A PRESENÇA DOS MONGES BENEDITINOS NA SÃO PAULO COLONIAL (1598 – 1792)

A PRESENÇA DOS MONGES BENEDITINOS
NA SÃO PAULO COLONIAL (1598 – 1792)

Cristina Toledo de Carvalho

 

RESUMO

A pesquisa revela a grande influencia dos beneditinos no Brasil e na São Paulo colonial. São revelados diversos aspectos da historia da Ordem de São Bento e suas particularidades no período retratado: São Paulo colonial.

Palavras-chave: Beneditinos, São Paulo, Catolicismo.

 

ABSTRACT

Our research reveals the significant influences of the Benedictine Order in Brazil and in colonial Saint Paulo. Several aspects of the history of St. Benedict's Order are revealed and particularities of the period the portrayed: colonial Sao Paulo.

Key words : Benedictine Order, Sao Paulo, Catholicism.

INTRODUÇÃO

O texto a seguir apresentará alguns aspectos da presença dos monges beneditinos na São Paulo dos tempos coloniais (1598 – 1792). Desta forma, procurou-se resgatar as principais informações concernentes àquela presença. Nesta tentativa, inúmeros fatos históricos envolvendo tais religiosos vieram à tona. Fatos que se mostraram, em alguns momentos da narrativa, reveladores, e em outros, curiosos. Dentre estes últimos, podem ser encontrados os que ratificam a existência de laços de amizade entre os beneditinos e certos personagens da história colonial de São Paulo, como Fernão Dias Paes Leme.

Além de ter apontado tais fatos, esta pesquisa comprovou, ainda, o caráter empreendedor da presença beneditina, não só na São Paulo colonial, como também nas suas adjacências.

Todas estas questões poderão ser apreciadas a seguir. Porém, antes de revelá-las de imediato, serão feitas preliminarmente algumas breves considerações acerca da fundação da Ordem de São Bento, bem como de sua estrutura e de seu estabelecimento no Brasil.


BREVES CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS SOBRE A ORDEM DE SÃO BENTO

O PATRIARCA E A FUNDAÇÃO DA ORDEM

São Bento, o grande patriarca da Ordem Religiosa ora analisada, nasceu na cidade de Núrsia, situada na região de Úmbria, Itália, no ano de 480 d.C. Após abandonar a casa do pai e renunciar à riqueza, Bento de Núrsia entregou-se ao eremitismo, dando, assim, início à sua vida de monge solitário. A partir de então, passou a viver em uma caverna nas montanhas de Subiaco, local no qual estabeleceu um mosteiro que, posteriormente, acabou originando a fundação de outros doze na região. São Bento dava, desta forma, início à sua vida monástica em comunidade.[1]

Ao deixar a região de Subiaco, este patriarca, auxiliado por outros cristãos, concluiu a construção, em 529 d.C., do célebre Mosteiro de Monte Cassino, iniciando, logo em seguida, a difusão de seu estilo monástico. [2] Este, por sua vez, passou a ser regido por um conjunto de preceitos, elaborado por São Bento no século VI, ao qual se convencionou chamar de Santa Regra. Tais preceitos passaram, neste momento, a constituir os fundamentos da recém criada Ordem Beneditina.

A EXPANSÃO DOS PRECEITOS BENEDITINOS PELO MUNDO OCIDENTAL

A Ordem de São Bento expandiu-se pelo mundo ocidental através da divulgação da Santa Regra que, segundo consta, foi realizada pelo terceiro abade do Monte Cassino. [3] Afirma Dom A.R. Arrufat que "juntamente com o (...) factor da expansão da S. Regra, operou (...), a intensidade do apostolado benedictino nos paizes europeus. Com effeito, ao penetrarem em novo território, o primeiro cuidado dos monges era a construcção de um mosteiro, a fim de assegurar o futuro da obra que iam empreender em prol da fé e da civilização." [4]

A ESTRUTURA DA ORDEM

A princípio, cada mosteiro construído deveria constituir uma família autônoma. Esta orientação estrutural, porém, modificou-se no momento em que as abadias, ou seja, os mosteiros maiores e independentes, passaram a fundar priorados ou mosteiros menores, dependentes daquelas abadias. Estava, desta forma, instituído o sistema de congregações, considerado reflexo de uma idéia prevista no Capítulo 66 da Santa Regra de São Bento, idéia esta que enaltecia a auto-suficiência dos mosteiros para evitar o contato com o mundo exterior. [5]

