A V CONFERÊNCIA DE APARECIDA E A TRADIÇÃO DA IGREJA LATINO-AMERICANA: AVANÇAR OU RETROCEDER

A V CONFERÊNCIA DE APARECIDA E A TRADIÇÃO DA IGREJA LATINO-AMERICANA:
AVANÇAR OU RETROCEDER

Prof. Dr. Fr. Lisaneos Prates

 

RESUMO

A V Conferência de Aparecida é um momento eclesial marcante no caminhar da Igreja na América Latina no horizonte do eixo Medellín-Puebla-Santo Domingo, por ser estas as três Conferências do Celam que marcaram o período pós-conciliar na tentativa de aplicar a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II no contexto eclesial latino-americano. A nossa reflexão quer ter presente a memória histórica da Igreja latino-americana como referencial para uma leitura, compreensão e interpretação das propostas do Documento de Participação. A chave de leitura será orientada a partir da expressão avançar-retroceder como mediação para se traçar um paralelo entre o conteúdo do DP e a tradição da Igreja na América Latina.

Palavras-Chave: eclesiologia do Vaticano II, eixo Medellín-Puebla-Santo Domingo, Igreja discípula e missionária.

 

ABSTRACT

The V Aparecida Conference is a significant ecclesial moment in the Church track on the horizon towards Medellín-Puebla-Santo Domingo line, being the three Celam Conferences that marked the post-conciliar period attempting to apply the renewal proposal by the Vatican II Council in the Latin American ecclesial context. Our reflection want to have the present historic memory of the Latin American Church as referential for a reading, comprehension and interpretation of the proposals of the Document of Participation. The reading key will be guided from the expression to advance-retrocede as mediation to trace a parallel enters the content of the DP and the tradition of the Church in Latin America.

Key words: ecclesiology the Vatican II, Medellín-Puebla-Santo Domingo line, Church disciple and missionary.


INTRODUÇÃO

A concepção de Igreja que aparece no Documento de Participação (DP) à V Conferência de Aparecida deve ser submetida de forma criteriosa ao que têm sido as constantes eclesiais e eclesiológicas do caminhar da Igreja na extensão do eixo histórico Medellín-Puebla-Santo Domingo. Neste sentido, a nossa reflexão será conduzida por uma linha que pretende evidenciar os avanços alcançados no esboço eclesial e eclesiológico preconizados pelo DP. Uma leitura criteriosa do DP não poderia, também, deixar de assinalar alguns elementos eclesiológicos que concorrem para um retroceder na maneira de se conceber a Igreja no contexto latino-americano e caribenho. O referencial catalisador da identidade da eclesiologia latino-americana e que, portanto, serve de termômetro para medir o avançar ou retroceder de tal concepção é a denominada tradição eclesial que foi sendo gestada ao longo das quatro décadas do período pós-conciliar. Sendo assim, o eixo eclesial derivado das três Conferências anteriores Medellín, Puebla e Santo Domingo, se configura como sendo a transparência latino-americana do rosto da Igreja preconizado pela eclesiologia do Concílio Vaticano II. Isto significa asseverar que o binômio hermenêutico avançar ou retroceder aplicado à eclesiologia do DP tem como divisor de águas no âmbito eclesiológico o próprio Concílio Vaticano II.

Ao longo da nossa reflexão vamos utilizar a expressão tradição da Igreja latino-americana como sendo o jeito de ser Igreja no contexto histórico da América Latina herdado da eclesiologia inspirada e inspiradora do Vaticano II. Assim, pensamos que dita tradição é uma memória eclesial-histórica irrenunciável para se poder desenhar a atual identidade da nossa Igreja. Elegemos a expressão avançar ou retroceder para guiar a nossa reflexão por sua acepção propriamente alternativa, já que, o período pós-conciliar foi e continua sendo marcado por tendências, dentro e fora da Igreja, que ora avançam ora retrocedem na maneira de concebê-la.

O Santuário de Nossa Senhora Aparecida – lugar e tempo onde será realizada a V Conferência do Celam, nos faz pensar que os grandes templos ou santuários de peregrinação da Igreja católica concentram um importante significado religioso e simbólico. São lugares e tempos onde o povo mais simples e pobre acorre para buscar alento diante dos grandes desafios de sua vida. É neste espaço e tempo simbólico que a Igreja não pode perder de vista os grandes avanços alcançados pela sua consciência evangelizadora, a qual agora deve ser reatualizada pelo dinamismo do Espírito Santo que a faz sempre discípula e missionária capaz de celebrar, instaurar e esperar o Reino de Deus na mediação da fé, da caridade e da esperança. [1]

 

1. UMA IGREJA HERDEIRA DA ECLESIOLOGIA DO VATICANO II

O jeito de ser Igreja no Continente Latino-Americano é derivado da eclesiologia postulada pelo Concílio Vaticano II, sobretudo, na mediação da Lumen Gentium (LG) e da Gaudium et Spes (GS). A LG redefiniu a identidade da Igreja a partir de sua organicidade interna para afirmar como se deve entendê-la desde dentro de sua realidade eclesial – dimensão ad intra. Enfocada desde si mesma, a Igreja é a extensão diferenciada do mistério trinitário, vale dizer, como corpo místico ela deve ser reflexo da presença do Deus-Pai, do Filho-Irmão e do Espírito-Santo-de-adoção-filial [2]. Referenciada ao Pai, ela é ecclesia mater que transparece a presença maternal de Deus que abraça terna e carinhosamente o seu povo, preferencialmente, os mais abandonados. Na mediação da sua densidade sacramental ela é sinal do amor incondicional paterno-maternal de Deus. É a Igreja amorosa que atrai e reúne os seus filhos/as para serem irmãos/ãs na comunhão da grande família do Deus que é Pai de todos. Assim como o Deus-Pai é o princípio sem princípio gerador da unidade e comunhão na dimensão ad intra do mistério trinitário, a Igreja deve ser o desdobramento sacramental que comunica ao mundo tal comunhão una. A unidade trinitária não se confunde com nenhum tipo de unicidade obtusa ou fechada em si mesma, nem com nenhum tipo de uniformidade padronizadora das formas de atuar e de ser. A beleza da unidade e da comunhão trinitária se revela na comunicação histórica e salvífico-libertadora mediada através da singularidade de cada pessoa de tal mistério. Assim sendo, a Igreja jamais poderá ser uniaxial ou unicista, uniforme ou uniformitarista, mas, Una, ou seja, vinculada e sempre conformada umbilicalmente à unidade trinitária.

No seu processo evolutivo de identificação com a identidade do Filho-Irmão, a Igreja é lugar-tempo de reunião dos filhos/as adotados pelo Deus-Pai na mediação histórica da filiação divina de Jesus Cristo. É a dignidade de filhos/as adotivos o critério de igualdade que caracteriza a Igreja de unidade e de comunhão. O contrário da dignidade filial-fraterna é a escravidão causadora da desigualdade que sempre rompe com a unidade e a comunhão. Assim como o Filho-Irmão é o apelo à unidade-comunhão encarnada na história e comunicada pelo Deus-Pai, a Igreja é o prolongamento de tal comunicação. Sua missão é conduzir a humanidade ao êxodo pascal que passa pela superação de todas as formas desumanas de escravidão à verdadeira liberdade de filhos/as de Deus. Por isso, a Igreja é o sacramento universal salvífico-libertador que condensa a palavra e os gestos de Jesus Cristo a serviço da superação de todas as formas de escravidão que desfigura a condição filial-adotiva do ser humano. Do mistério do Verbo encarnado e do mistério pascal a Igreja nasceu e sempre renasce o ser humano na direção da transfiguração. Nasceu, porque, encarnação e páscoa de Jesus Cristo são os dois princípios cristológicos que marcaram, num dado momento histórico, o surgimento da Igreja. E, renasce, pois, encarnação e páscoa de Jesus Cristo não são mistérios anestesiados ou amortecidos por um passado longínquo, mas, realidades mistéricas que sempre renovam e tornam atual o mistério trinitário no seio da Igreja. Esta sempre deve percorrer um constante processo de ressurgimento das entranhas do insondável mistério trinitário à medida que o mistério do Filho-Irmão seja continuamente transfigurado no seu rosto eclesial. É a Igreja sempre inspirada pelo dinamismo da transfiguração de Jesus Cristo e, que portanto, não se deixa levar por um tipo de configuração fixista. Ao não se bitolar por nenhum tipo de fixidez na sua configuração, a Igreja em contínua busca de identificação com o Filho-Irmão, está constantemente aberta às novas formas de reconfiguração ao seu jeito de atuar e de ser. O caráter de catolicidade deste horizonte eclesial-eclesiológico está em sintonia com a identidade Católica da Igreja, a qual é a terceira nota dinamizadora e sustentadora de sua caminhada.

É a pessoa do Espírito Santo o agente que ao longo da história vai inspirando a Igreja e conscientizando-a sobre as urgências de sua permanente reconfiguração à transfiguração do jeito de atuar e ser do Filho-Irmão. Urge, assim, que a experiência eclesial seja profundamente pneumática, vale dizer, inspirada e derivada da ação-unção do Espírito Santo. Na eclesiologia católica o Espírito Santo é a pessoa divina que mantém viva no coração da Igreja a sempre memória perigosa do Filho-Irmão. Sendo Este o conteúdo propriamente da memória, o que o Espírito Santo faz é inspirar a Igreja para que ela jamais se desvincule do Verbo revelador por excelência do desígnio do Deus-Pai. O Espírito Santo também é inspirador do sempre compromisso da Igreja com o êxodo libertador-salvífico que deve caracterizar o seu jeito de atuar e ser no mundo através do paradigma pascal. É o Espírito Santo que sempre quebra a rigidez institucional e jurisdicista que teima em ameaçar as insondáveis experiências pneumáticas. São estas que não permitem um envelhecimento precoce e esclerosado da Igreja, ao renovar sua capacidade amiúde renovada de responder aos novos desafios dos diversos contextos históricos. A ação do Espírito Santo acontece, portanto, na extensão que vai da unidade fontal cujo princípio é o Deus-Pai, o qual confere unidade à Igreja. Estende-se e perpassa o conteúdo da memória perigosa que é o mistério do jeito de atuar e ser do Filho-Irmão. E vai se transfigurando no mesmo rosto da Igreja, sempre chamada a superar suas manchas e rugas históricas para que a memória, que não é outra senão o próprio Santo Espírito resplandecente na sua face. Esta ação genuína do Espírito Santo, o reatualizador da memória, faz com que a Igreja não caia num tipo de amnésia, mas continue sendo sacramento libertador de salvação no contexto histórico atual. A Igreja Santa, segunda nota de sua identidade, recebe e ao mesmo tempo nutre e expressa sua santidade através do jeito de atuar e de ser do Espírito Santo.

