Makunaima e Melquisedeque: preocupações teológicas decoloniais

Makunaima and Melchizedek: decolonial Theological concerns

William Rezende Quintal 
Mestre em arte pela UnB. Doutorando em Teologia pela Faculdade EST. williamquintal@gmail.com

Carolina Bezerra de Souza
Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Professora do Programa de PósGraduação em Teologia da Faculdades EST. carolbsouza@gmail.com


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Resumo: O artigo propõe uma leitura teopoética do artivismo de Jaider Esbell, artivista indígena do povo macuxi RR, propondo uma aproximação semântica com o capítulo 7 da Epístola aos Hebreus em busca de evidenciar paralelismos, correspondências e possíveis contribuições decoloniais no mito de Melquisedeque, que contribuam para a reconstrução de narrativas interculturais e interfé. O texto é tratado a partir de uma hermenêutica da suspeita, buscando traçar ausências ou possíveis ocultações no texto que se dariam por exacerbações de características das personagens, ou por ênfases estilísticas que podem ou não, sinalizar tanto a destinação da enunciação, quanto perspectivas tradicionais reproduzidas ali. A ideia é discutir o texto bíblico em sua polissemia e a personagem Melquisedeque em sua ambiguidade intrínseca, apontando para questionamentos às noções de exclusivismo, colonialismo e patriarcado presentes na autoridade mítica e profética de Makunaima, evocado na obra Jaider Esbell. O artigo busca assim, contribuir para o reconhecimento do discurso teopoético como parte de uma epistemologia de fato dialogal, em que haja horizontalidade nas reflexões interfé sobre o cuidado com a Criação.

 Palavras-chave: Decolonialidade. Artivismo Indígena. Diálogo Interfé. Ecumenismo. Melquisedeque.

 

Abstract: This article proposes a theopoetic reading of the macuxi indigenous artivist Jaider Esbell’s work, proposing a semantic approach to the text of Hebrews 7, in search of evidence of parallels, correspondences, and possible decolonial contributions in the myth of Melchizedek, which can contribute to the reconstruction of intercultural and interfaith narratives. The text is treated from a hermeneutics of suspicion point of view, seeking to trace absences or possible concealments in the text that would occur by exaggerations of the characters, or by stylistic emphases that may or may not signal both the destination of the enunciation, and traditional perspectives reproduced there. The idea is to discuss the biblical text in its polysemy and the character of Melchizedek in its intrinsic ambiguity, pointing to questioning the notions of exclusivity, colonialism, and patriarchy present in the mythical and prophetic authority of Makunaima, evoked in the work of Jaider Esbell. The article thus seeks to contribute to the recognition of the theopoetic discourse as part of a truly dialogical epistemology, in which there is horizontality in interfaith reflections on care of Creation.

Key words: Decoloniality. Indigenous Artivism. Interfaith dialogue. Ecumenism. Melquizedek


1. Vejo as pessoas, mas elas parecem árvores que andam[1]

Balé das perspectivas indígenas

A raiz bebe da água do rio e transforma tudo em flor e folha, a formiga come a folha, a abelha chupa o néctar da flor, a aranha come a abelha pela teia, o sapo come a aranha e o cupim come a madeira. O lagarto come cupim, que é comido pelo gavião que está no fim da cadeia. A cobra come o humano, o humano canibaliza e é canibalizado. Onça come todos que estiverem por perto. Eu como o outro. Só os evangelizadores e os positivistas não comem ninguém, apenas observam de fora. (FARES, 2019, p. 11)

No poema Balé das perspectivas indígenas também se apresenta uma visão sobre os não-indígenas, sobre o que evangelizadores e positivistas parecem pensar de si mesmos. De dentro, ou seja, desde a comilança da vida que se perpetua e se autofecunda, notam-se os famélicos que parecem apenas observar de fora. Aqueles que parecem ter optado por um jeito faminto de existir, onde a cobiça é disfarçada de autossuficiência e a inveja de distanciamento desapaixonado. Nessa lógica de escassez que se exporta para uma realidade paralela à existência dos seres viventes, uma realidade onde só pode haver muito para poucos, existe também a ilusão de poder haver uma realidade independente do todo da Criação. No poema, evangelizadores e positivistas parecem ser bandos da mesma espécie, que por vezes se estranham, mas que além dos discursos superficialmente incompatíveis, parecem ter tudo mais em comum. Partilham de uma realidade criada, sujeita e escrava da imposição da própria razão a todas as demais maneiras de existir, que acaba sendo exclusivista, impositiva, centralizadora e por herança colonial, patriarcal. 