No sistema estrutural da Ordem Beneditina, as congregações são unidas pelo vínculo de lealdade para com aquela Regra, ao contrário do que acontece, por exemplo, com os jesuítas e com os dominicanos, que têm um sistema de autoridade centralizado na figura de um chefe ou superior comum. [6]

A CHEGADA DOS MONGES BENEDITINOS NO BRASIL

No Brasil, o estabelecimento dos monges beneditinos verificou-se na penúltima década do século XVI. A Congregação Beneditina de Portugal, fundada em 1566 pela Bula do Papa Pio V, enviou a Salvador o primeiro grupo de monges. Sob o comando do padre Fr. Antônio Ventura do Laterão, os religiosos de São Bento deram início a um árduo trabalho na região, coroado, já no ano de 1584, com a elevação do mosteiro de Salvador à categoria de abadia.

"A fama da bôa observância dos monges (...)" [7] espalhou-se, então, pelo território brasileiro. Em 1598, alguns anos após o estabelecimento da Ordem nas regiões de Olinda (1590 ou 1592), Rio de Janeiro (1586, provavelmente) e da Paraíba do Norte (1596), os beneditinos chegam, finalmente, a São Paulo.

O ESTABELECIMENTO DA ORDEM DE SÃO BENTO EM SÃO PAULO

Coube ao padre Fr. Mauro Teixeira, citado anteriormente, a incumbência de fundar um mosteiro no território paulistano. Para tanto, a Câmara da Vila de São Paulo concedeu-lhe uma área que, anteriormente, havia sido a aldeia do cacique Tibiriçá, considerado um dos fundadores daquela Vila. A este respeito assim pronunciou-se o historiador Afonso de Taunay: "O local concedido a S. Bento era o mais illustre da villa, depois do do Collegio, o lugar onde se assentara a taba do velho Tibiriçá, o glorioso índio que realisara a approximação euroamericana e permittira o surto da civilisação no planalto, salvando S. Paulo da aggressão tamoya de 1562." [8]

Uma humilde capela dedicada a São Bento foi, então, edificada por Fr. Mauro Teixeira no local descrito acima. Alguns anos mais tarde, esta mesma capela deu origem ao Mosteiro, apontado por Dom Martinho Johnson como a instituição mais antiga de São Paulo. [9]

A ABADIA PAULISTANA

Nas primeiras décadas do século XVII, a comunidade beneditina de São Paulo já apresentava sinais de crescimento. Uma certidão da Câmara de Piratininga, de 1630, atestou isso ao ter relatado a chegada de mais quatro religiosos na Vila de São Paulo. Conforme consta, tais religiosos sucederam aqueles que, em 1610, aqui chegaram com o novo governador da Capitania, D. Francisco de Sousa, com a missão de dar início à construção do Mosteiro. [10]

A intensificação da vida monástica no planalto paulista criou, desta forma, condições para a elevação da comunidade à categoria de abadia, fato este assegurado por força do Capítulo Geral de 1635.

Nascia, assim, a Abadia de São Paulo. Nos primeiros oitenta e cinco anos de sua existência, a mencionada abadia teve como padroeira Nossa Senhora de Monserrate, de quem aquele governador era grande devoto. A partir de 1720, a Abadia paulistana passou a chamar-se Nossa Senhora da Assunção, por ocasião da solicitação feita junto ao abade geral por um devoto, o português José Ramos da Silva Filho, um dos principais benfeitores dos beneditinos de São Paulo, no entender de Dom Joaquim G. de Luna. [11]


ALGUMAS CURIOSIDADES RELATIVAS À PRESENÇA BENEDITINA NO TERRITÓRIO PAULISTANO

A presença da comunidade beneditina no período colonial da história de São Paulo pode ser comprovada por documentos de natureza e origem diversas. Estes, por sua vez, trouxeram à tona fatos curiosos, como os relativos ao episódio da aclamação a Amador Bueno, e também inúmeras informações preciosas, como as concernentes aos laços de amizade mantidos ente os religiosos e o famoso bandeirante Fernão Dias Paes Leme.

A ACLAMAÇÃO A AMADOR BUENO

A aclamação a Amador Bueno, episódio pitoresco da história do Brasil, no dizer de Afonso de Taunay,[12] pode ser concebida como uma reação de um grupo de espanhóis, residentes em território paulistano, frente à restauração de Portugal, após sessenta anos de submissão à Espanha (1580-1640).