A Gaudium et Spes é o outro documento conciliar inspirador e propulsor da renovação eclesial e eclesiológica indicada pelo Vaticano II. Podemos asseverar que aqui a Igreja é pensada a partir de sua ação na história –, quer dizer na sua dimensão ad extra. Seguindo o raciocínio da analogia que estamos esboçando entre o mistério trinitário e a Igreja, a dimensão ad extra referenciada à Trindade, indica para as ações eclesiais endereçadas para o contexto histórico-mundano numa perspectiva libertadora-salvífica. Assim como Deus no seu insondável mistério trinitário saiu de si para visitar e libertar ao ser humano situado na histórica e no mundo, não outro deve ser o caminhar da Igreja. Esta não é uma mera organização eclesiástica, jurídica, clerical que montada num tipo de poder concentrador de seus interesses parte para juízos apriorísticos sobre a história e o mundo. Assim como o Deus-Pai amou o mundo e, por este amor enviou o Filho-Irmão, também a Igreja é convocada a amar o mundo e deixar-se constantemente ser enviada para servi-lo. Aqui se dá a superação da Igreja concebida como um organismo social perfeito em contraposição à imperfeição da organização social e mundana. A história é o palco onde a humanidade vive suas contradições e seus dramas, suas idas e vindas, suas alegrias e tristezas, esperanças e desesperanças, consolo e desolação, justiça e injustiça, riqueza de uns e pobreza da maioria, numa expressão teológica: graça e pecado.

A ambigüidade da realidade histórico-mundana implica num redimensionamento da forma de se conceber a Igreja e sua presença no contexto histórico. Pensamos que a quarta nota apostólica é o vetor indicativo da nova forma de apostolicidade-missionária que deve agora caracterizar a missão da Igreja na história e no mundo. Certamente que esta nova postura eclesial tem no seu transfundo uma nova metodologia enraizada na realidade histórica e mundana. Tudo o que implica a forma social, política, econômica e religiosa-cultural na qual está organizada a sociedade denominada moderna dos anos sessenta, servirá de matéria prima para que a Igreja possa repensar sua ação missionária em tal momento histórico. A Igreja sente a necessidade premente de colocar os óculos amorosos do Deus-Pai para olhar o mundo, sobretudo os pobres e, ser sacramento de salvação, já que, fora da história não existe salvação [3]. E salvar passa a significar devolver ao ser humano situado na história e no mundo sua dignidade humana. A salvação é humanizadora e, destarte, tudo o que é desumano concorre para a frustração do projeto amoroso do Deus-Pai.

Como a história e o mundo não são uniformes, mas, diversificados, os apelos de transformação são também diversos conforme a diversidade da realidade. Isto quer indicar que a eficácia da ação transformadora da Igreja passa pelo reconhecimento de sua identidade encarnada em cada igreja particular. Isto implica numa concepção eclesial radicada na tipologia eclesiológica das igrejas diocesanas ou igrejas particulares como princípio real e concreto de unidade e não de uniformidade. Sendo assim, a totalidade plena da Igreja acontece em cada realidade concreta onde a Palavra de Deus vinculada à Eucaristia reúne o seu povo para assumir a fé, a esperança e a caridade sob a orientação dos seus pastores inspirados pelo sempre renovado dinamismo do Espírito Santo. Se no mistério trinitário encontramos uma fluência dinâmica que vai desde a sua dimensão "una" na direção da pluralidade "trina" e vice-versa, da pluralidade à unidade, também a Igreja deverá ser dinamizada pelo sopro dinâmico comunicado e inspirado pelo Espírito Santo. Esses dois pólos eclesiológicos – unidade-pluralidade – devem concorrer para o devido equilíbrio no sempre processo de reconfiguração eclesial e na forma de se conceber a Igreja [4]. Isto é assim, devido ao fato de que seu engajamento e compromisso com a transformação da história e do mundo dependerão da sua capacidade de ir ao encontro de cada situação concreta da própria história e do mundo. Evidentemente, que a ação transformadora da Igreja não é algo mágico, mas, mediada por circunstâncias sociais, políticas, econômicas, religiosas e culturais na diversidade dos mais variados contextos.

 

2. O EIXO ECLESIAL MEDELLÍN-PUEBLA-SANTO DOMINGO

A Igreja latino-americana e caribenha configurada no período anterior ao Concílio Vaticano II se caracterizava como sendo a mera reprodução eclesial e eclesiológica do modelo de Igreja forjado pelo sistema de cristandade medieval que se estendeu desde o século IV ao século XX. São, portanto, dezesseis séculos de um modelo monolítico, euro-cultural e euro-cêntrico reproduzido em todo o mundo ocidental católico. Este foi o modelo eclesial transplantado para o continente latino-americano nos moldes do expansionismo característico do sistema de cristandade medieval. A Igreja latino-americano ao longo desse período histórico, salvaguardando as exceções eclesiais alternativas, sempre se espelhou na Igreja européia, sendo assim, reflexo de tal modelo de Igreja. Neste contexto latino-americano a Igreja foi uma instituição postiça por não inculturar-se na complexa realidade histórico-cultural e religiosa dos povos autóctones. Esta primeira etapa eclesial durou até às vésperas do giro eclesial e eclesiológico implementado pelo Vaticano II, no qual são criadas novas possibilidades de renovação e reconfiguração dos modelos de Igreja.

No contexto latino-americano a I Conferência do Rio de Janeiro (1955), já dava mostras de uma preocupação eclesial voltada para algumas realidades concretas do nosso continente. É neste solo que surgem nas décadas de cinqüenta e sessenta verdadeiros movimentos que vão fermentando e ensaiando um novo jeito de sermos Igreja. Esta confluência renovadora da Igreja terá o seu ponto alto na II Conferência de Medellín, onde se elabora de forma inédita o rosto da Igreja latino-americana identificada com a realidade dos pobres do continente. É em Medellín que o Espírito Santo provoca um novo pentecostes renovador da Igreja à luz da renovação já preconizada pelo Concílio Vaticano II. É partir daqui que podemos falar de uma original tradição eclesial e eclesiológica que foi caracterizando a Igreja na América Latina até os dias de hoje. Considerando o rigor da linguagem teológica não estamos utilizando a categoria tradição com letra maiúscula e no seu sentido singular típico daquilo que é a Tradição da Igreja com um significado propriamente maiúsculo e universal. De outro lado, é certo que a excelência da Tradição deve sempre ser desdobrada nas mediações reais da riqueza das tradições que determinam a reconfiguração histórica e mundana da Igreja Universal através das Igrejas Particulares. A este propósito, falamos de uma Igreja humana e, portanto, composta por pessoas e não por anjos, a qual se expressará autenticamente por meio da diversidade antropológico-cultural [5].

Com o esclarecimento diferenciado entre o conceito teológico de Tradição e tradições, podemos, agora, apontar para as grandes gestas eclesiais que marcaram a reconfiguração da Igreja em Medellín-Puebla-Santo Domingo. A primeira intuição genial e original foi preconizar um juízo objetivo sobre a Igreja não a partir de si mesma, mas, a partir da realidade da pobreza que mata os pobres. Esta realidade degradante da dignidade humana é utilizada como critério para se verificar a autenticidade da organicidade da Igreja – a eclesiologia é submetida à pobreza que avilta a vida dos pobres. A Igreja não é uma organização abstrata ou etérea e desvinculada da realidade histórica e mundana e, concretamente, da angústia dos pobres. Este pressuposto determina a sua identidade e reclama a urgência de sua reconfiguração contextualizada. Eis os pontos que esgrimem esta nova gestação da Igreja e, que merece serem comentados:

1. "Neste contexto, uma Igreja pobre: – Denuncia a carência injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra". Ou seja, o postulado eclesial se condensa na expressão altamente relevante "Igreja pobre", cujo princípio regente é de cunho bíblico e cristológico colocado ao longo do texto como justificativa [6]. Uma Igreja pobre é derivada e, simultaneamente, extensão do Cristo pobre. O primeiro compromisso da Igreja frente à pobreza aviltante da vida dos pobres é profético, isto é, tal pobreza não é interpretada e compreendida como se fosse casualmente algo fatalista. Tal pobreza é definida como sendo "carência injusta dos bens deste mundo" e, por isso, deve ser denunciada. A melhor denúncia é a solidariedade da Igreja sendo ela mesma pobre com os pobres. A injustiça é um pecado gravíssimo por ser ela que engendra a pobreza dos pobres; 2. "– Prega e vive a pobreza espiritual como atitude de infância espiritual e abertura para o Senhor". Vale dizer, é uma Igreja que carrega no anúncio da Palavra a profunda espiritualidade do Magnificat, das bem-aventuranças e do Reino de Deus como critérios que relativiza a riqueza deste mundo transformada em materialismo idolátrico, para afirmar sua confiança na providência e gratuidade do Deus-Pai; 3. "– Compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja é, com efeito, uma constante na história da salvação". Isto é, a pobreza que destrói a vida dos pobres é a privação dos bens materiais da criação do Deus-Pai que suprem as necessidades básicas e fundamentais para o sustento da vida humana. Ter as necessidades materiais básicas atendidas a partir do critério doutrinário do destino universal dos bens da criação é um direito inalienável do ser humano. A pobreza material significa o crescente despojar, espoliar e expropriar os pobres de tais direitos. A este processo de esbulho dos direitos dos pobres terem o mínimo para sobreviver dignamente, a Igreja deve responder com o seu costume histórico de ser pobre com os pobres no horizonte cristológico da sequela Christ [7].