Ao se propor uma leitura teopoética do capítulo 7 da Epístola aos Hebreus por uma abordagem semiótica, o que se busca é a atualização do papel mítico e profético de Melquisedeque. Essa personagem é sustentada no texto bíblico em questão como argumento para a autoridade sacerdotal de Jesus, mas também remete a uma autoridade mística ulterior à revelação canônica, talvez, desafiando a uma atualização ainda mais radical dos limites da noção de “religião verdadeira”, apelando à humildade intelectual de reconhecer o desconhecido, “vere tu es Deus absconditus” (PASCAL, 1958, p. 209).  

Observa-se que, ao narrar as origens e natureza da obra sacerdotal do “Rei da Paz” (v.2), restaura-se também a perspectiva mítica de uma caminhada humana com Deus que ultrapassa a linhagem tribal de Abraão. Desse modo, torna-se possível evidenciarem-se paralelismos, correspondências e até contribuições decoloniais presentes no mito de Melquisedeque para a reconstituição de narrativas dialogais nas relações interculturais e interfé[2].

2. Aspiro ao grande labirinto[3]

O texto bíblico escolhido de Hebreus 7, será tratado sincronicamente a partir de uma leitura semiótica, valendo-se de uma hermenêutica da suspeita em que a abordagem feminista oferece o viés crítico necessário na busca por uma leitura deshierarquizada dos paralelos buscados entre os mitos de Melquisedeque e de Makunaima, como vozes proféticas. 

Segundo Bakhtin (2006), a linguagem, como prática social, não é neutra, ela articula processos ideológicos. A ideologia é entendida então como essa construção histórica e social de ideias presente em práticas sociais cotidianas. Os discursos dialogam com discursos anteriores e valem-se da repetição, alteração ou esquecimento de significados dos signos originados no contexto discursivo como mecanismo da ideologia. 

Como todo texto, as narrativas bíblicas e obras literárias são uma enunciação discursiva que articula discursos anteriores e fomenta novos influenciada pelo seu contexto discursivo e ideológico.

Buscando traçar ausências ou possíveis ocultações no texto, que se dariam por exacerbações de características das personagens e por ênfases estilísticas, que podem ou não, sinalizar tanto a destinação da enunciação, quanto modelos tradicionais reproduzidos ali, observou Hélio Oiticica (1986, p. 24), que, a obra de Arte, manifestada em sua aparente contradição que “tende à negação do mundo para a afirmação de outro mundo”, tem uma reserva de significado (GADAMER, 1999, p. 549) em sua não-objetividade. Ao mesmo tempo, nega o mundo factual, ordinário e concreto e afirma outro, muito mais real que a própria realidade. Nesse mesmo horizonte de significado, pode-se dizer que se encontra a transformação do profano em sagrado, de fugaz e decadente em perfeito e eterno, no sentido que é tratada a teoria de Mircea Eliade em Daniel L. Pals (PALS, 1999, p.259). 

Quanto mais não-objetiva é a arte, mais tende à negação do mundo para a afirmação de outro mundo. Não a negação negativa, mas a extirpação dos restos inautênticos das vivências do mundo, corriqueiras. Só assim seria lícita a exclamação diante da não-objetividade da arte: “Que sensação de fim de mundo ou de nada.” O que é preciso é que o mundo seja um mundo do homem e não um mundo do mundo. (OITICICA, 1996, p. 24)

Diante disso, a ideia é discutir um paralelo entre o texto bíblico em sua polissemia, a personagem Melquisedeque, em sua ambiguidade intrínseca, e a autoridade mítica e profética de Makunaima[4], avô (ESBELL, 2018, p. 11-39) e ancestral mítico do artivista (VILAS BOAS, 2015) indígena Jaider Esbell (1979-2021), apontando para questionamentos às noções de exclusivismo, colonialismo e patriarcado. Por isso, os métodos advindos da linguística podem ser boas ferramentas tanto de análise dos textos bíblicos, quanto na estruturação de um diálogo intersemiótico com as artes, matrizes religiosas ou qualquer outra rede de significados trazidas como bagagem para essa fusão de horizontes.  

Mesmo assim, a radicalidade expressiva e conceitual de um Hélio Oiticica, ou mesmo de um Hans-Georg Gadamer (1900-2002), pode parecer extravagante, e até mesmo pecaminosa, para pessoas leitoras preocupadas com um possível desmantelamento de textos bíblicos sob o pretexto de uma leitura teopoética. Em função dessa realidade repleta de extremos por onde a Teologia sempre caminhou, é necessário o cuidado de ampliar ainda mais o espectro de referenciais metodológicos. Assim, tornam-se inescapáveis as contribuições de Wilhelm Egger (1940-2008), que propõe uma metodologia de leitura bíblica sob o aspecto sincrônico, apresentando os métodos histórico-críticos e formais como complementares a essa leitura analítica sob os aspectos semióticos, que atuam como instâncias de controle” a respeito da exatidão da leitura (EGGER, 2005, p. 13), para que se alcance uma interpretação “correta[5]” dos textos bíblicos.