A notícia da ascensão de Dom João IV ao trono lusitano chegou à Vila de São Paulo provavelmente, de acordo com os relatos de alguns historiadores, entre a segunda quinzena de março e três de abril de 1641. Provocou ela grande repercussão, sobretudo entre os espanhóis que se encontravam estabelecidos na dita vila. A partir de então, trataram de articular um plano que pudesse recolocá-los na situação de subordinação em que se achavam em relação à Coroa espanhola, durante a vigência da União Ibérica. Desta forma, como bem relatou o ilustre cronista Fr. Gaspar da Madre de Deus, "tinham por certo que a Capitania de S. Vicente e quasi todo o sertão brazilico, antes de muitos annos tornariam a unir-se às Índias de Hespanha ou pela força das armas, ou pela industria, se os paulistas cahissem no desaccordo de se desmembrarem de Portugal, erigindo um Governo separado, qualquer que elle fosse, suposta a communicação que havia por diversos rios entre as Villas de Serra acima e as Províncias da Prata e Paraguay." [13]

Os espanhóis, na ânsia de verem seus intentos concretizados, aclamaram Amador Bueno de Ribeira a rei dos paulistanos. Membro da elite da Vila de São Paulo, por força dos altos cargos públicos que ocupou, aqueles julgavam-no com sendo "o mais digno da Coroa (...), em cuja pessoa, (...), concorriam as circunstâncias de ser de qualificada nobreza,(...)" [14] Vale, neste sentido, deixar claro também que sobre a escolha dos espanhóis pesou significativamente o fato de Amador Bueno ter ascendência espanhola, o que por conseqüência o tornaria vassalo da Espanha.

O PAPEL DOS RELIGIOSOS NESTE EPISÓDIO

Segundo consta, os planos espanhóis repercutiram entre boa parte dos moradores da Vila de São Paulo que, persuadidos, passaram a reverenciar Amador Bueno como rei. Atônito diante desta situação, tentou ele convencê-los da insensatez. Seus esforços, todavia, foram em vão, como demonstram as seguintes considerações: "Vendo-se nesta consternação, o fiel vassallo sahiu de sua casa furtivamente (...), caminhou apressado para o Mosteiro de São Bento, onde intentava refugiar-se." [15]

A intervenção dos beneditinos neste fato curioso da história colonial de São Paulo foi assim narrada por Fr. Gaspar da Madre de Deus: "Desceu à portaria o D. Abbade acompanhado da sua Communidade e com attenções entreteve a multidão, emquanto Amador Bueno de Ribeira mandou chamar com pressa os ecclesiasticos mais respeitaveis, (...) Vieram logo uns e outros, e todos unidos ao dito Bueno fizeram comprehender aos circumstantes, que o Reino pertencia à Serenissima Casa de Bragança (...)" [16]

A concepção de Fr. Gaspar da Madre de Deus sobre a aclamação a Amador Bueno, embora tenha sido refutada por certos historiadores consagrados, como Varnhagen,[17] não se pode ignorar o papel relevante que ela atribuiu aos religiosos de São Bento no desfecho do episódio ora em questão. Com base na análise do relato descrito logo acima conclui-se que tais religiosos exerciam considerável influência sobre os moradores da Vila de São Paulo, uma vez que "(...) arrependidos do seu desaccordo foram cheios de gosto acclamar solennemente o Senhor D. João IV (...)" [18]

Sendo assim, foram mandados a Portugal Luiz da Costa Cabral e Balthazar de Borba Gato com a incumbência de jurarem fidelidade àquele rei, em nome do povo de Piratininga.

FERNÃO DIAS PAES LEME

Foi Fernão Dias Paes Leme um dos personagens mais notáveis da história colonial de São Paulo. Nasceu em território paulistano em 1608, onde firmou-se como homem público, em virtude dos altos cargos que aí ocupou. Em 1639, já despontava como capitão das ordenanças e, alguns anos mais tarde, ou seja, em 1651, foi eleito juiz ordinário.