O desafio proposto por Medellín de uma Igreja pobre em solidariedade com os pobres foi retomado pela perspectiva eclesiológica indicada por Puebla, cujo referencial é sua missão evangelizadora no presente e no futuro da América Latina. Na primeira parte do Documento de Puebla a Igreja aparece como sujeito que deve exercitar sua capacidade de "ver" a realidade histórica e mundana onde se encontram situados os pobres. Eis o conteúdo de tal formulação:

"Vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, a brecha crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é devida. Nesta angústia e dor, a Igreja discerne uma situação de pecado social, cuja gravidade é tanto maior quanto se dá em países que se dizem católicos e que têm a capacidade de mudar: 'que se derrubem as barreiras da exploração... contra as quais se estraçalham seus maiores esforços de promoção' (João Paulo II, Alocução Oaxaca 5 – AAS, LXXI, p. 209)", (P 28).

A Igreja capacitada para ver o luxo de uma minoria rica em detrimento de uma acintosa miséria das grandes massas é desafiada a redescobrir e reconfigurar sua verdadeira identidade sob a inspiração do desígnio de Deus para a América Latina. Sua identidade tipológica vai sendo definida a partir das seguintes expressões eclesiais oriundas do Concílio Vaticano II: Povo de Deus (P 232s), sinal e serviço de comunhão, família de Deus (P 238s), objeto de nossa fé (P 223), germe e princípio do Reino de Deus (P 228), mistério de comunhão (P 167), sacramento de comunhão (P 220, 476, 1302), lugar da ação do Pai (P 227), servidora do Evangelho (P 224), mãe e mestra (P 511), anunciadora, servidora e instauradora do Reino de Deus (P 227), comunhão e participação (P 211-281).

Podemos asseverar que o binômio comunhão-participação é o critério hermenêutico para se entender a eclesiologia de Puebla. A fundamentação teológica da comunhão-participação eclesial é o mistério de comunhão e de participação que encontra sua totalidade plena na Trindade. "Esta é a comunhão que as multidões de nosso Continente procuram com ânsia, quando confiam na providência do Pai ou confessam a Cristo como Deus Salvador, quando buscam a graça do Espírito nos sacramentos da Igreja e até quando traçam sobre si o sinal da cruz ' Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (P 216). Do coração uno e trino da Trindade é que brota a missão evangelizadora da Igreja profundamente sensível aos gemidos do coração sofrido dos mais pobres e pronta para ser solidária com eles num franco caminho de libertação-evangelizadora. Assim, a missão-evangélica-libertadora da Igreja acontece na sua estreita participação na comunhão do mistério trinitário sempre a serviço da criação na história e no mundo de estruturas de comunhão-participação [8].

Da identificação da Igreja com a comunhão trinitária ela encontra sua identidade como povo de Deus através da sua missão de ser sinal a serviço da comunhão no coração do mundo. A mediação primigênia desse compromisso é que a Igreja seja servidora de Evangelho e do Reino anunciado e realizado por Jesus Cristo. Assim, a Igreja encarna e vive o mistério da comunhão como povo de Deus identificada com a realidade do povo latino-americano. "Nosso povo gosta de peregrinações. Nelas o cristão simples celebra a felicidade de se sentir imerso no meio de uma multidão de irmãos, que caminham juntos para Deus que os espera. Este gesto constitui um sinal e um sacramental esplêndido da grande visão da Igreja, oferecida pelo Concílio Vaticano II: a família de Deus concebida como povo de Deus, peregrino ao longo da história, caminhando para o seu Senhor" (P 232). Levando em conta o aspecto dos relacionamentos familiares profundamente enraizados na idiossincrasia cultural do nosso povo, a Igreja concebida como povo de Deus é identificada como sendo a família de Deus em peregrinação no rumo da casa do Deus-Pai [9]. Desta eclesiologia da Igreja Povo de Deus em peregrinação pelos avatares da história sempre guiada pelo Espírito Santo, surgem outras formulações profundas na forma de concebê-la, tais como: povo santo, povo peregrino, povo enviado por Deus, povo servidor, sobretudo, dos pobres. Situada dentro deste contexto histórico, a Igreja aparece como uma verdadeira escola de forjadores de história, vale dizer, ela é geradora de pessoas comprometidas com o destino de uma história na direção do projeto do Deus-Pai.

A profundidade implicante desse filão histórico que caracteriza a andadura peregrinante da Igreja aparece esboçada de forma preciosa e com rara beleza na ressonância dos textos que queremos colocar de relevo. "O Povo de Deus, como Sacramento universal de salvação, está inteiramente a serviço da comunhão dos homens com Deus e do gênero humano entre si (LG 1). A Igreja é, portanto, um povo de servidores. Seu modo próprio de servir é evangelizar; é um serviço que só ela pode prestar. Determina sua identidade e a originalidade de sua contribuição. Este serviço evangelizador da Igreja se dirige a todos os homens, sem distinção. Mas nele sempre há de refletir-se a especial predileção de Jesus pelos mais pobres e sofredores" (P 270). Aqui a Igreja é o Povo de Deus que caminha na história sendo o elo de comunhão entre a humanidade e o mistério de Deus, como também, é servidora da comunhão intra-humana. Uma das características mais sobressalentes é a concepção da Igreja como diaconisa da koinonia, ou seja, servidora da comunhão. Este diaconato eclesial se especifica e se realiza através do Evangelho de Jesus Cristo desdobrado como compromisso missionário. É este talante evangelizador-missionário que confere à Igreja sua identidade e originalidade como servidora da comunhão. A ação evangelizadora-missionária está destinada a todos, pois, é sempre dinamizada pela inclusão de todos no caminho da comunhão com o Deus-Pai. No entanto, guiada pela predileção de Jesus Cristo pelos pobres e sofredores, a Igreja também deve atuar convidando a todos à comunhão através da predileta mediação dos que sofrem à causa da pobreza.

"Cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por constituir para o Continente um exemplo de modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organização e estruturas de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade, e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radical comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente voltando-se contra o próprio homem" (P 273). As comunidades eclesiais que estão na base da configuração da grande Igreja devem ser células vitalizadas por um tipo de liberdade criadora de solidariedade, capaz de fermentar o tecido social. Tal solidariedade passa a ser a expressão de um processo eclesial libertador das situações de escravidão presentes no meio social. O exercício da autoridade se transforma em diaconato sob a inspiração serviçal do Bom Pastor [10], o qual ama e conhece as suas ovelhas e, por isso, dá a sua vida por elas. Frente a uma absolutização sócio-econômica da riqueza as experiências eclesiais devem relativizá-la, evitando que a mesma seja um ídolo colocado no lugar de Deus. Este é o horizonte proposto com a finalidade de se buscar a organização e estruturação de uma tipologia social alternativa àquela calcada no materialismo, no consumismo e no lucro desenfreado.

"Para os próprios cristãos, a Igreja deveria transformar-se num lugar em que aprendem a viver a fé experimentando-a e descobrindo-a encarnada nos outros. Do modo mais urgente, deveria ser a escola onde se eduquem homens capazes de fazer história, para levar eficazmente com Cristo a história de nossos povos até o Reino" (P 274). Todo este caminhar da Igreja latino-americana tem como fio condutor a sua condição de sujeito histórico onde ela é mater et magistra – mãe e mestra – e, portanto, formadora de cristãos com uma lúcida consciência histórica de sua realidade. A história é o tempo onde a Igreja lê e interpreta os sinais dos tempos para discernir os desígnios do Deus-Pai e, concomitantemente, locus theologicus, isto é, lugar interpelante da autenticidade de sua ação evangelizadora-missionária. A história é lugar teogógico, pois, a ação salvífico-libertadora de Deus jamais aconteceu fora da mesma. Este critério histórico-salvífico-libertador da ação misteriosa de Deus agora serve de cânon ou medida para a missão da Igreja. Ela deve ser mistagoga, vale dizer, capaz de formar-ensinar a lúcida consciência histórica dos cristãos através do compromisso de transformação da história no sempre horizonte do desígnio do Reino de Deus.

O rosto de uma Igreja pobre em estreita solidariedade com os pobres e que assumiu o compromisso de uma evangelização-missionária-libertadora na linha de Medellín-Puebla, ganha com a Conferência de Santo Domingo três dimensões altamente significativas que são: os desafios de uma renovada evangelização, o empenho com a promoção humana e a inculturação da fé. Estas três dimensões estão radicadas na pessoa de Jesus Cristo e, devem ser redimensionadas através da em constante progresso de reconfiguração.

A primeira dimensão tradutora da identidade da Igreja passa pelo seu compromisso com a evangelização-missionária e os seus desafios no momento histórico atual. "'A Igreja peregrina é missionária por natureza, uma vez que procede da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai" (Ad gentes, 2). A evangelização é sua razão de ser; ela existe para evangelizar (cf. Evangelii nuntiandi, 15). Para a América Latina, providencialmente animada com um novo ardor evangélico, chegou a hora de levar a sua fé aos povos que ainda não conhecem Cristo, na certeza convicta de que 'é dando a fé que ela se fortalece' (João Paulo II, Discurso inaugural, 28)" (SD 12a). A missão evangelizadora expressa a condição peregrinante da Igreja por ser algo que integra sua própria natureza como tal. No transfundo desta sua condição natural está a missão do Filho e a missão do Espírito Santo, as duas derivadas do desígnio da vontade do Deus-Pai. Assim, a ação evangelizadora-missionária da Igreja acontece à medida que ela se identifique com as ações ad extra=para fora, típicas da trindade econômica. Como a trindade imanente – realidade ad intra do mistério triúno – se comunica de maneira histórico-salvífico-libertadora, a Igreja-ícone da Trindade deve ser sujeito de um mundo novo no horizonte do Reino de Deus no contexto histórico latino-americano-caribenho.