Apesar de ser uma obra introdutória, o livro de Wilhelm Egger é bastante robusta como referencial porque, além de um posicionamento otimista quanto a difusão da leitura bíblica, tratada como “Renascença Bíblica” no prefácio do tradutor (EGGER, 2005, p. 8), ele traz diferentes níveis de possibilidades válidas de leitura e interpretação da Bíblia. Essas possibilidades vão desde o contexto devocional e comunitário até o científico, sem, contudo, atribuir hierarquia a uma ou outra forma de ler as Escrituras. Egger apresenta a teoria greimasiana da enunciação, sob o aspecto semântico, em que o texto é visto como uma rede, um conjunto de relações entre seus elementos significantes, e é nesse micro-universo semântico (EGGER, 2005, p. 91) onde se estabelecem as trilhas de sentido, a fusão de horizontes já estabelecida antes mesmo de iniciar o trabalho interpretativo.

O universo semântico é definido como o conjunto de sistemas e valores que pode ser apreendido como significante apenas se articulado ou narrativizado. Por isso, qualquer discurso pressupõe um universo semântico hipoteticamente feito da totalidade das significações, postuladas como tais antes dessa articulação, e que o atualiza em parte. Esse micro-universo semântico, no nível fundamental, articula estruturas axiológicas fundamentais como vida/morte (universo individual) e natureza/cultura (universo coletivo). Essas estruturas básicas situadas no nível semântico profundo são consideradas como ad hoc universais que servem como pontos de partida para a análise dos universos semânticos, sejam eles individuais ou coletivos. (GREIMAS, 1987, p. 28 - Tradução nossa).[6]

É justamente no âmbito dessas estruturas semânticas profundas onde a narratividade é construída, que se procura o discurso, ou discursos, sobre o mito sobreviventes no texto de Hebreus.  

3. Espelhos e prismas

Deus dos deuses

 

os olhos buscam a luz

de luz os olhos se abrem

pupilas

a verdade joga luzes

fonte das telas

televisores

fotografias

projetores

fótons

 

close nos artistas

focos de luzes

canta a estrela

áurea lua cheia

ayahuasca

 

buda é iluminado

krishna luz espiritual

deus é estar longe das trevas

a falta de luz é medo

mas o escuro descansa

 

à noite acendo a luz

de dia ilumina tudo o sol

o deus dos deuses

o princípio vital

 

(FARES, 2019, p. 9)

 

A preocupação mais pertinente ao buscar-se uma leitura teopoética na direção do acolhimento do diálogo interfé, é justamente o perigo da apropriação do discurso dos oprimidos impondo-lhes outro, colonizador, num ato de extrema violência simbólica[7]. Dizer que o deus dos macuxi é o deus cristão e que simplesmente cristãos missionários têm experiências diferentes com a mesma entidade, pode ser profundamente problemático e essa conclusão será evitada nesta leitura do texto de Hebreus em articulação com a obra de Esbell. Isso não impede o diálogo, apenas o torna mais complexo, uma vez que existe um gesto na direção das pessoas cristãs e do cristianismo institucional na obra desse artista. Jaider Esbell evidencia a destinação de sua obra aos não-indígenas, seu o artivismo não é difuso, tem destinação evidente.

Esse gesto é, por si só, um ato de resistência que pode ser tomado como profético enquanto aponta para as origens orais e tribais da fé de Abraão, que é justamente de onde veio o salvador dos cristãos. Quando Jaider Esbell aponta para Makunaima, este acaba que aponta de volta para Abraão, como pai mítico judaico cristão e islâmico. Mas quando Esbell afirma que o cristianismo deve olhar para dentro de si mesmo, ele aponta claramente para Cristo em sua obra. Há pelo menos dois acessos a essa compreensão na obra de Jaider Esbell, o viés da devolução mítica que Makunaima oferece como projeto decolonial, e o viés ecumênico da comunhão entre filhos de diferentes tradições sob um mesmo céu. Isso acontece quando simbolicamente aponta para as grandes religiões monoteístas planetárias, e estabelece um vínculo entre os sistemas simbólicos amazônicos e os sistemas simbólicos que se deixaram pautar pelo androcentrismo, pelo exclusivismo e pela colonialidade.