As conjunturas econômicas vigentes na Vila de São Paulo que, diga-se de passagem, se contrastavam com as do centro da exploração colonial, transformaram Fernão Dias num ambicioso desbravador dos sertões brasileiros. Na busca incessante por índios e metais preciosos, este bandeirante comandou a exploração de territórios que, atualmente, compõem as regiões do Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia e Minas Gerais. [19]

Foi durante uma sacrificante jornada de volta de uma expedição, organizada em 1673, que faleceu Fernão Dias Paes Leme. De acordo com certos registros, organizou ele a referida expedição com o intuito de encontrar as tão sonhadas pedras preciosas. Para tanto, "durante muito tempo vagou pelas matas sem obter resultados. A demora fez com que boa parte de seus homens desistisse da empreitada. O bandeirante, contudo, mandando vir recursos de São Paulo, insistiu no propósito e encarando várias adversidades, encontrou as jóias que tanto procurava. O esforço, entretanto, foi em vão: Fernão Dias Paes Leme, enfraquecido pelos inúmeros percalços, não suportou a jornada de volta, falecendo às margens do rio das Velhas. A morte poupou-lhe da decepção de descobrir que o tesouro trazido das matas não se constituía de esmeraldas, mas de pedras menos valorosas." [20]

SUAS BENFEITORIAS À COMUNIDADE BENEDITINA

O abade do Mosteiro do Rio de Janeiro, Fr. João da Victoria, alertou a Câmara de São Paulo a respeito do "(...) estado de penúria em que viviam os beneditinos de Piratininga" [21], através de uma carta datada de 21 de abril de 1646.

Fernão Dias Paes Leme, sensibilizado diante das precárias condições apresentadas pelo Mosteiro, comprometeu-se em construir uma nova igreja para a comunidade beneditina de São Paulo. Tal obrigação foi firmada no dia 17 de janeiro de 1650, nos seguintes termos:

"Saybam quantos este publico Instrumento de Contrato e compozição, deste dia p .ª todo sempre virem q no anno do nascimento de Nosso Snr. Jezu Christo de mil, e seis centos e sincoenta annos aos desasete dias do mez de Janr ° . Do d ° . anno desta vila de S. Paulo da Capitania de S. Vicente Estado do Brazil & ª. nesta dita villa no Convento do Patriarca Sam Bento aonde eu Tabalião fui chamado; ahy estavão prezentes (...) o Doutor Fr. Gregorio de Magalhaens, e o P. Prez. Fr. Feliciano de Santiago, e o Prior Fr. Jerônimo do Rozario, e os mais Religiozos (...); e bem asim estava prezente o Capitão FernãoDiasPaes morador nesta dita villa; e logo pelo d.º Padre (...) e mais Padres do d.º Convento foy dito a mim Tabalião (...), q elles estavão concertados, e compostos de mão commum, e boa conformidade com elle dito Capitão Fernão Dias Paes, q elle lhe fazia a Igreja nova (...), por cujo beneficio, q lhes asim fazia, elles ditos Padres (...) e mais religiozos lhes davão a Capela mor da d.ª Igreja p.ª elle, e p.ª todos seus herdr.º edescendentes, (...) serem sepultados, (...)" [22]

Em tal contrato, Fernão Dias Paes Leme comprometeu-se também em doar anualmente aos beneditinos de São Paulo oito mil réis para a conservação da Capela mor, onde teria sepultura. Conforme consta, esta quantia deveria sair de um sítio localizado no Tijucuçu, região que constitui hoje parte das áreas compreendidas pelo município de São Caetano do Sul. Para honrar, então, o mencionado compromisso, aquele bandeirante adquiriu tal sítio num leilão e o doou à comunidade beneditina, em 1671.

Este fato despertou a atenção do famoso historiador Sérgio Buarque de Holanda que, ao escrever sobre Fernão Dias, assim manifestou-se quanto àquela doação: "Conhecendo, porém, que eram onerosas e inseguras essas anuidades, pois poderiam faltar por sua morte, comprou em praça, para patrimônio e renda certa da casa, um sítio no Tijucuçu, anexo às terras que por aquelas bandas já possuíam os beneditinos, e que tudo junto constituiria a fazenda de São Caetano." [23]

Os empreendimentos que os monges de São Bento comandaram nesta fazenda, bem como os contatos dela com a Vila de São Paulo, serão cuidadosamente abordados mais adiante.