A concepção de uma Igreja evangelizadora-missionária tem sua fundamentação teológica nas entranhas do mistério trinitário e, por isso, foi convocada para ser ícone de tal mistério trilhando o caminho da santidade. Esta realidade eclesial se condensa na semântica da expressão "Igreja convocada à santidade" pelo próprio Deus triúno. Como é sabido pela reflexão bíblico-teológica a santidade como tal é um adjetivo referente de forma única e absoluta a Deus, já que, só Deus é santo. Por isso, Santo Domingo fala da Igreja chamada à santidade, convocada pela Palavra e, sacramentalmente constituída como assembléia litúrgica que se reúne para celebrar a Eucaristia.

Na perspectiva do exercício do seu diaconato permanente a Igreja deve ser sempre reconfigurada "na unidade do Espírito, com diversidade de ministérios e carismas", cujo fundamento angular é o sacramento do batismo assentado nas Três Divinas Pessoas trinitárias [11]. Este postulado denota o significado de uma Igreja de batizados em cuja base está o laicado. A afirmação seguinte é lapidar por estar na base de tal forma de compreender a Igreja: "O Povo de Deus é constituído em sua maioria por fiéis leigos. Eles são chamados por Cristo como Igreja, agentes e destinatários da Boa Nova da Salvação, a exercer no mundo, vinha de Deus, uma tarefa evangelizadora indispensável. A eles se dirigem hoje as palavras do Senhor: 'Ide também vós para a minha vinha' (Mt 20,3-4) e estas ainda: 'Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura' (Mc 16,15; cf. Christifideles laici, 33)" (SD 94). Esta realidade eclesial sedimentada na consagração batismal do laicado na Igreja e desdobrada na diversificação dos ministérios e carismas sob a unção do Espírito Santo, ganha sua autenticidade à medida que esteja em sintonia com a belíssima e sempre desafiante opção preferencial pelos pobres-empobrecidos-excluídos. Esta tríade é densamente significativa e, corresponde respectivamente, a um processo degradante no qual Medellín fazia referência a pobres e miseráveis, Puebla falava de empobrecidos como resultado de um processo aspiral de pobreza, Santo Domingo utiliza a expressão "exclusão social, étnica e cultural" para indicar o peso da miséria que pesa sobre os excluídos [12]. Aqui nos encontramos no âmbito da segunda dimensão que deve marcar a identidade da Igreja latino-americana.

A inculturação da fé – terceira dimensão identificadora da Igreja –, tem como fundamentação teológica o mistério da encarnação do Verbo, a Páscoa e Pentecostes, expressão por excelência da ação pneumática-universalizante do Espírito Santo. A mediação reatualizadora da inculturação da fé que deve inspirar o caminhar de uma Igreja inculturada nas diversas culturas é o Evangelho. "'Pela inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, transmitindo-lhes os seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro' (Redemptoris missio, 52). A fé, ao se encarnar nessas culturas, deve corrigir seus erros e evitar sincretismos. A tarefa da inculturação da fé é própria das Igrejas particulares sob a direção dos seus pastores, com a participação de todo o povo de Deus. Os critérios fundamentais neste processo são a sintonia com as exigências objetivas da fé e a abertura à comunhão com a Igreja universal (cf. Redemptoris missio, 54)" (SD 230). A inculturação da fé cristã mediada pelo Evangelho de Jesus Cristo tendo a Igreja como sujeito, implica na exigência de se repensar suas bases eclesiais e, mesmo um padrão eclesiológico fechado e bitolado por uma visão monocultural e/ou uniforme-culturtal. A inculturação colocada como princípio eclesial e eclesiológico se situa no fluxo que vai desde a abertura da Igreja à variedade das culturas, integrando-as na sua configuração eclesial. Isto implica no câmbio do padrão de uma Igreja do tipo rigorista, fixista, rígida e estática a uma tipologia eclesial inspirada no diálogo, na flexibilidade, na maleabilidade e no dinamismo resultante do sempre renovado sopro vital do Espírito Santo. De outro lado, o princípio da inculturação faz com que a Igreja receba no seu seio materno a variedade das sementes presentes na riqueza do pluralismo cultural. É, portanto, um tipo de movimento dinâmico no qual a Igreja enriquece e ao mesmo tempo é enriquecida pela diversidade de valores característicos das várias culturas [13].

Colocamos em relevo outro dado de alta significância do ponto de vista da renovação que a inculturação provoca na Igreja, a saber, a comunhão na unidade tem como ponto de partida e articulação das igrejas particulares na figura dos seus pastores e de todo o povo de Deus. Esta comunhão-unidade ganha o seu caráter universalizante na objetividade e nas exigências daquilo que é a profissão de fé da Igreja universal. Recuperamos, destarte, a comunhão típica do primeiro milênio da tradição da Igreja dinamizada a partir da diversidade dinâmica das igrejas particulares.

 

3. BASES ECLESIOLÓGICAS DO DOCUMENTO DE PARTICIPAÇÃO À V CONFERÊNCIA DE APARECIDA – AVANÇAR OU RETROCEDER

Depois de termos oferecido um resumo abreviado da tradição eclesial e eclesiológica da Igreja na América Latina, resta-nos fazer uma leitura da eclesiologia que aparece esboçada no DP à V Conferência de Aparecida. Certamente, que partimos de alguns pressupostos condensados no binômio avançar-retroceder referenciado à tradição da Igreja latino-americana, com o intento de interpretar e compreender o outro binômio discipulado-missão, utilizado no DP para se definir a Igreja no contexto histórico da América Latina.

Pensamos que ao celebrar a V Conferência no santuário de Aparecida a Igreja não pode perder de vista os grandes avanços alcançados pela sua consciência evangelizadora-missionária afirmada na trilha eclesial Medellín-Puebla-Santo Domingo. É altamente relevante no âmbito da beleza e profundidade da fé pensar que os grandes templos ou santuários de peregrinação da Igreja concentram um importante significado religioso e simbólico [14]. São lugares onde o povo mais simples e pobre acorre para buscar alento diante dos grandes desafios da vida. Dentro deste cenário densamente simbólico a Igreja deverá ir rumo à Aparecida – vale a redundância de tal asseveração – para peregrinar num gesto de profunda comunhão e solidariedade com os pobres-empobrecidos-excluídos do nosso Continente sendo sinal profético de esperança [15].

Utilizando o movimento dinâmico do verbo avançar, queremos afirmar na seqüência da nossa reflexão que a concepção de uma Igreja discípula-missionária deve "avançar para águas mais profundas" [16] naquilo que marcou o eixo eclesial Medellín-Puebla-Santo Domingo.

3.1. Uma Igreja peregrina na trilha dos pobres – Avançar
O avançar na concepção da Igreja rumo à Aparecida não poderá perder de vista o comportamento profético de Jesus Cristo no seu relacionamento com o Templo de Jerusalém. O critério que rege de forma determinante o comportamento de Jesus Cristo é a sua livre decisão de fazer o caminho solidário de peregrinação com os pobres que iam à Jerusalém ao encontro de Deus. No seu caminhar peregrinante Jesus se faz peregrino com os peregrinos mais pobres dentre os pobres. Resgata para eles a verdadeira e autêntica experiência da presença de Deus na história e na vida humana, acabando com a distância entre a "imagem" perversa que a teologia ortodoxa do Templo oferecia de Deus e, devolvendo aos pobres uma real presença vital-libertária do mistério divino. O templo onde Deus habita, agora, é o próprio Jesus Cristo e, a partir dele, cada ser humano, sobretudo, cada excluído é morada onde habita Deus [17].

Como estamos deixando patentear ao longo da nossa reflexão, este caminho de Jesus Cristo foi reassumido pela Igreja em Medellín, onde se apostou por uma Igreja pobre e identificada com os pobres submersos nas mais variadas situações de pobreza e de miséria. Em tal contexto histórico a Igreja foi sensível de forma inédita ao grito dos pobres que clamam justiça aos céus. Ali a Igreja assume ser autofalante ou boca-de-trombone que faz ressoar o clamor dos pobres do continente latino-americano. Hoje a magna questão que se coloca desde as bases eclesiais é exatamente essa: será que a Igreja que está indo rumo à Aparecida continua identificada com os peregrinos pobres? A pertinência desta interrogação perpassará a nossa reflexão de forma questionadora e desafiadora [18].

É sabido que as décadas de sessenta e setenta a andadura da Igreja latino-americana foi fecundada por grandes figuras proféticas. Em dito contexto podemos falar de leigos profetas, de um clero e de um episcopado profético. No momento atual temos uma consciência eclesial amadurecida o suficiente para asseverar que o Espírito Santo jamais permite que a profecia deixe de pulsar no coração ungido da Igreja. E, por isso, a profecia não se arrefece, não se acanha e nem se amortece por continuar teimando ser uma experiência eclesial inspirada pelo Espírito Santo. No entanto, parece que a profecia está como que brasas acesas cobertas por uma camada pesada de cinzas. É a cinza do medo, do institucionalismo, da burocracia eclesiástica, das grandes celebrações massivas carregadas de aparência estética e de nenhum compromisso ético com a transformação da sociedade neoliberal e violentamente excludente, de uma mentalidade clericalizada que aposta mais no dinheiro do que no compromisso com a vida dos excluídos e, assim vai.

