O Hegelianismo Visto por Peirce

Lauro Frederico Barbosa da Silveira

Resumo


Peirce sempre se defrontou com a vertente alemã da fenomenologia herdada da obra de Kant. Dedica longo comentário à lógica elaborada pelos acadêmicos alemães, salientando a profunda divergência nela estabelecida com a tradição medieval, com a razão compartilhada pelo comum dos homens e com os estudos que, ao longo dos séculos, os ingleses vieram realizando sobre o pensamento e suas leis. A Hegel e àqueles que adotaram por algum tempo seu pensamento, Peirce especialmente dedica longos comentários. Sempre denunciando as falhas que a seu ver aquele pensamento apresentava, esquadrinha em especial a lógica hegeliana sem, contudo, deixar de considerar as implicações metafísicas e teológicas nela contida. Dada a longa permanência de tais preocupações, a leitura de Hegel e de seus seguidores irá evoluindo conjuntamente com o próprio pensamento de Peirce. Em um primeiro momento, as críticas parecem mais contundentes, embora mais restritas a questões formais, para aos poucos irem se adentrando em questões de maior profundidade que implicam a dinâmica do conceito, os modos elementares de ser e as pressuposições metafísicas e teológicas nem sempre confessas do respeitável pensador alemão.A evolução da leitura feita por Peirce da obra de Hegel e daquela nela inspirada, contribui, por seu lado, para que se acompanhe a evolução do próprio pensamento de Peirce. As primeiras críticas restringem-se às inadmissíveis transgressões às regras mais elementares da silogística, certamente em favor do atendimento à experiência psicológica dos sujeitos no tempo. Com a adoção da lógica dos relativos, tendo por conseqüência a evolução no próprio conceito de inferência e, principalmente, com o desenvolvimento da Faneroscopia e a dedução de um novo e mais universal quadro de categorias, a crítica feita ao pensamento hegeliano torna-se menos drástica, embora, talvez, mais profunda.Peirce, nos primeiros anos do século XX, supera a idiossincrasia inicial relativamente a Hegel e, invertendo o curso da moda, começa a manifestar mais claramente seu reconhecimento do valor do pensamento daquele filósofo, no momento mesmo em que o hegelianismo, tanto na Universidade alemã quanto no seio das instituições anglo-americanas, começa a experimentar uma onda de desprestígio tão gratuita quanto fora sua açodada aceitação. Irá Peirce reconhecer, na fase mais madura de seu pensamento, a proximidade de seu pensamento com a proposta hegeliana, apesar de alguns erros lógicos por ele sempre apontados, como, sobretudo, a redução forçada do fenômeno ao conceito, em prejuízo da potencialidade afirmativa do ser e do caráter irredutível da existência a qualquer generalização. O acompanhamento mais próximo da leitura crítica feita por Peirce da obra de Hegel e de hegelianos, como Josiah Royce, mesmo que abreviado, contribuirá para que melhor se avaliem as diferenças entre os autores e a aproximação que entre eles se estabelece, devida, certamente, ao apreço que todos eles dedicam ao fenômeno como objeto próprio do conhecimento.

Palavras-chave


Lógica; Metafísica; Kant; Hegelianismo; Josiah Royce; Sentimento de racionalidade

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