A Igreja da serpente maligna?

Eclesiologias em disputa na metrópole kievana durante o “cisma klimentino” (1147‒1154)

Autores

  • Leandro César Santana Neves Universidade Federal do Rio Grande do Norte

DOI:

https://doi.org/10.23925/2176-4174.37.2026e74609

Palavras-chave:

Rus pré-mongol, Klim Smoliatitch, Eclesiologia, Comunidade hermenêutica

Resumo

A controversa eleição de Klim Smoliatich como metropolita de Kiev (1147–1149; 1151–1155) teve consequências políticas e eclesiásticas duradouras na Rus, conforme atestado por diversas fontes e pela pesquisa acadêmica. Menos frequentemente discutido, porém, é como essa controvérsia se reflete na célebre epístola de Klim ao presbítero de Smolensk, Tomás. O presente artigo sustenta que a obra do hierarca e as turbulências de meados do século estão interligadas, uma vez que Klim defende sua eleição e sua posição não com base na vontade do governante, mas em sua própria capacidade de interpretar o mundo e de liderar o que chamo aqui de “comunidade hermenêutica”. O metropolita afirma que sua habilidade hermenêutica — sua capacidade de ler tanto as Escrituras quanto o mundo de forma alegórica — o legitimaria como hierarca. Ao fazê-lo, Klim critica a visão de mundo “literal” de Tomás (e, presumivelmente, de sua facção), apresentando-a como inadequada e indigna de julgar sua legitimidade.

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Biografia do Autor

Leandro César Santana Neves, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Licenciado em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro / UFRRJ - Instituto Multidisciplinar em Nova Iguaçu (2015), mestre em História pela mesma instituição (PPHR-UFRRJ / 2018), e doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ / 2024), tendo realizado neste último estágio sanduíche (bolsa CAPES/PDSE) no Harvard Ukrainian Research Institute, na condição de Visiting Scholar. Membro do LATHIMM - Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais (UFRJ / USP), atuando na linha de pesquisa "Retoricidade": a linguagem como fato social"; do GEHOC (Grupo de Estudos sobre o Oriente Cristão); e do GEPHAM-UFRR (Grupo de Estudo e Pesquisa em História Medieval) . Atualmente é professor substituto de História Antiga e Medieval pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Possui experiência e interesse em Medievalística, com ênfase na chamada Slavia Orthodoxa / Slavonica, sobretudo Bielorrússia, Rússia e Ucrânia durante o período "medieval" (Rus), atuando principalmente nos seguintes temas: Igreja, comunidade (de fé), institucionalização, credo nativo nórdico e eslavo na Rus, representação clerical e dinástica, discurso e retórica hagiográfica e eclesiológica, expansão da Cristandade Europeia, e teoria e historiografia sobre "Idade Média". Também pesquisa perifericamente história da Europa Central e Oriental e da Ásia Central antes de 1700, medievalística (particularmente brasileira) pré-1980 e seus meta-discursos, história das relações entre o papado e as Igrejas não-católicas, história da animação cinematográfica e televisiva, e usos da "Idade Média" para afirmações da "modernidade" e da "civilização", sobretudo na historiografia.

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Publicado

2026-04-09

Como Citar

Neves, L. C. S. (2026). A Igreja da serpente maligna? Eclesiologias em disputa na metrópole kievana durante o “cisma klimentino” (1147‒1154). Cordis: Revista Eletrônica De História Social Da Cidade, (37), e74609. https://doi.org/10.23925/2176-4174.37.2026e74609