UMA FACE IRÔNICA DO REALISMO

Gustavo Moura Bragança

Resumo


O trabalho propõe uma reflexão sobre a construção do efeito fantástico na literatura através de um olhar sobre os procedimentos narrativos de O Relato de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe. Partindo das idéias de Tzvetan Todorov em Introdução à Literatura Fantástica, propõe-se que a hesitação entre dois campos narrativos distintos, o estranho e o maravilhoso, que, segundo Todorov, está no cerne do fantástico na literatura, é alcançada a partir de um investimento em recursos típicos do realismo literário do século XIX, mas levando seus efeitos ao extremo, gerando abalos ao modelo de representação realista por dentro do mesmo, num jogo de linguagem e narrativa que, em Poe, ganha ares irônicos, sobretudo através da maneira como o autor trabalha a narrativa entre a ficção e o relato testemunhal (pretensamente factual). Embora o romance de Poe não seja exemplo típico da literatura fantástica – aproximando-se do estranho exótico –, permite vislumbrar a construção da hesitação fantástica, sobretudo ao final do livro, no modo como desarticula o chão do realismo meticulosamente elaborado ao longo da narrativa, tanto ao atingir extremos da realidade quanto ao flertar com o maravilhoso. Atravessando o artigo, põe-se a proposta de que o fantástico, cujo auge não por acaso ocorre em torno do mesmo século XIX marcado pelo realismo, apresenta-se como uma face irônica deste, em que os autores do gênero fantástico, jogando com procedimentos do discurso realista, exploram as falhas deste, para alcançar o não-lugar de hesitação onde o efeito fantástico se atinge.

Palavras-chave


Realismo; Literatura fantástica; Representação

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