SEM RÓTULOS, SEM COBRANÇA
O DISCURSO DO “FICANTE” E A ILUSÃO DE LIBERDADE AFETIVA
DOI:
https://doi.org/10.23925/2316-3267.2026v15i1p114-132Palavras-chave:
Ficante, Ethos discursivo, Plataforma X, Autonomia afetivaResumo
O presente artigo propõe uma análise discursiva do termo ficante e de suas formulações correlatas no discurso amoroso contemporâneo, especialmente nas redes sociais digitais. Partindo do referencial teórico da Análise do Discurso de linha francesa, conforme desenvolvida por Michel Pêcheux e aprofundada por Dominique Maingueneau, investiga-se como expressões recorrentes como “sem rótulos” e “sem cobrança” produzem efeitos de sentido que sustentam uma ilusão de liberdade afetiva. O corpus é constituído por postagens e comentários extraídos da plataforma X (antigo Twitter), nos quais se observa a regularidade de enunciados que suspendem a nomeação do vínculo ao mesmo tempo em que mantêm a circulação do afeto. Nesse sentido, o objetivo é verificar como se constrói o ethos discursivo do sujeito que se posiciona como ficante, observando de que maneira esse sujeito projeta uma imagem de si associada à autonomia afetiva, ao desapego e à recusa do compromisso. A análise evidencia que o discurso do ficante opera por meio do apagamento do compromisso e da responsabilização afetiva, deslocando o envolvimento para uma zona de indeterminação discursiva marcada por silêncios, modalizações e antecipações do julgamento do outro. Argumenta-se que tal funcionamento discursivo não representa uma ausência de normas, mas a instauração de um novo regime de regulação do afeto, no qual a liberdade enunciada convive com a precarização das relações. Assim, o artigo contribui para a compreensão dos modos contemporâneos de significar o amor, evidenciando como a recusa dos rótulos atua como estratégia discursiva que reorganiza posições de sujeito e redefine os limites do dizer amoroso na contemporaneidade.
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Referências
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