Inteligência Artificial e o labirinto ético na educação

lições de Spinoza e Black Mirror

Autores

DOI:

https://doi.org/10.23925/1984-3585.2025i32p284-299

Palavras-chave:

Inteligência artificial, ética, Spinoza, educação, Black Mirror, conatus

Resumo

A inteligência artificial (IA) não é apenas uma ferramenta entre tantas outras que o engenho humano produziu. Aos poucos, ela se infiltra no tecido das rotinas mais banais e, sem que percebamos, reconfigura a vida em sua espessura cotidiana, da consulta médica ao aprendizado escolar, das transações comerciais ao modo como nos lembramos de nós mesmos. Fascinante e inquietante, esse avanço abre uma fronteira ética difícil de cartografar. Onde começa o auxílio e termina a tutela? Quando o aprimoramento técnico se converte em intromissão? É nesse terreno movediço que este artigo se instala, tomando como bússola o pensamento de Baruch Spinoza, sobretudo sua concepção de conatus, o esforço vital que leva cada ser a perseverar em sua existência e a expandir sua potência, e a distinção entre afetos passivos e ativos. Sob essa luz, a IA aparece não apenas como fenômeno tecnológico, mas como acontecimento ontológico, que modifica o modo de agir, sentir e conhecer. O ponto de partida é o episódio “Eulogy”, da série Black Mirror, em que a tecnologia de recriação neural permite reviver memórias de pessoas falecidas. A narrativa dramatiza, de modo perturbador, a conversão do afeto em mercadoria e do luto em espetáculo. A partir desse espelho ficcional, refletimos sobre os riscos de uma civilização que transforma lembranças em produtos de consumo e a própria intimidade em dado replicável. O percurso articula o monismo spinozista a debates regulatórios contemporâneos, desde os sistemas autônomos letais até as tecnologias de manipulação memorial, e se estende à chamada grief tech, indústria em crescimento que fabrica griefbots e deadbots, simulacros digitais de pessoas mortas. Trata-se de um mercado bilionário que expõe, sob o brilho da inovação, um drama ético profundo: o da privacidade, da dignidade e da perpetuação da dor. No campo educativo, propomos uma leitura positiva, embora crítica: um modelo híbrido de Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), infundido por elementos de IA, capaz de aproximar ficção e experiência, estimular a análise ética e desenvolver o pensamento crítico. O artigo se encerra com sugestões de marcos regulatórios inspirados em Spinoza, vislumbrando um horizonte em que a inteligência artificial amplie as faculdades humanas sem anular sua autoria nem diluir sua essência.

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Biografia do Autor

Jaqueline Aparecida Ferrari, Universidade Estácio de Sá

Graduada em Ciências Biológicas (Licenciatura) pela Universidade São Camilo-ES, Pós-graduada em Metodologia do Ensino de Biologia (UNIVES) e mestranda em Tecnologia de Informação e Comunicação nos Processos Educacionais (TICPE) (UNESA). Atualmente, é professora de educação básica. E-mail: jaqueaferrari@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-0305-3502

Michael Santiago de Souza Pinto, Universidade Estácio de Sá

Possui graduação em Física pela ULBRA, Pós-graduação (especialização) em Metodologia de Ensino de Matemática e Física pela FAVENI, Segunda Licenciatura em Matemática e Pedagogia pela UniCV. Atualmente, é professor de educação básica. E-mail: michaelsspinto@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-5182-0140.

João Luiz Peçanha Couto, Universidade Estácio de Sá

Professor de Língua Portuguesa da etapa final do EF, Mestre (USP) e Doutor (UFF) em Literatura, romancista, coordenador do grupo de Pesquisa TECE, cadastrado no CNPq, e docente do PPGE/Unesa – linha TICPE, com pesquisas em Tecnologia, Educação e Sociedade. Orienta trabalhos sobre tecnologias digitais, currículo e epistemologias críticas. E-mail: joaoluizpecanhacouto@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8470-6419.

Referências

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Publicado

2026-05-21

Como Citar

Ferrari, J. A., Pinto, M. S. de S., & Couto, J. L. P. (2026). Inteligência Artificial e o labirinto ético na educação: lições de Spinoza e Black Mirror. TECCOGS: Revista Digital De Tecnologias Cognitivas, (32), 284–299. https://doi.org/10.23925/1984-3585.2025i32p284-299