Em meio a este inverno e/ou noite escura eclesial e eclesiástica que desenhamos acima, a Igreja a caminho de Aparecida quer continuar sendo fiel discípula do Mestre e missionária, vale dizer, sempre re-enviada por ele. E, assim deve ser, pois, o Espírito Santo é que sopra com a suficiente força para dissipar as cinzas que insistem em não permitir o vermelhão resplandecente das brasas proféticas. E a Igreja-discípula é aquela que continua querendo aprender com o Mestre no exercício de sua capacidade de escuta, de ler e reler os sinais dos tempos, de sempre descer do nefasto trono clerical e clericalizante, de promover o sacerdócio dos leigos na riqueza dos seus carismas e ministérios, de fazer da Eucaristia sinal de transformação da história e do mundo [19] ... Enfim, uma Igreja capaz de apostar e empenhar pela globalização da fraternidade-libertadora, a qual concorre para a construção de uma sociedade mais conforme os desígnios do Deus-Pai e, portanto, mais filial-fraterna. Neste sentido, é belo e esperançoso que a direção de Aparecida seja marcada pela busca vital dos excluídos no seu "anseio de felicidade, verdade, fraternidade e paz". Este desejo de busca está inscrito no coração dos pobres-empobrecidos-excluídos, os quais, querem "uma vida fraterna sem injustiças e sem nenhuma discriminação; um amor que não desengane; uma felicidade plena, sem ameaças ou restrições" (DP 2).

A Igreja-discípula é, concomitantemente, a Igreja-missionária que não pode perder a memória histórica de uma missão capaz de recriar a participação e a comunhão eclesial preconizada por Puebla. Também não se pode olvidar que segundo Puebla os pobres passaram a ser objetos de um violento processo de empobrecimento em detrimento do enriquecimento das classes abastadas. Indubitavelmente, Puebla seguiu o veio profético despertado pela Igreja em Medellín, o qual culminou com a proposta evangelizadora de Santo Domingo a partir do conceito teológico de inculturação. O contexto histórico diagnosticado por Santo Domingo girou em torno da globalização e da exclusão social como dois processos perversos para a vida dos pobres (Medellín), empobrecidos (Puebla) e, excluídos (Santo Domingo).

O DP à V Conferência de Aparecida coloca em um dos seus blocos temáticos contextualizado no início do Terceiro Milênio "as dores de parto de uma nova época" como sinal dos tempos que faz parte da esperança de transformação almejada pelo povo latino-americano. Há uma insistência na temática da globalização como uma realidade ideológica, social, política, econômica e cultural que ameaça a vida dos pobres-empobrecidos-excluídos. A globalização vista dentro do atual modelo neoliberal é uma categoria complexa e ao mesmo tempo útil para se ler os sinais dos tempos na atualidade do momento histórico. Aqui aparece fortemente a acentuação do exercício na fé de "Ver" as complicações do atual contexto histórico.

A seguir elencamos algumas indicações de como a Igreja deve ver a realidade histórica do momento: "A América Latina e o Caribe são, de fato, desafiados pelas mudanças religiosas, éticas e, em geral, culturais, que marcam as dores de parto de uma nova época [...]. Que os progressos da informação e da técnica tenham acelerado os processos de produção, era de esperar. Todavia, esse avanço nos ancora até o momento em um cenário dramático [...]. Crescem as desigualdades entre os que possuem o capital – do dinheiro e da informação – e os mais pobres, principalmente em informação, habilidades técnicas e conhecimentos. Cresce o número dos marginalizados: seres humanos, raças minoritárias e países inteiros [...]. A globalização econômica é um fenômeno complexo, que gera riquezas, graças à intercomunicação mundial e à elevação dos parâmetros de produção a parâmetros internacionais e, gera, por sua vez, de modo mais ou menos sistemático, pobrezas e marginalizações diversas, que afetam gravemente muitos povos [...]. A evidência empírica permite afirmar que na América Latina se mantém uma grave injustiça social, que freia o possível desenvolvimento humano de milhões de habitantes. E, para escândalo de muitos, tudo isso acontece em um Continente de batizados. Impossível deixar de perguntar: por que a verdade de nossa fé e de nossa caridade não tiveram a devida incidência social?" (DP 94; 103; 118; 119). O primeiro elemento proveniente da realidade que salta à vista é a instauração irreversível das mudanças em conseqüência do progresso científico-técnico. No entanto, é uma mudança desumana por incidir num tipo de modelo econômico perverso que tem concorrido para o aumento do abismo vergonhoso entre ricos e pobres configurado como agravamento da injustiça social institucionalizada. Ainda na perspectiva das mazelas infra-humanas causadas por uma economia sem coração, isto é, desprovida do mínimo de sensibilidade humana, é de suma importância a afirmação seguinte: "Continua sendo escandalosa a persistência da pobreza, da miséria e do desemprego em um subcontinente formado majoritariamente por cristão. Esse mal golpeia principalmente milhões de mulheres, de indígenas e de afro-americanos. Cresce a brecha da receita entre os mais ricos e os mais pobres. A superação desses males se vê dificultada e ameaçada pelo tipo de globalização que se estende, e pelos tratados que se subscrevem entre países muito desiguais no campo da informação, da educação e da tecnologia. A opção preferencial pelos pobres ainda não dá frutos que permitam olhas o futuro como um tempo de fraternidade e de paz. Admirável resulta, nesse contexto, a persistência de grandes virtudes entre os pobres, que são solidários entre si, acolhedores, religiosos, e que empregam seus melhores esforços para dar alimentação, saúde e educação para seus filhos" (DP 126).

Outra mediação de construção de uma sociedade mais humanizada e humanizante que também passa por um momento de alta decadência é a política, segundo elemento colocado em destaque e que caracteriza os países da América Latina e Caribe. "As pessoas se cansam da fraqueza de seus governantes. Constata-se uma crescente tendência de aplaudir o surgimento de líderes messiânicos ou caudilhos de estilo populista. Eles prometem o paraíso: a igualdade, o emprego para todos, o término da pobreza e da corrupção [...]". No entanto, o que se verifica é o aumento da "corrupção pública e privada", a qual "aumentou de modo alarmante, afetando, de um lado, as pessoas, as organizações e as classes dirigentes e, por outro, favorecendo a impunidade e o enriquecimento ilícito, assim como a falta de confiança nas instituições políticas, na administração da justiça, no investimento público e, em geral, naqueles que têm poder e dinheiro. A corrupção freia o crédito, o investimento honesto e a ajuda internacional. Suas conseqüências recaem nos mais pobres e desvalidos" (DP 131; 135). Ao pintar este quadro de um verdadeiro descalabro da política, de suas instituições e dos políticos comprados e vendidos pela nefasta prática da corrupção pública e privada, a Igreja coloca o dedo numa das partes cancerígenas da sociedade latino-americana e caribenha. A conclusão de que as conseqüências de tal desmando político recaem sobre os pobres-empobrecidos-excluídos sinaliza para a necessidade de uma postura renovadamente profética das comunidades eclesiais.

As mediações econômicas e políticas ao não prestar um serviço ao princípio humanista do bem comum, acaba gerando uma sociedade de morte e não de vida para o povo latino-americano-caribenho. Aqui a configuração social é o terceiro elemento condicionador da realidade dos países da América Latina e do Caribe. "Muito além do capital e do trabalho, que pareciam ser os únicos fatores do progresso da economia, hoje o desenvolvimento da economia gravita em torno da informação, da comunicação e do conhecimento. Exatamente por esse fato valoriza-se também o 'capital humano'. Esta palavra, que salienta a riqueza e a dignidade da pessoa humana e seu valor no processo produtivo, por vezes é, desgraçadamente, interpretada como estima não à pessoa em si mesma, mas apenas como fator de produção" (DP 102). Notamos um ritmo social desumano de despersonalização do sujeito humano em favor da produção, do consumo e do lucro desenfreados colocados como critérios e leis que regem a organização e o funcionamento do mercado. Este vale por si mesmo e é o critério que determina as relações na sociedade atual. Este é o atual cenário social cujo palco é o mercado neoliberal-globalizado que tem suas leis próprias e impõe os padrões organizacionais para a sociedade.

A configuração do cenário econômico-político-social influencia nos padrões de comportamento cultural no momento histórico atual. É a cultura o quarto elemento mediador de uma leitura dos sinais dos tempos no contexto da realidade latino-americana-caribenha. A visão que se tem do ser humano – antropovisão e, a visão que se tem do cosmo – cosmovisão, são influenciadoras dos padrões culturais. "A cosmovisão cristã nos aproxima do fenômeno da globalização a partir dos critérios fundamentais da dignidade da pessoa humana, cujo bem é o critério último de todo progresso, e de sua vocação para a comunhão, a partir do destino universal dos bens e da opção evangélica pelos pobres, e a partir da visão do universo como criação de Deus, confiada ao ser humano para que o contemple conforme a vontade do Criador" (DP 116). Logicamente que esta maneira de compreender e interpretar o mundo criado implica no gerenciamento do progresso científico-tecnológico como algo a serviço da vida, pelo fato de que o ser humano é a criatura mais importante no âmbito da criação de Deus. Trata-se, portanto, de preservar e promover incondicionalmente a qualidade da vida humana no planeta e, isto implica: sobriedade, austeridade, respeito, sensibilidade, moderação, partilha, distribuição... na ótica do destino universal dos bens da criação e da garantia dos direitos fundamentais da dignidade dos pobres. Oposta diametralmente a este projeto cultural solidário e humanista, "globalização assimétrica de anti-valores está provocando uma verdadeira revolução no âmbito da cultura, uma vez que tende a alterar a identidade cultural de quase todos os povos. Enquanto promove o culto ao próprio eu, ao dinheiro e ao prazer, atenta contra a solidariedade para com os marginalizados, contra o respeito e o valor sagrado da vida, contra o matrimônio, a família e a heterossexualidade, contra a identidade e a missão da mulher, contra a diversidade cultural e contra a autêntica concepção da liberdade, cuja vocação é aliar-se com a verdade, com a beleza e com o bem" (DP 121).