A GRATIDÃO DOS RELIGIOSOS BENEDITINOS

Sérgio Buarque de Holanda intervém, mais uma vez, com maestria ao afirmar que "(...) tão à risca foi cumprida a cláusula que morrendo Fernão Dias Pais no sertão do rio das Velhas, (...), cuidou logo o filho primogênito, Garcia Rodrigues Pais, de fazer embalsamar seu corpo e, (...), trazê-lo do lugar do Sumidouro, onde se encontrava, para vir sepultá-lo no jazigo que lhe foi designado na capela-mor de São Bento." [24]

Sob o comando do abade Dom Miguel Kruse, o famoso bandeirante foi homenageado pelos beneditinos de São Paulo. Em sinal de gratidão, tais religiosos esculpiram a efígie de Fernão Dias Paes Leme no exterior da atual Igreja abacial, levantada pelo referido abade e inaugurada, em 1922, pelo Cardeal Legado Papal, Dom Aidano Gasquet, (O.S.B.).[25]

Uma placa de bronze foi também colocada na sepultura do bandeirante, que se acha quase no meio da nave central da atual Basílica de São Bento. Estas são as inscrições nela contidas:

"Sepultura de

Fernão Dias Paes Leme

Governador das Esmeraldas

Nascido em 1608 e Fallecido em 1681

E de sua Mulher Maria Garcia Betim

Fallecida em 1691

Grandes Bemfeitores desta

Abbadia para este Jazigo lhes

Trasladou-os Restos Mortaes

A Gratidão Benedictina

Agosto 1922" [26]

 

AS ATIVIDADES DOS MONGES DE SÃO BENTO EM SÃO PAULO E NAS SUAS ADJACÊNCIAS

Em primeiro lugar, cabe deixar claro que as atividades desenvolvidas pelos monges de São Bento não só em São Paulo, como também em outra regiões brasileiras, devem ser classificadas como: internas e externas. Neste sentido, adverte Dom Joaquim G. de Luna que as primeiras dizem respeito às obrigações da vida monástica, tais como o estudo da Sagrada Escritura, as meditações, os exercícios de austeridade e as mortificações, enfim, tudo o que se refere às observâncias inerentes à vida contemplativa. [27] Por outro lado, entre as atividades externas estão as obrigações concernentes ao apostolado, tais como a cura de almas, a vida paroquial, a educação da juventude, a vida missionária e a catequese dos índios. [28] Por fim, compunham também as chamadas atividades externas, os empreendimentos dos monges nas suas inúmeras fazendas. [29]

A CATEQUESE DOS INDÍGENAS

A situação calamitosa em que se encontravam as aldeias indígenas de São Paulo, no final do século XVII, levou o rei lusitano, Dom Pedro II, a determinar a subordinação das mesmas à jurisdição temporal e espiritual de certas Ordens religiosas. Aos monges beneditinos foi entregue a aldeia do sítio dos Pinheiros. Infelizmente, poucas são as informações existentes quanto à catequese realizada pelos religiosos de São Bento em tal aldeia. Sabe-se, porém, que estes religiosos a regeram durante seis décadas.

A renda anual que os monges recebiam da Coroa, por ocasião dos trabalhos de catequese dos índios, era irrisória. Este fato revela a dura realidade vivenciada não só pelos beneditinos, mas também por todo o clero do Brasil-colônia, uma vez que constituiu fruto das sujeições impostas à Igreja Católica pelo Padroado. Tal instituto, originário das concessões feitas, no século XVI, pela Santa Sé aos monarcas portugueses, submeteu a Igreja do império lusitano ao poder real. Desta forma, este poder passou a intervir, de um modo geral, nas questões eclesiásticas, o que acabou gerando sérias conseqüências. Dentre estas, uma das mais perversas talvez tenha sido a dependência econômica da Igreja em relação ao aparelho estatal, visto que o clero era pago pela Fazenda real.

As considerações feitas acima explicam, portanto, o porquê de a Ordem de São Bento ter possuído inúmeras fazendas na América portuguesa. Tais fazendas, na medida em que absorviam os esforços dos beneditinos, esforços estes traduzidos por empreendimentos diversos, acabaram assegurando-lhes um patrimônio próprio. Só nas adjacências de São Paulo, há documentos que confirmam a existência de pelo menos três fazendas beneditinas: a de São Bernardo, a de Jurubatuba e a de São Caetano.