E foi exatamente o que aconteceu, ao estar alçado ao topo da visibilidade meu pequeno avô vai ao encontro do trovão, vai ao centro do fogo e chega mesmo a tomar chá com Deuses e Demônios. Makunaima foi ser sua jornada (ESBELL, 2018, p. 18).

Ao ir ao encontro ao seu ancestral mítico, Esbell também se reconecta a uma ancestralidade coletiva e faz esse convite com sua obra. Em seu artigo Makunaima, meu avô em mim! (2018), o autor recupera a dimensão mítica da ancestralidade que é comum a muitas tradições firmadas na oralidade, o judaísmo e o cristianismo incluídos.

Sobre essa questão de uma ancestralidade presente nos relatos bíblicos, Romer, Macchi e Nihan refletem da seguinte forma:

“O Gênesis é uma coleção de lendas”: [...] Esse slogan implica, entre outras coisas, que os “autores” das fontes do Pentateuco não são os inventores dos materiais que relatam, mas são antes de tudo colecionadores e editores de relatos populares, de lendas e tradições orais [...] (ROMER et al, 2010, p. 91) 

Jaider Esbell recupera a tradição oral em diálogo com os escritos dos não-indígenas sobre seu avô, que é tudo isso e mais. Makunaima não é o que se diz sobre ele, mas também é, age como prisma que espalha infinitas cores a partir da luz branca incidida sobre ele, ele também é escuridão. Os “ismos” aos quais Jaider Esbell se refere como impositivos de suas próprias “luzes” sobre Makunaima, têm como o principal deles o que os povos indígenas brasileiros conheceram amargamente como cristianismo. Não cabe aqui questionar de que tipo ou rótulo institucional é esse cristianismo colonial, as fronteiras entre as instituições e o povo que as constitui deve ser pensado a partir da noção de biopoder[8] de Michel Foucault (1926-1984). No contexto da expressão coletiva do cristianismo como religião de Estado, especialmente quando se trata de períodos históricos de colonização da África, Américas e Ásia, qualquer relativização baseada nas posturas de indivíduos ou grupos internos, pode servir apenas ao esvaziamento da percepção de disputas simbólicas que, em última instância, sempre estiveram de uma maneira ou outra sujeitas e aliadas a interesses coloniais.

Não é exagero, portanto, associar a sobrevivência de versões líquidas desse cristianismo de Estado em estruturas necropolíticas[9] através de alianças e pactos que se movimentam de maneira orgânica e que, a uma historiografia linear ou tradicional, pareceriam improváveis ou absurdas. Por exemplo, a cooperação de católicos conservadores e evangélicos, judeus, espíritas, pentecostais ou neopentecostais de orientação liberal ou mesmo, neoliberal, em agendas agressivas de extrema-direita contra movimentos sociais (ORO, 2022, p.166). Isso torna impossível determinar uma polarização, o que ocorre é muito mais uma agência de interesses comuns completamente não linear. Contudo, isso também parece ser contido na obra de Jaider Esbell sobre a resistência indígena, como Rafael Fares descreve em seu poema, todos comem e são comidos, até os que pensam que não. Há uma sobreposição de mundos, nem todos eles em harmonia em sua coexistência. Sua “profecia” artivista parece buscar a agenciado sujeito para alcançar a condição exata de transpor e fazer transpor mundos (ESBELL. 2018. p.23), na obra de Esbell “o ponto de vista está no corpo”. “Em suma, não há pontos de vista sobre as coisas; as coisas e os seres é que são os pontos de vista. Se não há entidade sem identidade, não há multiplicidade sem perspectivismo” (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 98).

Aparentemente, assim como Jaider Esbell, a pessoa autora de Hebreus tentou desarticular narrativas consolidadas pela tradição, neste caso, sobre a legitimidade de um sacerdócio de uma linhagem que não fosse levítica recuperando Abraão, patriarca e matriarca mítico que, assim como Makunaima, é ao mesmo tempo pai e mãe, por ter em si potencialmente gerado a Levi em completude, bem como toda sua descendência[10] (v.10). Entende-se que Abraão, nesse verso, é representado simultaneamente como personagem histórico e mítico, ocupando um ligar simbólico que aparentemente absorve o feminino. Pode ser que isso sirva como perpetuação e reforço de uma noção de centralidade e autossuficiência do masculino em relação ao feminino, mas também abre a possibilidade de leitura do seu papel de símbolo como nem uma coisa nem outra, ou as duas simultaneamente.

