DEPARTAMENT OF COMPARATIVE LITERATURE. Robert Alter. Disponível em: <https://complit.berkeley.edu/people/emeriti/robert-b-alter>. Acesso em: 06 abr. 2023.

BERLIN, Adele. Reading Biblical Poetry. In: BERLIN, Adele; BRETTLER, M. Z. (Eds.). The Jewish Study BibleNew York: Oxford University Press, 2004, pp. 2184-2191.

BERLIN, Adele. Poetics and Interpretation of Biblical NarrativeWinona Lake: Eisenbrauns, 2005.

CARSON, Donald A. Exegetical FallaciesGrand Rapids: Baker Academic, 1996.

GRENZER, Mathias. As dimensões temporais do verbo hebraico: desafio ao traduzir o Antigo Testamento. Revista Pistis Praxis Teologia e Pastoral, Curitiba, v. 8n. 1, p. 15-32, jan./abr. 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.7213/pp.v8i1.1270>. Acesso em: 22 fev. 2023.

MARQUERAT, Daniel. L’exégèse biblique à l’heure du lecteur. In: MARGUERAT, Daniel (Éd.). La Bible en RécitsL’exégèse biblique à l’heure du lecteur. (Le Monde de la Bible – Nº 48). Genève: Labor Et Fides, 2005, pp. 13-40.

MILNE, Pamela J. Vladimir Propp and the Study of Structure in Hebrew Biblical Narrative. Decatur / Sheffield: Sheffield Academic Press, 1988.

RICOEUR, Paul. Stellung und Funktion der Metapher in der biblischen Sprache. In: RICOEUR, Paul; JÜNGEL, Eberhard (Hrsgs.). Metapher. Zur Hermeneutik religiòˆser Sprache(Evangelische Theologie Sonderheft, 34 – Supplement). München: Chr. Kaiser Verlag, 1974, pp. 45-70.

RICOEUR, Paul. La métaphore vive. (L’orde philosophique collection dirigée par François Wahl). Paris: Éditions du Seuil, 1975.

STERNBERG, Meir. The Poetics of Biblical Narrativeideological literature and the drama of reading. Bloomington: Indiana University Press, 1987.

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Notas

[1] Quanto aos aspectos distintivos da literatura hebraica bíblica, Alter é seguido de perto por vários estudiosos: (BERLIN, 2005,   pp. 13-21; BAR-EFRAT, 2008, pp. 9-11; STERNBERG, 1987, pp. 1-57).

[2] Nesse ponto Alter concorda com D. A. Carson, que assevera que o sentido do texto bíblico transcende a mera semântica das palavras (CARSON, 1996, pp. 27-86). 

[3] No que tange à resposta do leitor ao mundo narrado, o pensamento de Alter segue de perto outros estudiosos importantes: (STERNBERG, 1987, pp. 41-57; MARGUERAT, 2005, pp. 13-40).

[4] A posição de Alter acerca da configuração verbal e sua importância para a tradução dos textos da Bíblia Hebraica encontra aderência no pensamento de Matthias Grenzer, quando este afirma que “ao traduzir um texto pertencente à Bíblia Hebraica para o português, o leitor-tradutor se depara com a necessidade de alcançar o máximo de clareza sobre os valores que o verbo hebraico, dentro de seu sistema linguístico e a partir de sua inserção contextual, transmite” (GRENZER, 2016, p. 17).

[5] No que se refere à estrutura de superfície das narrativas etnopoéticas da Bíblia Hebraica, Alter segue um raciocínio semelhante ao pensamento de Vladimir Propp, em seu estudo sobre o design narrativo das histórias bíblicas (MILNE, 1988, pp. 263-265).

[6] Conforme assevera Adele Berlin, a mensagem bíblica é, ao mesmo tempo, o conteúdo do que é dito e a forma como ele é dito. Forma e conteúdo são inseparáveis (BERLIN, 2004, pp. 2184-2191).

[7] As proposições de Alter acerca do significado profundo das narrativas bíblicas e seu acesso via linguagem metafórica possuem pontos de aderência com as ideias de Paul Ricoeur a respeito dos sentidos profundos que, através das metáforas, exigem ser ditos (RICOEUR, 1974, pp. 45-46; RICOEUR, 1975, pp. 384-399).