Abdução e a lógica da descoberta em economia

Adelino de Castro Oliveira Simões Gala, Paulo Sergio Oliveira Simões Gala, Danilo Araújo Fernandes, Bernardo Stuhlberger Wjuniski

Resumo


A questão da construção das verdades na ciência econômica continua a intrigar acadêmicos da área. Na ultima década, um movimento cada vez mais crescente de economistas (Sent (2005), Chick (2004), Dow (2005)) vem defendendo a liberdade na construção de teorias e modelos na ciência econômica, prescrevendo o pluralismo como método natural na ausência de um método “superior” para se chegar a verdade.

Entretanto, como afirma Blaug (1997, p243) quando se refere a metodologia da economia neoclássica “Analytical elegance, economy of theoretical means, and the widest possible scope obtained by ever more heroic simplification have been too often prized above predictability and significance for policy questions”. Na prática, muitos economistas continuam a utilizar abordagens puramente dedutivas e epistemologicamente fechadas sem respaldo na realidade. Economistas neoclássicos costumam afirmar que o problema da abordagem pluralista é que ela não indica um caminho metodológico novo a ser utilizado, apenas defende normativamente um espaço livre para a construção da ciência, sem realmente apresentar uma proposta alternativa a epistemologia tradicional.

(Gala et al, 2012) defende que a substituição a epistemologia tradicional deve ser feita através do espaço hermenêutico, conceito criado pelo filosofo Richard Rorty, baseado na tradição de Pierce, em que os nossos valores, cultura e modos de interpretar as coisas é que devem ditar nosso método de construção de ciência. Qualquer nova alternativa epistemológica vai sempre cair na mesma incapacidade da epistemologia tradicional. Como afirma Rorty ao se referir a incapacidade da epistemologia tradicional “We must be hermeneutical where we do not understand what is happening but are honest enough to admit it” (Rorty, 1994, p. 321)

Tentando contribuir nessa direção, o presente trabalho tem por objetivo apresentar o conceito de abdução. Um conceito pouco conhecido e usado pela maioria dos economistas, mas que pode ser entendido como um método pluralista e pragmático que pode ser aplicado à ciência economia. Um conceito utilizado intuitivamente pela macroeconomia keynesiana, economia clássica e microeconomia marshalliana, dado o viés mais histórico-indutivo dessas matrizes. Um conceito fundamental na etapa de criação das teorias que depois poderão ser organizadas (dedução) e testadas empiricamente (indução controlada).

Mais do que oferecer um alternativa epistemológica nova a economia, o trabalho visa apresentar um conceito na prática já utilizado, mas que poderia ser amplamente difundido de forma a permitir uma ciência mais livre e plural. O trabalho se inspira na abordagem histórica e a necessidade de se adotar uma postura “histórico-dedutiva” para se fazer ciência em economia como defendida por Bresser-Pereira. Na seção 2 apresentamos a noção de abordagem histórica de Bresser-Pereira. Na seção 3 tratamos da definição formal do conceito de abdução. A seção 4 discute brevemente as bases de uma epistemologia abdutiva. A última seção conclui o trabalho.

Palavras-chave


Charles Sanders Peirce, lógica, abdução, descoberta, economia

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Referências


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