O quinto elemento atingido por esta avalanche de mudanças ditadas pela ideologia da globalização moderna e pós-moderna é o universo religioso simbólico significativo denominado "substrato católico" presente no inconsciente religioso coletivo do nosso povo. A dimensão decadente deste quinto elemento recebe a seguinte caracterização: "rigidez de novos fundamentalismos", supervalorização do mero sentimento religioso, busca de remansos de paz interior, práticas religiosas impessoais e descontextualizadas, afunilamento religioso em grupos fechados como guetos, satisfação imediata das questões existenciais em prejuízo das mediações de busca, o qual conduz a todo tipo de fatalismo religioso. " Em lugar do Deus verdadeiro, aparecem ídolos com pés de barro, aos quais se adora como o mais importante e gratificante da vida, tais como o dinheiro, a fama, o poder, a sexualidade desintegrada" (DP 146). Este quadro idolátrico e, portanto, caracterizado por verdadeiros ídolos tem também os seus templos levantados pela ideologia que afiançou o pretensioso projeto da idade moderna ou modernidade. "O fracasso da cultura assim chamada moderna, de dar sentido transcendente à existência humana, a dificuldade pastoral para sustentar e alimentar a identidade católica de todos os batizados, a aparição de outras denominações cristãs e a proliferação de inumeráveis confissões religiosas e de seitas, deram lugar a um agitado mercado de alternativas religiosas" (DP 148). O caráter decadente deste diagnóstico está na constatação de que o fenômeno religioso na sua dimensão antropológica negado pela ideologia da modernidade acaba irrompendo de forma vulcânica no contexto da pós-modernidade como mais um produto da perversidade dos ditames do mercado neoliberal. Esta banalização da religião tem uma incidência nos comportamentos éticos da sociedade contemporânea. É assim que a trivialidade da religião reproduz um modelo de uma ética trivial na qual, "o verdadeiro é aquilo que suscita um sentimento de agrado ou de prazer; e também o consumo. Essa nova categoria fundamental na vida pessoal e social, a emotividade, emerge como critério não só de verdade, mas serve, também, para qualificar a moralidade dos atos [...]. Essa visão coincide com uma ética individualista, para a qual cada um se encontra diante de sua verdade [...]. Verdadeiro e bom é aquilo que eu estabeleço, ou que me emociona positivamente, ao menos por enquanto. Também por essa razão a verdade tende a ser subjetiva. Não existiria 'a' verdade, e sim 'minha' verdade; no melhor dos casos 'nossa' verdade. Por isso, para muitos não importa a estabilidade das decisões e dos compromissos, nem suas conseqüências, nem sua projeção para o futuro. Nessa ordem de coisas, o real é unicamente o atual" (DP 104).

Em meio a este exercício do "ver" a realidade complexa que emerge as exigências do avançar da Igreja-discípula-missionária em busca da originalidade e fidelidade criativa de sua missão. Pensamos que é trilhando o contínuo caminho de sua identificação com os pobres-empobrecidos-excluídos que a Igreja no atual contexto histórico da América Latina e Caribe continuará sendo uma presença sacramental transformadora das situações desumanas. A comunhão eclesial, a cada vez mais valorização dos leigos/as, o fortalecimento das bases eclesiais, o incremento das pastorais sociais, a escuta e a pronúncia de uma palavra com destemor profético emergente dos desafios da realidade, são algumas profundas intuições eclesiais que devem ir marcando o ritmo da nossa Igreja [20].

3.2. Uma Igreja emborcada em si mesma – retroceder
Terminamos o item anterior sintetizando uma série de situações da realidade histórica e mundana atual que desafiam a ação evangelizadora-missionária da Igreja. Pois bem, paradoxalmente, esta situação de cativeiro que assola a vida dos cativos interpela a Igreja e, torna-se sinal de esperança transformadora da história e da sociedade. Pela dura realidade do cativeiro desumano passa o compromisso libertador da Igreja-discípula-missionária. A grande tentação frente a tal realidade desafiante é o retrocesso ou o acovardamento em não assumir tal compromisso evangelizador-missionário. Neste sentido, a Igreja não deve estar emborcada sobre si mesma, mas, sempre se desemborcando num constante voltar-se e abrir-se ao mundo, à sociedade, à história para continuar sendo sacramento da salvação-libertadora de Deus.

Ao longo da trajetória do caminhar da Igreja na América Latina a realidade de pobreza-empobrecimento-exclusão do continente sempre exerceu uma mediação determinante como se fosse um "óculos especial" que provoca na Igreja o exercício do "Ver" tal realidade histórica com uma visão profética. Trata-se, portanto, da questão decisiva em torno do método que se adota para se ler os sinais dos tempos que emergem da realidade complexa [21]. Certamente que de acordo com dito método de leitura deriva-se a forma de se conceber a Igreja, isto é, a eclesiologia é resultante da maneira como se lê, compreende, interpreta e julga a realidade. Também este caminho metodológico ver-julgar-agir utilizado para se diagnosticar o montante complexo da realidade será determinante na elaboração das estratégias de ação pastoral e, mesmo das outras várias mediações que traduzem o jeito de ser da Igreja: ação missionária-evangelizadora, catequética, postura ecumênica, diálogo com a sociedade, liturgia e culto, etc.

O método ver-julgar-agir traz na sua configuração mediadora para se ler o contexto histórico o princípio indutivo que toca realidades concretas da vida do povo latino-americano-caribenho. Sendo assim, pode ser visto como uma constante provocação a que a Igreja sempre se desemborque na direção de tal realidade complexa, identificando-se, desta maneira, com os pobres-empobrecidos-excluídos. O DP de participação ao optar por um tipo de leitura difusa e indeterminada da realidade acaba contribuindo para uma concepção eclesiológica abstrata, com o agravante de que a Igreja seja uma esposa divorciada da sua realidade familiar, que é a vida do povo mais sofrido que espera dela um compromisso de aliança. Neste sentido, o DP recolhe os grandes avanços presentes na trajetória da Igreja latino-americana (DP 34) sintetizando aquilo que constitui a sua tradição. No entanto, tal síntese é feita de forma um tanto nostálgica como se tal conteúdo fosse algo de um passado que não tem incidência no presente e, que muito menos abre horizontes de futuro. Com isso queremos asseverar que o DP acaba estancando tais grandes intuições ao não fazer dos mesmos pontos de referência para novas e corajosas respostas proféticas no momento histórico atual. Há uma falta de ousadia e de coragem proféticas a exemplo das grandes opções reconhecidas. Porque não avançar na linha do profetismo eclesial se a realidade de morte dos pobres-empobrecidos-excluídos continua sendo um escândalo no continente onde vive a metade dos católicos do mundo (DP 92), conforme a análise que aparece no Capítulo IV.

É de grande significância o fato de que o DP reconhece os denominados "sinais de esperança que mostram a semeadura de Deus que cresce", numa alusão aos avanços da Igreja latino-americana. E, ainda, o DP de participação afirma: "Todos eles são imprescindíveis pontos de partida para nossos planos pastorais". A teologia latino-americana prestou um belíssimo serviço à Igreja renascida do eixo Medellín-Puebla-SantoDomingo na perspectiva de repensar a eclesiologia na esteira da opção preferencial pelos pobres-empobrecidos-excluídos. O DP reconhece tal contribuição na seguinte afirmação: "A Igreja viu-se enriquecida com uma pastoral social, que procura responder às necessidades urgentes de nossos povos. De fato, nela teve grande influência a opção preferencial pelos pobres, proclamada inicialmente por Medellín e de modo mais explícito por Puebla (ver nn. 1134-1165) e Santo Domingo (ver nn. 178-181) e o conteúdo evangélico e teológico da libertação, que abriu um novo horizonte para a ação evangelizadora" DP 34m). Neste ponto seria interessante que no perfil da Igreja esboçado pelo DP aparecesse indicações de avanços para que continuasse ditas experiências de renovação da Igreja, o que não é feito.

É no bloco situado entre os nn. 149-158 denominado "A presença da Igreja", onde poderiam ser indicadas as estratégias de avanço para o compromisso da Igreja no momento histórico atual. Na seqüência da nossa reflexão queremos analisar tais pontos a partir dos limites daquilo que não avança. Partindo do n. 149 parece que se quer indicar a importância da memória histórica da Igreja latino-americana no arco que vai do Concílio Plenário Latino-americano (1899), passando pela renovação preconizada pelo Concílio Vaticano II e pelo eixo Medellín-Puebla-Santo Domingo. No entanto, o enfoque assaz abstrato proposto pelo DP não é capaz de tocar problemas concretos que desfiguram a vida do nosso povo. O n. 150, por exemplo, afirma a necessidade de se enfrentar os desafios da globalização, mas, em seguida minimiza tal compromisso ao afirmar: "Não é difícil denunciar erros e injustiças". Certamente que ao longo da experiência comprometida da Igreja latino-americana nunca foi fácil sua missão profética de denunciar os erros e as injustiças que destroem a vida do povo. A frase, portanto, não traduz dita experiência histórica da nossa Igreja. Quando no mesmo número referenciado se fala dos desafios que procedem da realidade, a abordagem é extremamente abstrata, espiritualista e fora das questões reais da vida do povo. A fome do pão de cada dia que rezamos no Pai nosso é trocada por uma fome abstrata calcada numa imagem também abstrata de Deus. Conceitos profundamente vital-existenciais como comunhão, individuação, humanidade, felicidade e paz recebem uma conotação extremamente vazia de um significado real na vida dos pobres-empobrecidos-excluídos. O melhor alimento e a melhor bebida, elementos que traduzem e realizam o compromisso que deriva da Eucaristia como sacramento de vida para todos, recebe uma interpretação totalmente divorciada da fome e da sede do cotidiano da vida que continua matando muita gente no nosso Continente. Esta compreensão e interpretação incipiente e inócua das grandes mazelas que assolam a vida do povo não conduzem a um compromisso com os reais e "grandes desafios que nosso trabalho pastoral enfrenta". Neste sentido, o n. 51 opta por fazer referência a um estilo de ação pastoral de mera manutenção ao afirmar que a presença da Igreja no cenário social acontece através das chamadas "formas habituais de evangelização".