Ensaio escrever para socializar um pouco o socializável da minha relação com meu avô, esse que não é gente exatamente para não sê-lo. Portanto Makunaima é meu avô e o gênero, a forma e o conteúdo têm seus lugares de ação como vamos citar sempre, pois são fundamentais, mas é preciso ir além. Makunaima está além e prova isso ao transformar-se continuamente. Não, ele não é transformista. Vamos dissociar aos poucos o existir-atuação de Makunaima dos efeitos cognitivos do gênero em nossas mentes. Sim, nas mentes (ESBELL, 2018, p.23).

O sacerdócio de Makunaima, patriarca/matriarca dos povos amazônicos, articula-se de maneira ainda mais profunda em Jaider Esbell como símbolo, ele é masculino e impotente, mortal, material, criança, mas também é pleno, guerreiro, fêmea, gerador e difuso em toda Criação (ESBELL, 2018, p.23, 36).  

Uma criança que ainda mama no peito é como Makunaima aparece em algumas cenas. Em outros momentos ele aparece forte e violento. Todas essas aparições nos convidam a pensar os extremos nas coisas impossíveis, fora de qualquer lógica razoável para o mundo normal. Como pode alguém ou algo tão forte e poderoso como Makunaima se deixar parecer tão frágil e vulnerável como um bebê de colo? Tais questões aparecem tão fora de qualquer sentido como a tal reinvindicação de parentesco direto a que me lanço e faço saber oficialmente (?). Eis portanto o componente mais instigante nos fazeres ou afazeres de Makunaima. Como isso pode acontecer dessa maneira? (ESBELL, 2018, p. 39)

A dimensão mítica de Makunaima remete ao que ainda soa como eco distante nas narrativas orais e escritas do Gênesis, que são recuperadas no Novo Testamento. Uma memória ancestral de quem se filia a Abraão e reconhece o sacerdócio de Makunaima, um sacerdócio de outra ordem que não presta o serviço religioso pela mesma aliança que os descendentes do pai mítico Abraão. Um outro sacerdócio é sempre regido por outras leis (v.12).

Foi o Deus maior, que é a Natureza maior, que por meio da cutia mostrou a Makunaima a grande árvore de todas as frutas e sementes. Não, não era apenas uma, mas, simbolicamente, ficamos com a maior, a mais imponente, a primeira. A árvore do bem, que ao tombar levou ao chão também a árvore dos mistérios, a árvore dos outros seres, a árvore proibida que ainda hoje existe o tronco ao lado da árvore da vida derrubada por Makunaima. (ESBELL, 2018, p.17)

Jaider Esbell, como artivista indígena, xamã e profeta, vai ao outro lado e retorna com uma ação de resistência contra-missonária. Ao mergulhar profundamente em sua ancestralidade, recuperou elementos da oralidade que ainda ecoam abafadas na religiosidade judaico-cristã e aponta Cristo para os cristãos e a positivistas. Na obra de Esbell, Makunaima age como espelho e prisma. Reage e resiste à lógica imperial das estradas imperiais que se espalham por fibra ótica e satélites, e, finalmente, transforma essa via em uma Via Pulchritudinis, um Caminho da Beleza onde o fluxo é em mão dupla.

Meu avô vai devolver tudo; vai devolver o porquê de todas as histórias, a simplicidade da vida. Makunaima vai tirar de si os olhos penosos do mundo e direcioná-los para a natureza. Makunaima se volta em guerreiro do inconformismo como unicamente é e vai mostrar aos donos de cada coisa a alma-espírito de cada coisa. Voltamos a entrar pelas mesmas portas abertas, as veias abertas no mundo dos desconhecidos. Mais curiosidade para chamar à memória, mais movimento para ir além. Mais um tempo para novos olhares. (ESBELL, 2018, p.18)

O discurso decolonial de Jaider Esbell passa a assumir um aspecto revolucionário na medida em que se assume religioso, no sentido mais amplo da palavra. “Devolver tudo” pode significar aqui, devolver as histórias sagradas em sua simplicidade, em sua oralidade, em sua relação imediata com a vida e com a natureza. Retornar pelas veias abertas da colonização, da evangelização, da assimilação e do genocídio, significa também dar ensejo uma mudança de mentalidade, um arrependimento, uma conversão.  Caracterizando-se como um “mensageiro da Paz”, o artista performa um ato simultaneamente xamânico e sacerdotal ao performar o ritual de ligação entre esses diferentes mundos com seu próprio corpo, com sua presença nos espaços de poder simbólico desses mundos em sobreposição. 

