O silêncio do direito nas opressões das mulheres

uma experiência do Brasil e países africanos de expressão portuguesa

Autores

DOI:

https://doi.org/10.23925/ddem.v.1.n.16.73267

Palavras-chave:

silêncio jurídico, ilusão da igualdade liberal, direito androcêntrico, violência doméstica

Resumo

Este artigo compreende o direito como um arsenal majoritariamente androcêntrico e patriarcal, utilizado historicamente e, ainda hoje, como discurso hegemônico, desempenhando funções simbólicas e reais de poder. Tal configuração permitiu a perpetuação de diversas formas de opressão, seja pelo silêncio, seja pelas omissões na regulamentação e na proteção de pautas fundamentais à salvaguarda dos direitos das mulheres, tais como os direitos reprodutivos, a autonomia pessoal e a efetiva aplicação de leis de combate à violência doméstica. Sob essa perspectiva, o direito tem igualmente contribuído para a manutenção de regulações previdenciárias injustas, que desconsideram as compensações decorrentes do custo social e econômico da maternidade e do trabalho doméstico, muitas vezes não reconhecido pela justiça previdenciária. Nesse contexto, destaca-se que, sendo controlado por estruturas estatais de caráter androcêntrico, o direito colaborou para a manutenção de uma necropolítica silenciosa, que, durante longo período, não regulamentou de forma específica o problema da violência doméstica em países como o Brasil e em grande parte dos países africanos, os quais o fizeram apenas tardiamente. Por outro lado, cumpre frisar que o direito representa também um sistema de linguagem que molda e estrutura as relações sociais por meio da lógica do comando e da ordem, sustentado por um bacharelismo masculino que, reiteradamente, ignorou as lutas feministas em nome de uma opção sistêmica excludente. Assim, este artigo tem como objetivo fundamental analisar criticamente o papel do direito na conquista dos direitos das mulheres, denunciando sua cegueira funcional ao proclamar uma suposta igualdade e liberdade de matriz liberal que, em realidade, encobre as diferenças entre homens e mulheres no acesso aos direitos e bens fundamentais. Para o alcance desses objetivos, será empregada a revisão bibliográfica, em combinação com relatos de mulheres moçambicanas e com uma abordagem comparada entre Brasil e Moçambique.

Biografia do Autor

Arménio Alberto Rodrigues da Roda, Universidade Federal da Bahia - UFB, Salvador, BA

Doutor em Direito pela Universidade Federal da Bahia, tendo realizado intercâmbio acadêmico na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e na Universidade de Coimbra. Pós-doutor em Gestão Pública pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atualmente, é pesquisador visitante na University College Dublin e na Dublin City University, bem como investigador do Instituto Jurídico da Universidade de Coimbra. Atua como professor na Universidade Aberta de Moçambique. Realizou integralmente as disciplinas do Doutorado em Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, parcialmente, na Universidade de Brasília. É mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia e mestrando profissional em Governança e Desenvolvimento pela Escola Nacional de Administração Pública. É autor dos livros Constitucionalismo Africano, Pluralista e Decolonial, A Dimensão Global do Tráfico Humano e O Racismo Global. Integra o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas e Direito Administrativo (LEDAC). É membro e ativista de direitos humanos na Associação Moçambicana dos Advogados Cristãos. Possui graduação em Direito pela Universidade Zambeze (2016), revalidada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área do Direito, com ênfase em Direito Constitucional, atuando principalmente nos seguintes temas: direitos fundamentais, direitos humanos e direito internacional público.

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Publicado

2026-03-30

Como Citar

Roda, A. A. R. da. (2026). O silêncio do direito nas opressões das mulheres: uma experiência do Brasil e países africanos de expressão portuguesa. Direitos Democráticos & Estado Moderno, 1(16), 165–193. https://doi.org/10.23925/ddem.v.1.n.16.73267