Ao tratar da temática em torno das pastorais sociais seria interessante se a experiência da Igreja nesta dimensão da sua tarefa pastoral fosse tomada como ponto de referência para um compromisso mais arrojado, corajoso, profético. No entanto, o enfoque minimiza a possibilidade de um avançar neste horizonte, pois, simplesmente reconhece o que tem sido feito pelas comunidades eclesiais (nn. 152s). O n. 154 ao referir-se à temática do laicado, o faz de forma seletiva ao contemplar uma modalidade de leigos que não corresponde à índole dos leigos/as das comunidades. Os leigos/as engajados e comprometidos com a transformação social na dimensão da fé, são pessoas simples as quais não se enquadram dentro de uma concepção um tanto classista de leigos mais identificados com a classe média.

O conteúdo correspondente aos nn. 155-158 faz referência à temática da evasão dos católicos que transitam para outras denominações religiosas. O critério para se ler, interpretar e avaliar tal fenômeno chamado "êxodo dos católicos" são práticas de "formalidades do catolicismo tradicional", as quais estão esvaziadas de um conteúdo mais profundo no que tange a experiência mais original de Deus na tradição cristã. É uma pena que não se leva em conta que a grande credibilidade que a Igreja Católica continua tendo nas sociedades dos países latino-americanos é resultante do seu compromisso profético e martirial. Esta é a memória perigosa e sempre atual que o povo não esquece jamais.


CONCLUSÃO

A nossa leitura, interpretação e compreensão do DP teve a intenção de não ser ingênua do ponto de vista teológico, mas, apreciativa e, portanto, numa perspectiva de discernimento criterioso que percebe a fronteira entre o avançar e o retroceder. O valor grande do DP está no fato de que ele abre o imprescindível horizonte da participação criativa que possibilita o repensarem muitos dos seus conteúdos propostos. E, por isso, as contribuições sugeridas serão assumidas por um novo Documento que será redigido, provavelmente, numa perspectiva de avançar no enriquecimento daquilo que foi elaborado até aqui. Sendo assim, a esperança de um novo Documento que venha somar de forma qualitativa ao DP, é algo que seguramente devolverá à V Conferência de Aparecida o rumo daquilo que denominamos ao longo da nossa reflexão de tradição da Igreja latino-americana.


Prof. Dr. Fr. Lisaneos Prates
Doutor em Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana de Roma. É professor de teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, no Instituto Teológico Pio XI e na Faculdade de Teologia e Filosofia Paulo VI.


BIBLIOGRAFIA

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FRANÇA MIRANDA, Mario de. Aparecida: a hora da América Latina. São Paulo: Paulinas, 2007.
LIMA, Luiz Alves de, Discipulado e seguimento de Jesus. Algumas considerações a partir da Bíblia e da Teologia. Revista de Catequese 115 (2006), pp. 6-15.
PRATES, Lisaneos. "Fraternidade e Igreja: um caminho de comunhão e participação". In IDEM, Fraternidade libertadora. São Paulo: Paulinas, 2007, pp. 249-397.

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Notas

[1] No interior da grande peregrinação que Cristo, a Igreja e a humanidade realizaram e devem continuar a realizar na história, todo cristão é chamado a inserir-se e participar. O santuário para o qual ele se dirige deve tornar-se por excelência 'a tenda do encontro', como a Bíblia chama ao tabernáculo da aliança. Estas palavras unem diretamente a reflexão sobre a peregrinação àquela sobre o santuário, que é normalmente a meta visível do itinerário dos peregrinos [...]. Assim, 'os santuários são como pedras miliares que orientam o caminho dos filhos de Deus sobre a terra, promovendo a experiência de convocação, encontro e construção da comunidade eclesial [...]. Aliás, a inteira história da Igreja peregrinante pode encontrar-se refletida em numerosos santuários, 'antenas permanentes da Boa Nova, ligados a eventos decisivos da evangelização ou da vida de fé de povos e de comunidades. Todo santuário pode ser considerado portador de uma mensagem precisa, uma vez que nele se representa no hoje o evento que fundou o passado, que continua a falar ao coração dos peregrinos", Cf. Pontifício Conselho para a pastoral dos migrantes e itinerantes, O Santuário. Memória, presença e profecia do Deus vivo. São Paulo: Paulinas, 1999, pg. 5.

[2] Referenciada ao mistério do Pai, a Igreja deverá ser a comunidade dos filhos e filhas do Deus-Pai. Referenciada ao mistério do Filho-Irmão, a Igreja deverá ser a comunidade dos irmão e irmãs do Filho-Irmão. E referenciada ao Espírito Santo, a Igreja deverá ser a comunidade capaz de possibilitar a comunhão e a participação sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, que, sendo a Terceira Pessoa do Mistério Trinitário, deverá ser, na Igreja, o sujeito por excelência que protagonize o caminho da fraternidade-libertadora. Por sua vez, a Igreja – comunidade de filhos-filhas-irmãos-irmãs – deverá protagonizar uma experiência fraternal, tornando-se, assim, ícone do Mistério Trinitário", Cf., PRATES, Lisaneos. Fraternidade libertadora. Uma leitura histórico-teológica das Campanhas da Fraternidade da Igreja no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 253.

[3] "A pobreza da Igreja e de seus membros na América Latina deve ser sinal e compromisso. Sinal do valor inestimável do pobre aos olhos de Deus; compromisso de solidariedade com os que sofrem", Cf. M, 14,4.6.

[4] "Os problemas que afetam a unidade da Igreja provêm da diversidade de seus membros. Esta multidão de irmãos (cf. Rm 8,29) que Cristo reuniu na Igreja não constitui uma realidade monolítica. Eles vivem sua unidade a partir da diversidade com que o Espírito presenteou cada um (1Cor 12,4-6), diversidade que se deve entender como colaboração prestada à riqueza do todo. Esta diversidade pode fundar-se simplesmente na maneira de ser de cada um, na função que a cada um corresponde no interior da Igreja e que distingue nitidamente o papel da hierarquia do papel do laicado. Ou em carisma mais especiais que o Espírito suscita como o da vida religiosa ou outros parecidos. Por isso a Igreja é como um corpo que, gerado constantemente, alimentado e renovado pelo Espírito, cresce na direção da plenitude de Cristo (Ef 4,11-13)", Cf. P 244-245.

[5] "Notamos que uma Igreja inculturada, desdobrada numa ação missionária inculturada, significa uma retomada entre missão universal e fraternidade universal. Sendo a evangelização a mediação eclesial para a referida ação, o(a) missionário(a) deve, constantemente, aprender a arte do diálogo entre o Evangelho e a diversidade cultural. O grande avanço neste contexto é a proposta de uma Igreja missionária caracterizada pelo diálogo com todas as formas de religião presentes na diversidade das culturas dos povos. É o reconhecimento de que nas tradições religiosas existe uma presença difusa do sagrado na expressividade do fenômeno religioso como tal. A missão da Igreja seria captar tal princípio fenomenológico e, paulatinamente, ir demonstrando a especificidade e a peculiaridade do Deus cristão na linha do diálogo inter-religioso", Cf., PRATES, Lisaneos. Fraternidade libertadora, op. cit., p. 302s.

[6] "A pobreza como compromisso, assumida voluntariamente e por amor à condição dos necessitados deste mundo, para testemunhar o mal que ela representa e a liberdade espiritual frente aos bens do Reino. Continua, nisto, o exemplo de Cristo, que fez suas todas as conseqüências da condição pecadora dos homens (cf. Fl 2) e que sendo 'rico se fez pobre' (2Cor 8,9) para salvar-nos", Cf. M, 14,4.3.

[7] "É necessário salientar que o exemplo e o ensinamento de Jesus, a situação angustiosa de milhões de pobres na América Latina, as incisivas exortações do papa e do Concílio, põem a Igreja latino-americana ante um desafio e uma missão a que não pode fugir e à qual deve responder com a diligência e audácia adequadas à urgência dos tempos. Cristo, nosso Salvador, não só amou os pobres, mas também, 'sendo rico se fez pobre', viveu na pobreza, centralizando sua missão no anúncio da libertação aos pobres e fundou sua Igreja como sinal dessa pobreza entre os homens [...]. A Igreja da América Latina, dadas às condições de pobreza e subdesenvolvimento do continente, sente a urgência de traduzir esse espírito de pobreza em gestos, atitudes e normas, que a tornem um sinal mais lúcido e autêntico do Senhor. A pobreza de tantos irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso, esforço e superação para o cumprimento pleno da missão salvífica confiada por Cristo", Cf. M, 14,6.

[8] "A evangelização é um chamado à participação na comunhão trinitária. Qualquer outra comunhão, embora não constitua o destino último do homem, é, animada pela graça, primícias dela. A evangelização leva-nos a participar do gemidos do Espírito, que quer libertar a criação inteira. O Espírito que nos move para esta libertação abre-nos o caminho para unidade de todos os homens entre si e de todos os homens com Deus, até que 'em todos Deus seja tudo' (1Cor 15,28)", Cf. P 218-219.

[9] "Nosso povo latino-americano chama espontaneamente o templo material de 'casa de Deus', porque intui que ali se reúne a Igreja como 'Família de Deus'. É a mesma expressão que a Bíblia usa repetidamente e também o Concílio, para exprimir a realidade mais profunda e íntima do Povo de Deus (Sl 60,8; Dt 32,8s; Ef 2,19; Rm 8,29). Esta visão da Igreja toca profundamente o homem da AL que tem em alta estima os valores da família e que procura com ânsia, em face da frieza crescente do mundo moderno, a maneira de salvá-los. Nota-se uma reação em muitos países tanto no despontar da pastoral familiar quanto na multiplicação das CEBs, onde se torna possível – a nível de experiência humana – uma intensa vivência da realidade da Igreja como família de Deus", Cf. P 238-239.

[10] "O bispo 'pater populi' é um dos rastros históricos mais bonitos e significativos da figura do bispo como pastor identificado com a vida do povo. Em Roma, o papa Fabiano mantinha e hospedava 1.500 pobres. Na época de São João Crisóstomo, a Igreja de Antioquia cuidava de 3.000 pobres. Em Alexandria, o patriarca João mantinha mais de 7.500 pobres. Desde o século III o bispo recebe o título de pater pauperum. Algumas vezes, o bispo precisava proteger ou defender a cidade dos invasores. Era o pater populi, pater civitatis, pater urbis", Cf., COMBLIN, José. Origem e figura do bispo na tradição eclesial, in: ANJOS, Márcio Fabri dos (Ed). Bispos para a esperança do mundo. Uma leitura crítica sobre caminhos de Igreja. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 65s.