4. Por uma espiritualidade não violenta

Melquisedeque era Rei de Salém, que quer dizer Rei da Paz (v.1), uma camada de simbolismo importante a ser agregada a qualquer leitura do texto de Hebreus. Mas esse “Rei da Paz” não foge dos conflitos, assim como Makunaima não é só um preguiçoso deitado em sua rede. A reflexão, a recepção do que reflete a obra de Jaider Esbell para o mundo não-indígena e cristão, passa pela firmeza corajosa da não-violência, um olhar para dentro na própria história para um “futuro ancestral” (KRENAK, 2022), como aponta Ailton Krenak (1953). Há no cristianismo ainda resistente, um depósito de uma radicalidade livre e comprometida com a não violência, um cristianismo que não se deixou encastelar em suas criptas eletrônicas, que ainda não é encarquilhado sobre si mesmo, mas que pela Graça, não tem medo de se perder pelos outros (Cf. Mateus 10.39; 25.45 e João 15.13). É a essa reserva de sensibilidade a que parece ser remetida a obra de Jaider Esbell a quem ainda é capaz de ficar em silêncio e receber, “diante do mistério, a graça” (ZWETSCH, 2023, p. 113), a quem ousa e consegue “comer” sua poesia com os sentidos de uma espiritualidade da paz.

Quando lemos a Bíblia ecumenicamente, no amplo sentido da palavra, estamos violando os textos? Acho que não. Já os antigos intérpretes como Philo de Alexandria Clemens de Alexandria e Orígenes liam e interpretavam a Bíblia não só literalmente. Orígenes falou em três sentidos que os textos bíblicos têm: literal, alegórico e espiritual. Textos bíblicos são fontes de sabedoria e de fé, os mitos indígenas também e precisam ser traduzidos, criativamente, para a nossa vida atual. Cada época descobre uma leitura bíblica diferente, perspectivas às vezes despercebidas ou, por causa da pertença a uma certa classe, propositalmente ignoradas. Descobriu-se a importância dos pobres na Bíblia, uma hermenêutica feminista, psicanalítica e ecológica. Uma outra maneira de ler a Bíblia acontece através de pessoas que entram em contato com culturas diferentes e começam a relativizar a sua própria cultura. Eles lêem a Bíblia numa perspectiva étnico-cultural. Esta perspectiva ajuda no diálogo inter-religioso. É uma tarefa enriquecedora. (SASS, 2009, p. 2)

Ao se confrontar com o discurso de resistência do artivismo indígena, o cristianismo, como religião global vinculada ao poder econômico e às armas de destruição de potências econômicas, é atingido com provocações que têm o mesmo poder de erodir suas muralhas institucionais que um dia, quando era uma religião de oprimidos, utilizou para erodir o imponente Império Romano. O caráter profético de uma obra como a de Esbell, que aponta para a violência da evangelização que promove o genocídio cultural de povos inteiros, tem os elementos de anúncio e denúncia que caracterizam uma mensagem evangélica libertadora. 

“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Por isso, permaneçam firmes e não se submetam, de novo, a jugo de escravidão” (Cf. Gálatas 5.1). Mas não parece que foi bem isso que aconteceu com o cristianismo. A sujeição de pessoas cristãs mundo a fora a modelos de exploração do trabalho, controle da vida privada, autoritarismo, violência de gênero, segregação, destruição do meio ambiente e alienação da própria condição de pessoas oprimidas, demonstra o jugo pesado colocado sobre os ombros de toda uma civilização. O artivismo indígena parece pretender apontar para a espiritualidade cristã com particular interesse e nesse sentido, parece apontar para dentro do próprio cristianismo com a asserção socrática, “conhece-te a ti mesmo”. 

Enquanto a obra de Jaider Esbell tornava-se mundialmente famosa, ela parecia um convite, um canto de sereia para um assombro que residiria do outro lado da tela, a morada do Ganz Andere, o totalmente outro. Pode-se dizer que estar diante de suas obras causou comoção incomum nos circuitos de arte em geral, percebia-se uma novidade em sua abordagem de suportes tradicionais, seu discurso sobre a obra impunha-se ativa para além do medo da rotulação de arte ideológica. Suas obras que presentificavam o Sagrado como terrível e indomável, também pareciam ser respostas às perguntas que modernistas pareciam ter feito cem anos antes. Jaider Esbell anunciava seu caminho em direção à Casa do Trovão, morada ancestral do povo macuxi (RR) onde se revela o numinoso, Tremendum et Fascinans. O terrível é uma das categorias do sagrado que está presente em toda obra de Esbell e que também pode ser depreendida de noções escatológicas da tradição sagrada de seu povo.

