Reescrituras do Cristo: Modelos de narração nas origens e além

Paulo Augusto de Souza Nogueira

Resumo


Este artigo propõe a supressão da divisão estrita entre estudos bíblicos e estudos de recepção, entre fontes originais e recriações literárias. Esta divisão privilegia a exegese bíblica como guardiã da archê, do princípio, do original. Argumentamos que os Evangelhos - mesmo os mais antigos dentre eles - já oferecem narrativas articuladas de memórias sobre Jesus. Os instrumentos de construção de mundo operantes na narrativa já se faziam presentes nas primeiras tradições. A pluralidade de modelos de apresentação da vida de Jesus, testemunhada em textos canônicos e apócrifos, não nos permite entender o modelo marcano, de narrativa centrada na morte do herói, como único, nem mesmo o mais antigo. Textos como a Fonte dos Ditos de Jesus (Fonte Q) e o Evangelho de Tomé, que contém apenas ditos de Jesus, nos indicam que Jesus era compreendido por comunidades antigas como sendo antes de tudo um profeta ou um mestre de sabedoria. Por outro lado, a centralidade da morte do herói, do modelo de evangelho marcano, se desenvolveu para além de narrativas sobre Jesus, colaborando para o desenvolvimento de outros gêneros que narram o sofrimento dos apóstolos e até de cristãos e cristãs comuns. Também insistimos no dinamismo dos processos criativos de produção de reescrituras do Cristo, no passado (nos evangelhos do Novo Testamento, nos evangelhos apócrifos) e no presente (nas artes, na cultura popular). Por fim fizemos referência ao potencial de criação, bricolagem e atualização dos leitores contemporâneos das diferentes releituras do Cristo, compondo entre as tradições religiosas, as práticas religiosas populares e a cultura de massa.



Palavras-chave


Evangelhos; Evangelhos Apócrifos; Reescrituras de Cristo; Recepção da Bíblia

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DOI: https://doi.org/10.23925/2236-9937.2020v20p155-177

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