[11] "O batismo nos constitui povo de Deus, membros vivos da Igreja. Pela ação do Espírito Santo participamos de todas as riquezas da graça que o Ressuscitado nos doa. É o Espírito que nos dá a possibilidade de reconhecer Jesus como Senhor e nos leva a construir a unidade da Igreja, a partir de distintos carismas que Ele nos confia para 'proveito comum' (cf. 1Cor 12,3-11)", SD 65.

[12] "As estatísticas mostram com eloqüência que na última década as situações de pobreza cresceram tanto em números absolutos como relativos. A nós, pastores, comove-nos até as entranhas ver continuamente a multidão de homens e mulheres, crianças e jovens e anciãos que sofrem o insuportável peso da miséria, assim como diversas formas de exclusão social, étnica e cultural; são pessoas humanas concretas e irrepetíveis que vêem seus horizontes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida", SD 179b.

[13] Cf., BRIGHENTI, Agenor. Por uma evangelização inculturada. Princípios pedagógicos e passos metodológicos. São Paulo: Paulinas, 1998.

[14] "Como nos recordam as palavras de Jeremias, mencionadas também no ensinamento de Jesus, o templo, sem a fé e sem o empenho pela justiça, reduz-se a um 'covil de ladrões' (cf. Jr 7,11; Mt 21,13). Os santuários mencionados por Amós não têm sentido, se neles não se procura verdadeiramente o Senhor (cf. Am 4,4; 5,5-6). A liturgia sem uma vida baseada na justiça transforma-se numa farsa (cf. Is 1,10-20; Am 5,21-25; Os 6,6). A palavra profética chama o santuário à sua inspiração, despojando-o do sacralismo vazio, da idolatria, para o tornar semente fecunda da fé e de justiça no espaço e no tempo. Eis, então, que o santuário, memória da nossa origem junto do Senhor, se torna o contínuo apelo ao amor de Deus e à partilha dos dons recebidos. A visita ao santuário mostrará então os seus frutos, de modo particular no empenho caritativo, na ação pela promoção da dignidade humana, da justiça e da paz, valores para os quais os crentes se sentirão chamados de modo novo", Cf. Pontifício Conselho para a pastoral dos migrantes e itinerantes, op. cit., p. 22s.

[15] "Ícone vivo desta esperança é sobretudo a presença nos santuários dos doentes e daqueles que sofrem. A meditação da ação salvífica de Deus ajuda-os a compreender que, através dos seus sofrimentos, eles participam de maneira privilegiada na força sanadora da redenção realizada em Cristo e proclamam diante do mundo a vitória do Ressuscitado. Ao lado deles, todos os que os acompanham e os assistem com caridade operosa são testemunhas da esperança do Reino, inaugurado pelo próprio Senhor Jesus a partir dos pobres e dos que sofrem: 'Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada ao pobres' (Lc 7,22), Idem, p. 40s.

[16] Estamos utilizando esta expressão conforme o sentido que aparece na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte do Papa João Paulo II, onde se afirma: "No início do novo milênio, quando se encerra o Grande Jubileu em que celebramos os dois mil anos do nascimento de Jesus e um novo percurso de estrada se abre para a Igreja, ressoam em nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado às multidões da barca de Simão, convidou o Apóstolo a 'avançar para águas mais profundas' e a lançar as redes para a pesca: 'Duc in altum' (Lc 5,4). Pedro e os primeiros companheiros confiaram na palavra de Cristo e lançaram as redes. 'Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe' (Lc 5,6)", Cf. n. 1. Esta bonita intuição de João Paulo II foi retomada da seguinte forma pelo DP: "Remaremos mar adentro e lançaremos as redes em nome do Senhor Jesus, confinando em sua palavra, como discípulos e missionários dele, navegando com freqüência contra a corrente, mas com simpatia por cada pessoa, criada e recriada à imagem e semelhança de Deus, que tem sede de sua paternidade, de humanidade e de fraternidade", Cf. DP, 94.

[17] "Aquele que no Antigo Testamento é o Templo de Jerusalém, no Novo Testamento encontra o seu cumprimento mais alto na missão do Filho de Deus, que se torna o novo Templo, a habitação do Eterno entre nós, a aliança em pessoa. O episódio da expulsão dos vendedores que estavam no templo (cf. Mt 21,12-13), proclama que o espaço sagrado, por um lado, se dilatou a todas as nações – como confirma também o particular de grande valor simbólico do véu do templo 'que se rasgou em duas partes, de alto a baixo' (Mc 15,38); por outro, se concentrou na pessoa daquele que, vencedor da morte (cf. 2Tm 1,10), poderá ser para todos o sacramento do encontro com Deus", Cf. Pontifício Conselho para a pastoral dos migrantes e itinerantes, op. cit., p. 13s.

[18] Dita questão determinante para o caminhar da Igreja na direção de Aparecida também pode ser vista da seguinte forma: "O DP, ao fazer uma retrospectiva histórica do caminhar da Igreja para identificar os sinais de esperança presentes nela hoje (n. 34), apresenta uma vasta relação de realidades eclesiais, mas com silêncios, que precisam ser rompidos. Por exemplo: não se faz menção das anteriores quatro Conferências gerais do episcopado latino americano, com seu rico magistério, uma tradição que não se pode perder; não se faz menção aos mártires da causas sociais, na luta pela justiça, que foram milhares e é o que a Igreja na América Latina, sem dúvida, tem de mais preciso; no campo da pastoral social, não se menciona o trabalho com a ecologia, os operários, os campesinos, os menores, os idosos, as mulheres marginalizadas, os enfermos, etc.; as Cebs são citadas como uma estrutura de participação, desprovidas de seu espírito e de sua novidade eclesiológica, apenas mediação para se obter comunidades pequenas; a rica contribuição da reflexão bíblico-teológica é apenas citada de passagem ao mencionar o "conteúdo evangélico e teológico da libertação". Ora, juntamente com nossos mártires, temos igualmente uma teologia mártir que, apesar de seus reconhecidos limites, confere ao nosso Continente uma tradição própria no interior da Tradiçao da Igreja como um todo, na medida em que tese como opção pelos pobres, pecado social, fé e práxis, única história, libertação como salvação etc. enriquecem toda e qualquer teologia", Cf., BRIGHENTI, Agenor. Rumo à Vª Conferência do CELAM. In REB 262 (2006), p. 331s.

[19] Nesta linha de pensamento é extremamente oportuna e importante a seguinte afirmação do Papa Bento XVI: "O amor a Deus e o amor ao próximo estão agora verdadeiramente juntos: o Deus encarnado atrai-nos todos a Si. Assim se compreende por que o termo agape se tenha tornado também um nome da Eucaristia: nesta a agape de Deus vem corporalmente a nós, para continuar sua ação em nós e através de nós. Só a partir desta fundamentação cristológico-sacramental é que se pode entender corretamente o ensinamento de Jesus sobre o amor. A passagem que Ele faz realizar da Lei e dos Profetas ao duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo, a derivação de toda a vida de fé da centralidade deste preceito não é uma simples moral que possa, depois, subsistir autonomamente ao lado da fé em Cristo e da sua reatualização no Sacramento: fé, culto e ethos compenetram-se mutuamente como uma única realidade que se configura no encontro com a agape de Deus. Aqui, a habitual contraposição entre culto e ética simplesmente desaparece. No próprio "culto", na comunhão eucarística, está contido o ser amado e o amar, por sua vez, os outros. Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido, é em si mesma fragmentária", Cf., Carta Encíclica Deus caritas est, n. 14.

[20] Sintetizando as contribuições da Igreja no Brasil a CNBB indica os seguintes "referenciais irrenunciáveis para a caminhada da Igreja hoje": a) As opções fundamentais do Concílio Vaticano II: o primado absoluto da Palavra, a afirmação da base laical da Igreja, a redescoberta da colegialidade eclesial e a presença da Igreja no mundo, em uma relação de diálogo e serviço; b) A caminhada da Igreja na América Latina, em especial as opções fundamentais de Medellín (pelos pobres, pela libertação, pelas CEBs, pela centralidade da justiça social, por uma Igreja profética); de Puebla (opção evangélica pelos jovens, pela comunhão e participação, pela defesa da dignidade da pessoa humana); de Santo Domingo (pela inculturação, pelo protagonismo dos leigos, pela solidariedade latino-americana e mundial, pela leitura da realidade a partir dos sinais dos tempos); c) A importância da colegialidade entre as Igrejas Locais, em especial em âmbito nacional (Conferências Episcopais Nacionais) e continental (Conferências dos Bispos da América Latina e o Caribe)", Cf., CNBB. Síntese das contribuições da Igreja no Brasil à Conferência de Aparecida, in www.cnbb.org.br, p. 25s.

[21] Eis algumas observações sobre o método: "a) O enfoque dedutivo e a-histórico do Documento de Participação mais desmobiliza que anima para missão; b) Não parte do ser humano concreto, que vive em nosso Continente, mas de um ser genérico, uma categoria abstrata; c)Não faz da realidade lugar da presença do Espírito e do Reino, por isso, não consegue detectar os verdadeiros 'sinais dos tempos' para a América Latina, hoje". A seguir algumas sugestões: d) "Fazer da realidade sócio-cultural o ponto de partida da reflexão e da ação evangelizadora, uma leitura na ótica das grandes maiorias empobrecidas e, dentre elas, os grupos que mais sofrem – mulheres, populações indígenas, afro-descendentes, jovens, desempregados, migrantes, etc. e) Que a Conferência de Aparecida resgate o método ver-julgar-agir para garantir um diagnóstico mais objetivo da realidade, uma iluminação atualizada da mesma e um compromisso pastoral como resposta a perguntas concretas", Cf., IDEM, p. 26.

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