Versatilidade do retalho de escalpo na cirurgia reparadora da face ­

Decio Luis Portella de Campos, Ana Claudia Queiroga de Faria, Luiz Eduardo Ramos, Fernanda Marques

Resumo


Introdução: A cirurgia reparadora do segmento cefálico pode apresentar-se como um desafio até para o cirurgião experiente, que se depara com lesões de tamanhos e localização variados. O reparo de grandes defeitos no couro cabeludo, na fronte e face, decorrentes de ressecções oncológicas grandes, incita o raciocínio do cirurgião, que encontra um problema estético e principalmente funcional para resolver. A pele da fronte, de textura suave em indivíduos jovens, com o decorrer do tempo e da ação da musculatura, passa a apresentar linhas de expressão pronunciadas, as quais podem influenciar a escolha da técnica reconstrutora nos procedimentos na região frontal. A mobilidade natural do couro cabeludo nas regiões frontal, temporais e occipital, permite que seja usada na confecção de retalhos locais para reconstrução de vários defeitos adquiridos. Uma das opções cirúrgicas é o retalho de transposição de couro cabeludo baseado nos vasos occipitais. O presente relato tem como objetivo exemplificar a confiabilidade e versatilidade do retalho de escalpo baseado nos vasos temporais, utilizado para reconstrução da fronte e parte do terço médio da face, de um paciente portador de CBC (carcinoma basocelular) que acometia região temporal direita e infiltrava a órbita ipsilateral. Relato de Caso: Trata-se de paciente de 75 anos, fototipo de Fitzpatrick 1, hipertenso, tabagista, trabalhador rural, que procurou atendimento médico devido a lesão nodular, vegetante, de crescimento progressivo de longa data anterior à primeira consulta. A lesão apresentava tamanho aproximado de 4,0 x 6,0cm, acometendo principalmente região temporal direita, lesão esta aderida a planos profundos e à borda lateral da órbita direita. Submetido à investigação pré-operatória, evidenciou-se acometimento de tecidos retroseptais na órbita, visto à tomografia computadorizada de face. Demais exames apresentavam-se dentro da normalidade. O paciente foi submetido à ressecção em bloco de toda região acometida, com ampla margem de segurança na pele. Foi necessária exenteração do olho e conteúdo da órbita direita, assim como parte da borda lateral da órbita, parte do osso maxilar direito e do arco zigomático direito. Foi desenhado e elevado retalho de escalpo, baseado nos vasos occipitais, para reconstrução do defeito. Ainda foi utilizado metacrilato para a moldagem de pequena tela de polipropileno, com intuito da reparação do arco zigomático e para dar projeção malar à face a ser reparada. O occípito e vertex necessitaram de enxertia de pele parcial para fechamento da área doadora. O paciente recebeu cuidados clínicos em leito intensivo nos primeiros 2 dias de pós-operatório, recebendo alta para enfermaria e dali para domicílio. Em seguimento, apresentou boa integração do enxerto além do retalho, sem sofrimento deste. Resultado de exame anatomopatológico foi compatível com Carcinoma Baso celular variante Nodular, com margens cirúrgicas amplas e livres de malignidade. Discussão: Os retalhos mais comuns para reconstrução do escalpo e fronte são desenhados como de avanço, de rotação ou retalhos de interpolação. Diferentemente de outras regiões da face, não há linhas de tensão com redundância de pele no escalpo. Ademais, as incisões devem ser posicionadas para maximizar o pedículo vascular do retalho a ser elevado. Os retalhos de avanço têm uso limitado devido à baixa elasticidade da gálea aponeurótica e, por isso, o retalho de escalpo mais utilizado para reconstrução da maioria dos defeitos adquiridos ainda é o retalho de rotação. Frequentemente é necessário o emprego de múltiplos retalhos de rotação ou de interpolação para correção de um mesmo defeito. Isto tem a vantagem de distribuir a tensão no fechamento de uma grande ferida no escalpo, além de recrutar mais de uma área doadora na referida a reconstrução. Defeitos adquiridos ainda maiores no escalpo podem necessitar de grandes reconstruções, com grandes descolamentos (por vezes até total) do escalpo. A técnica de 3 retalhos pode ser empregada para reconstrução de defeitos de até aproximadamente 9x12cm, e é particularmente útil em pacientes que não seriam bons candidatos à cirurgia com anestesia geral prolongada para reconstrução microcirúrgica, ou que desejem reconstrução mais estética com retalhos pilosos ou que não desejem o longo tratamento com expansores de tecido. O retalho de escalpo de Converse, ou retalho temporal do escalpo, é outra das opções cirúrgicas na cirurgia reparadora do escalpo, fronte, e foi descrito classicamente para reconstrução nasal. Configura-se como retalho de transposição tendo como pedículo principal os vasos temporais superficiais. Tal técnica é segura na medida em que este retalho apresenta suprimento vascular robusto e boa drenagem venosa, ainda o desenho do retalho evita incisões na linha mediana que estigmatizam o paciente no pós-operatório além de que uma grande área de pele pode ser elevada para reconstrução da bochecha, região frontal, malar e órbita. Conclusão: Para a reconstrução oncológica no presente caso foi utilizado um retalho transposição de escalpo, baseado nos vasos occipitais. Ficou demonstrada a confiabilidade deste retalho, com boa irrigação pelo plexo arterial subcutâneo. Além disso a confecção do retalho é de técnica bastante reprodutível e configura-se como mais uma arma terapêutica de que o cirurgião reparador pode lançar mão na sua prática clinico-cirúrgica.

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