Somente esta última será tratada aqui, pois entre os bens rústicos dos beneditinos de São Paulo era a que sobressaía. [30]

A FAZENDA DE SÃO CAETANO

Por 246 anos, mais precisamente entre 1631 e 1877, uma parcela do atual município de São Caetano do Sul serviu de palco para os empreendimentos dos monges da Ordem de São Bento. As terras sobre as quais estes monges formaram a fazenda em questão localizavam-se entre o Córrego do Moinho ou Córrego Ressaca (São Caetano do Sul) e o Ribeirão do Moinho Velho, em São Paulo. Tais terras ficaram conhecidas, durante boa parte da dominação portuguesa no Brasil, como Tijucuçu. Segundo consta, esta palavra de origem tupi significa grande lamaçal, barreiro grande, charco, atoleiro, "(...) por causa das várzeas barrentas e alagadiças que havia nos vales dos atuais rios Tamanduateí e Meninos." [31] Em épocas de chuva, estes rios transbordavam, deixando as terras próximas às suas margens alagadas.

A capela edificada em louvor a São Caetano, entre 1717 e 1720, fez com que o aludido santo passasse a designar a fazenda beneditina do Tijucuçu, que se formou a partir de duas doações.

A primeira delas foi feita no dia dezenove de setembro de 1631 pelo Capitão Duarte Machado, conforme atesta a escritura abaixo:

"Saibam quantos este publico instrumento de escritura de doaçam de terras e citio de tujucusú de hoje para todo sempre virem como no anno do nascimento de nosso Senhor Jezu Christo de mil e seis centos e trinta e hum annos em os dezanove dias do mez de Setembro (...) nesta vila de Santa Anna das Cruzes de Mogy da Capitania de Sam Vicente (...) Nesta dita vila nas pouzadas do Capitam Duarte Machado aqui morador donde eu Gaspar dos Reis escrivam da camara desta dita vila fui chamado a escrever no publico (...)estando ahi o dito Capitam Duarte Machado e bem sua mulher Joana Sobrinha e por eles ambos me foi dito (...) que eles tem por sua no termo da vila de Sam Paulo huãs cazas e citio e asim mais outro sitio pegado com ele cercado de valado no campo e terras de sismaria anexas a eles e capoens o que tudo huma couza, e outra davam e faziam doaçam (...) ao Reverendo Padre (...) do Convento do Patriarca Sam Bento o Snr. Joam Pimentel da Rocha (...) e pelo teor desta escritura de adoaçam se pode o dito Snr. meter de posse do ditocitio e terras declaradas (...)" [32]

A segunda doação de terras ao patrimônio dos beneditinos de São Paulo foi feita em 1671 por Fernão Dias Paes Leme. Como já foi dito anteriormente, tal doação foi determinada por um acordo que este fizera com aqueles religiosos, "(...) o qual tinha obrigação de dar anualmente para adorno da Capella Mór 8$000 (...)" [33]

Os Principais Empreendimentos dos Beneditinos

Há indícios de que, logo após esta segunda doação, os religiosos começaram a canalizar os esforços necessários para o desenvolvimento da recém formada fazenda do Tijucuçu. Estes esforços culminaram com a construção de um forno e olaria, em 1730. A partir deste momento, a fazenda de São Caetano tornou-se produtora de telhas e tijolos.

Alguns anos depois, a atividade oleira firmou-se de tal modo nesta fazenda que passou, até mesmo, a polarizar as decisões dos monges. Enquadra-se, portanto, neste contexto, a proposta de construção de uma segunda olaria na fazenda de São Caetano, feita pelo abade José de S. Domingos ao Conselho do Mosteiro. A referida proposta encontra-se assim disposta no livro deste Conselho:

"A 29 de abril de 1757 propôs ao Conselho o D. Abbade a construcção d uma segunda Olaria em São Caetano – visto ser procurada na cidade a cerâmica alli feita, (...)" [34]

A construção desta segunda olaria possibilitou à fazenda diversificar sua produção que, a partir de então, passou a compreender não só tijolos de alvenaria, mas também lajotas, telhas, ladrilhos, telhões para canalização de água e louças vidradas como pratos, panelas, potes, bacias e alguidares, além de obras de arte. Constatou-se que o material utilizado na fabricação destas louças provinha do Rio de Janeiro. Documentos de contabilidade comprovam a compra de chumbo, tinta para decoração. [35]

Pelas razões expostas, as atividades das olarias da fazenda de São Caetano chamaram a atenção do governador da Capitania de São Paulo, Dom Luís Antônio de Sousa, o Morgado de Mateus, que assumiu o cargo em 1765, ano que marcou o restabelecimento da dita Capitania.[36] Este governador, segundo José de Souza Martins, chegou a enviar amostras dos materiais produzidos nas fábricas oleiras de São Caetano ao rei de Portugal. Tentava, assim, Morgado de Mateus sensibilizá-lo quanto à "possibilidade de desenvolvimento de indústrias desse tipo aqui na área." [37]

Os esforços deste governador foram, evidentemente, em vão, pois nenhum apoio fora concedido por Portugal às olarias situadas nas terras beneditinas do Tijucuçu. A negligência lusitana torna-se compreensível se for levado em consideração que, durante a segunda metade do século XVIII, as iniciativas metropolitanas estavam única e exclusivamente voltadas para os grandes centros mineradores brasileiros.

