O perfeito anterior: apogeu e decadência
DOI:
https://doi.org/10.1590/1678-460x202541366518Palabras clave:
perfeito anterior, português arcaico, gramaticalizaçãoResumen
Neste artigo, à luz de premissas da Linguística Histórica e do Funcionalismo, tratamos do perfeito anterior, formado por haver/ter no perfeito mais particípio, cuja vitalidade esteve restrita ao português arcaico, diferentemente do que ocorreu com outras estruturas de haver/ter mais particípio que se efetivaram como tempos compostos. Nossos dados são representativos dos séculos XIII a XV, provenientes do Corpus Informatizado do Português Medieval. Localizamos 327 casos: 281 com haver e 46 com ter, os quais foram analisados mediante parâmetros morfossintático-semânticos, quais sejam: (i) seleção argumental acoplada ao tipo de argumento, cujos resultados indicam argumento pronominal em proeminência, relativamente a outros como posse material ou inalienável e ausência de argumento; (ii) tipo de combinação entre haver/ter e particípio, parâmetro que evidenciou haver/ter sendo combinados em larga escala com particípios que não contradizem a noção de posse originária desses verbos, e (iii) presença de marcas de concordância no particípio, minimizando o efeito da gramaticalização (uso de particípio neutro). Observa-se, além disso, que a frequência de uso da estrutura haver/ter no perfeito mais particípio decai consideravelmente do século XIII ao XV. Paralelamente, o verbo ter, auxiliar recorrente em tempos compostos atuais, tem uso escasso no corpus. Dessa guisa, o perfeito anterior não se consolidou no sistema, mas teve sua fase apoteótica.
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