Chamada para artigos: Emoções e valor intrínseco: Brentano e a transformação do sentimentalismo

2026-03-27

Esta edição especial é dedicada à investigação filosófica das emoções e do valor no âmbito da tradição inaugurada por Franz Brentano e desenvolvida pela Escola de Brentano, bem como à sua influência decisiva na teoria do valor do século XX.

A Escola de Brentano articulou uma das concepções modernas mais sistemáticas da afetividade como intencional e reveladora de valor. Em oposição tanto ao psicologismo moral reducionista quanto à teoria ética formalista, Brentano defendeu a tese de que as emoções não são meramente estados subjetivos, mas atos intencionais capazes de correção e incorreção. Dizer que algo é bom, argumentou Brentano, é dizer que é correto amá-lo. Essa concepção de valor como atitude adequada — que mais tarde se tornou central na metaética analítica — tem origem no quadro brentaniano.

Um objetivo central desta edição especial é situar a Escola de Brentano na história mais ampla do sentimentalismo moral e esclarecer como Brentano transforma essa tradição por meio de sua teoria da intencionalidade.

A filosofia moral britânica do século XVIII — especialmente em Anthony Ashley Cooper, Francis Hutcheson, David Hume e Adam Smith — fundamentava a avaliação moral na resposta afetiva. A aprovação e a desaprovação morais eram entendidas não primariamente como apreensões intelectuais de propriedades morais objetivas, mas como sentimentos: sentimentos de aprovação ou desaprovação, simpatia ou aversão.

No entanto, em grande parte dessa tradição, os sentimentos eram tratados como reações psicológicas cuja autoridade normativa permanecia filosoficamente delicada. Se o valor depende do sentimento, como pode evitar o relativismo ou o subjetivismo?

Brentano herda a percepção sentimentalista central — de que a emoção é constitutiva do valor —, mas a transforma por meio de sua teoria da intencionalidade e da correção. Ao contrário do sentimentalismo humeano, Brentano não trata as emoções como meras respostas causais ou projeções. Em vez disso, as emoções são atos intencionais que apresentam seus objetos sob o disfarce do bem, e estão sujeitas a padrões de correção análogos à verdade no julgamento.

Enquanto Hume afirma que a moralidade é “mais propriamente sentida do que julgada”, Brentano argumenta que o amor e o ódio podem ser certos ou errados. Dessa forma, ele integra o sentimentalismo a um quadro realista: as emoções não são sentimentos brutos, mas atos intencionais; o valor não é projetado, mas revelado; e a normatividade se fundamenta nas condições de correção dos atos afetivos, e não apenas no costume ou na simpatia.

Essa abordagem preserva a percepção fenomenológica do sentimentalismo, evitando ao mesmo tempo sua derrapagem para o subjetivismo. Ela também antecipa as contemporâneas teorias do valor baseadas na atitude adequada, que analisam a bondade em termos de pro-atitudes apropriadas.

Nesse aspecto, Brentano ocupa um ponto crucial na história da filosofia moral: ele faz a ponte entre o sentimentalismo britânico, a psicologia descritiva do século XIX e a teoria analítica do valor do século XX.

Esta edição especial busca reavaliar a concepção de Brentano sobre a terceira classe de fenômenos mentais (Gemütsbewegungen) e seu legado na ética, na estética, na religião e na economia. Aceitamos contribuições que explorem tanto o desenvolvimento histórico quanto o significado sistemático dessa tradição.

 

 

Os artigos devem ser submetidos até 31º de janeiro de 2027, e o número especial será publicado no primeiro semestre de 2027, na revista Geltung – Journal of Studies on the Origins of Contemporary Philosophy. Para mais informações sobre submissões e diretrizes, consulte nosso site: https://revistas.pucsp.br/index.php/geltung/about/submissions.

 

 

Prazo para submissão (CFP): 31 de janeiro de 2027

Editores convidados: Prof. Dr. Federico Boccaccini; Prof. Dr. Evandro