O gesto do Esbell de visitar o Vaticano em 2018, acendeu um alarme. Ele performou o caminho inverso da lógica colonial, e foi ao coração simbólico do mundo ocidental, da fé que foi usada como justificativa para a expansão colonial e o holocausto do seu povo. Esbell encarnou um missionário da decolonialidade, parecia que ele entendeu e agiu sobre o “poder pastoral” do qual falava Foucault (FOUCAULT, 2008, p. 174), um poder que age sobre os corpos através de mecanismos de controle que ainda não conheceram paralelo. A obra de Esbell parece tentar estabelecer um diálogo com a Teologia em seu próprio terreno, mas sem se sujeitar a sua Sistemática, ela parece ser a busca de se estabelecer um diálogo onde esconde-se o verdadeiro poder da teologia, a rede simbólica que constitui a religião. 

Essa peregrinação parece fazer todo sentido para a obra de Esbell, ele saiu do Pilar da Criação que é o centro cósmico representado pelo monte Roraima e foi até a colina do Vaticano em Roma, presentificando o conflito entre esses mundos sobrepostos. Possivelmente, Jaider Esbell tentou demonstrar que é possível transitar por esse caminho em diferentes sentidos, o artivismo indígena contemporâneo também faz uso da perspectiva da decolonialidade para ser percebido através dos vários circuitos das culturas não-indígenas. 

Assim, sua obra se destaca porque também expressa a complexidade das relações entre diferentes discursos, disputas de narrativas e cosmovisões, aparentemente estendendo esse conceito para além das fronteiras tradicionalmente estabelecidas entre a arte, a cultura, os conhecimentos acadêmicos e as diferentes espiritualidades indígenas ou não indígenas. Jaider Esbell articulou essas noções em sua obra com o conceito de “sobreposição de mundos”, partindo das cosmogonias Macuxi (RR), mas expressando-se de maneira múltipla em meios contemporâneos. Ele rompeu com a linha imaginária que delimitaria binarismos naturalizados como arte e ativismo, ocidental e oriental, norte e sul, indígena ou cristão.

Reconhecer esse trânsito é um convite a uma metodologia que possibilite uma abordagem hermenêutica teopoética capaz de ressignificar traumas e narratividades adoecidas que insistem em se repetir a partir da presunção de vias de mão única. Um caminho da beleza, uma Via Pulchritudinis, como propõe esse trabalho, é necessariamente um caminho de trânsito livre, mas também um caminho em que, pelo bem da Criação e partindo de uma ética do cuidado, silencie da ponta acostumada a emitir, proferir, professar e colonizar, para que outras vozes proféticas de ordens sacerdotais, quem sabe tão forasteiras como a do mítico Melquisedeque, se manifestem. Ao refletir-se sobre obras visuais, literárias ou de outras modalidades poéticas que vêm sendo remetidas ao mundo não-indígena, ocupado demais em proferir discursos sobre as coisas e ignorando o que lhe é dito, profetizado, constata-se que é o momento de silenciar e reaprender a sonhar, para que se possa alcançar a Metanoia que o planeta geme em angústia por finalmente se manifestar. 

5. À guisa de conclusão: ostra feliz não faz pérola. [11]

Ao trazer as questões planetárias contemporâneas para o topo da pauta de um diálogo intercultural horizontalizado, que não nega tensões, incoerências e contradições implicadas na simultaneidade, aponta-se para a urgência de uma arte da “escutatória”. Daí compreender-se que a obra de Esbell, bem como de outras e outros artivistas indígenas, serem indícios da necessidade de articulação plena entre saberes e tradições como condição para a construção de pontes, novas narrativas, para a cura das feridas que ameaçam a continuidade da vida das diferentes humanidades. Quando a arte contemporânea indígena fala diretamente à rede de significados que estrutura as tradições religiosas judaico-cristãs, aparentemente, testemunha-se um gesto que se sobrepõe a interesses imperiais e a esperanças positivistas da salvação pela técnica, ou pelo dinheiro. 

Não há como saber o resultado de um desbloqueio das estradas da fé a vozes proféticas de outras alianças, de outras tradições. Por isso, o medo é até passível de explicação, o pânico moral que arrasta multidões como rebanhos a cruzadas evangelísticas e a discursos de ódio tem nisso o motivo. Onde falta fé sempre costuma sobrar violência, mas o apelo que parece vir de todas as partes é a um ato de fé e coragem de ouvir, que se exercite uma imaginação dialogal[12] em espírito de honestidade e entrega. Talvez, talvez mesmo, a mensagem do anjo seja “não tenha medo!”. 