AS ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Já ficou bastante claro que a principal atividade econômica comandada pelos monges naquelas terras era a produção oleira. Não se pode, contudo, ignorar as demais atividades que despontaram no interior da fazenda de São Caetano. O fato destas atividades terem sido destinadas à subsistência dos moradores da citada fazenda, acabou determinando o caráter complementar das mesmas.

Os gêneros agrícolas cultivados no Tijucuçu eram feijão, milho, mandioca para farinha, hortaliças e frutas, como banana e laranja. No tocante às hortaliças, vale ressaltar que havia uma grande plantação delas, que era cercada e irrigada por um canal que trazia água de quase um quilômetro de distância.

Integravam, ainda, as atividades complementares, o corte de lenha para os fornos das olarias e da cozinha, a extração de madeira para a construção de casas e carros de bois e, por fim, a extração de pedra para cantaria.

OS CONTATOS ENTRE A FAZENDA DE SÃO CAETANO E SÃO PAULO

Muitas das telhas produzidas nas olarias da fazenda de São Caetano foram empregadas na reforma do Palácio do Governo, em 1792. Neste mesmo ano, foram utilizados no Chafariz da Misericórdia telhões para a canalização de água fabricados naquela fazenda. Dela também saíram materiais que foram empregados nas construções de muitos edifícios da São Paulo colonial.[38] De acordo com Afonso de Taunay, estavam entre tais edifícios os conventos de São Francisco e de Santa Thereza, cujos religiosos solicitaram tijolos e telhas junto aos beneditinos, no que foram atendidos a 29 de agosto de 1757.[39] Em 1781, a Ordem Terceira da Penitência de São Francisco comprou 7.400 telhas da fazenda de São Caetano para cobrir um sobrado que fora construído ao lado da Igreja de São Pedro, no Largo da Sé.[40]

A fazenda de São Caetano, portanto, fornecia tijolos para toda a São Paulo colonial, o que pôde ser constatado acima. Todos os materiais oriundos de suas olarias eram para lá transportados através do rio Tamanduateí, pelo qual passavam as canoas remadas pelos escravos. No período das cheias, os beneditinos utilizavam uma canoa grande de 10 metros de comprimento, enquanto que no tempo da seca, duas canoas eram suficientes.

Os materiais contidos nestas canoas, ao chegarem em São Paulo, eram descarregados pelos escravos em Porto Geral. Sérgio Buarque de Holanda relatou estes procedimentos da seguinte maneira: "(...) costumavam ser transportados pelo rio Tamanduateí mantimentos para serviço do mosteiro e dos moradores. Vinham em monóxilas, isto é feitas de um tronco escavado, muito longas e estreitas, até um desembarcadouro que se chamou por muito tempo o Porto de São Bento ou Porto Geral de São Bento, de onde os produtos eram levados em ombros de índios ou negros por uma rampa muito íngreme que terminava no Largo do Rosário, hoje praça Antonio Prado. Partedessa rampa, que vai ter à atual rua da Boa Vista, subsiste ainda com o nome de Ladeira do Porto Geral." [41]

Cristina Toledo de Carvalho
Licenciada em Historia pela Universidade do Grande ABC. Pesquisadora da Fundação Pro-Memoria de São Caetano do Sul/SP

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Notas


[1]
ARAÚJO, André de. Bibliotecas Monásticas Beneditinas: Suas Características na Contemporaneidade. p.14.

[2]
Ibidem. p.14.

[3]
"The Benedictine Order" in The Catholic Encyclopedia.(O.S.B.) v. 2, 1999 apud ARAÚJO, André de. Bibliotecas Monásticas Beneditinas: Suas Características na Contemporaneidade. p. 23.

[4]
ARRUFAT, Dom A.R. (O.S.B.). A Ordem Beneditina. p. 103-104.

