Operação Camanducaia
Memória e testemunho da violência estatal contra "menores"
DOI:
https://doi.org/10.23925/lf.v17i2.72382Palavras-chave:
Operação Camanducaia, Trauma, Memória, Figurabilidade, Testemunho, Violência Estatal, MenoresResumo
“Operação Camanducaia” foi um episódio de violência policial ocorrido em 1974, no qual dezenas de garotos recolhidos das ruas de São Paulo foram torturados e abandonados nus nas redondezas da cidade mineira de Camanducaia. Em 2020, o jornalista Tiago Rezende de Toledo recuperou essa história ao realizar o documentário “Operação Camanducaia”, através do qual resgatou a memória do que se passou e as incidências da violência na vida dos sobreviventes. Partindo de uma discussão histórica sobre a posição de marginalização que os “menores” ocupam no imaginário social brasileiro, este trabalho toma como objeto de análise o filme em questão para discutir o potencial traumático da violência estatal perpetrada contra as crianças e os adolescentes retratados pela obra. As reflexões aqui propostas se fundamentam a partir de conceitos psicanalíticos, em especial das considerações apresentadas por D. F. Antonello em seu livro “Trauma, memória e figurabilidade na literatura de testemunho” (2020). O autor levanta a hipótese de que as memórias decorrentes de eventos traumáticos podem extrapolar os limites dos conceitos freudianos de recalque e representação, o que impõe certos desafios ao aparelho psíquico. Antonello convoca, portanto, os conceitos de figurabilidade e testemunho para contribuir no pensamento acerca desse encaminhamento psíquico. O presente trabalho destaca, portanto, esses três eixos - memória e trauma; figurabilidade; e testemunho - para analisar o documentário. Dessa forma, estabelece-se relações importantes entre processos traumáticos e a realidade brasileira dos “menores”, destacando como o gesto de realização da obra cinematográfica em questão pode trazer contribuições para o encaminhamento desses processos traumáticos.
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