REFERÊNCIAS

34ª BIENAL Internacional de São Paulo. São Paulo: Fundação Bienal, 2020. Exposição realizada no período de 4 set. 2020 a 5 dez. 2021. Disponível em: http://34.bienal.org.br/exposicoes/7311 . Acesso em: 15 jul. 2021. Exposição realizada no período de 04 set. 2020 a 05 dez. 2021.

53° Festival de Inverno da UFMG, Conferência do 7° dia, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yvstH3khEOM&t=5804s&ab_channel=CulturaUFMG Acesso em 21.04.2023.

ALVES, Ruben. Ostra feliz não faz pérola. 2ª ed. São Paulo: Planeta, 2008.

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Notas

[1] Cf. Marcos 8.24b - Todas as interações com textos bíblicos neste trabalho, usarão retiradas da versão Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada no Brasil. 3ª Ed. (Nova Almeida Atualizada).

[2] Kwok Pui-Lan (1952), Teóloga Feminista Anglicana, propõe o conceito “interfé” para os diálogos entre as pessoas com suas crenças e não entre religiões em si. 

[3] Referência ao livro de mesmo nome de autoria de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Rocco, 1996

[4] Ao longo de sua trajetória de artivista, Jaider Esbell optou por referir a Makunaima com a prosódia tradicional, diferenciando-se da pronúncia popularizada de Macunaíma, pertencente à personagem de Mario de Andrade (1893-1945). Ele se expressou sobre esse tema em específico em sua conferência no 7° dia do 53° Festival de Inverno da UFMG, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yvstH3khEOM&t=5804s&ab_channel=CulturaUFMG

[5] Em Metodologia do Novo Testamento (2005), expressões como: Compreensão correta, maneira correta, leitura correta, exegese correta, tradução correta e outras variações, aparentemente, explicitam uma noção de “correção” em Egger que exprime muito mais a ideia de uma coerência metodológica do que uma ortodoxia fundamentalista. Mesmo assim, como a referência adotada é uma tradução, permanece a dúvida se o extenso uso dessa palavra na obra seja fruto de um maneirismo do autor ou do tradutor.

[6] No original: “The semantic universe defined as the set of the systems of values can be apprehended as meaningful only if it is articulated or narrativized. Thus, any discourse presupposes a semantic universe hypothetically made up of the totality of significations, postulated as such prior to its articulation, and which it actualizes in part. This microsemantic universe, at the fundamental level, articulates elementary axiological structures such as life/death (individual universe) and nature/ culture (collective universe). These basic structures situated at the deep semantic level are considered as ad hoc universals that serve as starting points for the analysis of semantic universes, be they individual or collective.”  

[7] A violência simbólica se dá pelo exercício, para a dominação, da força simbólica entendida como "uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, diretamente [...] sem qualquer coação física, mas [...] só atua com o apoio de predisposições colocadas [...] na zona mais profunda dos corpos. […] Encontra suas condições de possibilidade e sua contrapartida econômica [...] no imenso trabalho prévio que é necessário para operar uma transformação duradoura dos corpos e produzir as disposições permanentes que ela desencadeia e desperta; ação transformadora ainda mais poderosa por se exercer, nos aspectos mais essenciais, de maneira invisível e insidiosa, através da insensível familiarização com um mundo físico simbolicamente estruturado e da experiência precoce e prolongada de interações permeadas pelas estruturas de dominação." (BOURDIEU, 2012, p. 50-51).

[8] Nota: Biopoder é uma forma de poder que busca criar um modo de vida em determinada população a partir de corpos economicamente ativos e politicamente dóceis. (FOUCAULT, 1978, p. 139).

[9] Necropolítica, Academia Brasileira de Letras: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/necropolitica#:~:text=%E2%80%9C'Necropol%C3%ADtica%20%C3%A9%20a%20capacidade%20de,morrer%2C%20%C3%A9%20fazer%20morrer%20tamb%C3%A9m. Acesso em 18/06/2023

[10] Ignora-se aqui, propositalmente, e, pelo bem de uma análise semântica, qualquer discussão sobre possíveis noções primitivas quanto a biologia reprodutiva ou antropologia patriarcal.

[11] ALVES, 2008.

[12] Nota: The term dialogical imagination describes the process of creative hernieneutics in Asia. It attempts to convey the complexities, the multidimensional linkages, and the different levels of meaning that underlie our present task of relating the Bible to Asia. This task is dialogical, for it involves ongoing conversation among different religious and cultural traditions Dialogical imagination attempts to bridge the gaps of time and space, to create new hori zons, and to connect the disparate elements of our lives into a meaningful whole. (PUI-LAN, 2005. P. 13)