[5]
ARAÚJO, André de. Op. cit. p. 25.

[6]
CONDE, A.L. (O.S.B). Os Beneditinos e sua História. p.27-36 apud ARAÚJO, André de. Op. cit. p. 6.

[7]
LUNA, Dom Joaquim G. de. (O.S.B.). Os Monges Beneditinos no Brasil. p. 18.

[8]
TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abbadia de São Paulo (1598-1772). p. 24.

[9]
JOHNSON, Dom Martinho. (O.S.B.). "400 Anos do Mosteiro de São Bento – São Paulo" in Emissão Comemorativa. n ° 14, 1998.

[10]
LUNA, Dom Joaquim G. de. (O.S.B.). Op. cit. p. 134.

[11]
Ibidem. p. 134-136.

[12]
TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abadia de São Paulo (1598-1772). p. 49.

[13]
MADRE DE DEUS, Fr. Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente apud TAUNAY, Afonso de E. Op. cit. p. 50.

[14]
Ibidem. p. 50-51.

[15]
MADRE DE DEUS, Fr. Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente apud TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abadia de São Paulo (1598-1772). p. 52-53.

[16]
MADRE DE DEUS, Fr. Gaspar da. Op. ci t. apud TAUNAY, Afonso de E. Op. cit. p. 53.

[17]
TAUNAY, Afonso de E. Op. cit. p. 67-68.

[18]
MADRE DE DEUS, Fr. Gaspar da. Op. cit. apud TAUNAY, Afonso de E. Op. cit. p. 53.

[19]
TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abadia de São Paulo (1598-1772). p. 73.

[20]
"Nossa Capa" in Raízes, n ° 23, 2001. p. 2.

[21]
TAUNAY, Afonso de E. Op. cit. p. 72.

[22]
JOHNSON, Dom Martinho. (O.S.B.). Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade de São Paulo. p. 72-73.

[23]
HOLANDA, Sérgio Buarque de. "Prefácio" in Livrodo Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade deSão Paulo.

[24]
Ibidem.

[25]
JOHNSON, Dom Martinho. (O.S.B.). "400 Anos do Mosteiro de São Bento – São Paulo" in Emissão Comemorativa. n.º 14, 1998.

[26]
Gravura 18 entre p.202-203. JOHNSON, Dom Martinho. (O.S.B.). Livro do Tombo do Mosteiro de SãoBento da Cidade de São Paulo.

[27]
LUNA, Dom Joaquim G. de. (O. S.B.). Os Monges Beneditinos no Brasil. p. 73.

[28]
LUNA, Dom Joaquim G. de. (O. S.B.). Op. cit. p. 73.

[29]
Ibidem. p. 77.

[30]
HOLANDA, Sérgio Buarque de. "Prefácio" in Livrodo Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade de São Paulo.

[31]
MARTINS, José de Souza. A Escravidão em São Caetano (1598-1871). p. 9.

[32]
JOHNSON, Dom Martinho. (O. S.B.). Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade de São Paulo. p. 91.

[33]
Documentos Avulsos. v. 2. p. 87. Arquivo do Estado apud MARTINS, José de Souza. São Caetano do Sul em IV Séculos de História. p. 75.

[34]
Códice 25 do Mosteiro apud TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abadia de São Paulo (1598-1772). p. 170.

[35]
MARTINS, José de Souza apud MÉDICI, Ademir. "Martins na Inglaterra, pensando em São Caetano" in Raízes. nº 10, 1994. p.5.

[36]
TAUNAY, Afonso de E. História da Cidade de São Paulo no Século XVIII (1765-1801). p. 5-6.

[37]
MARTINS, José de Souza apud MÉDICI, Ademir. "Martins na Inglaterra, pensando em São Caetano" in Raízes. n.º 10, 1994. p. 5.

[38]
MARTINS, José de Souza. A Escravidão em São Caetano (1598-1871). p. 14.

[39]
TAUNAY, Afonso de E. História Antiga da Abadia de São Paulo (1598-1772). p. 171.

[40]
JOHNSON, Dom Martinho. (O. S.B.). Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade de São Paulo. p. 90, nota 147 apud MARTINS, José de Souza. A Escravidão em São Caetano (1598-1871). p. 24, nota 14.

[41]
HOLANDA, Sérgio Buarque de . "Prefácio" in Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade de São Paulo.

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