FRONTEIRAZ 33 Estética e romance: a profanação como procedimento

2023-11-28

O romance brasileiro tem tomado para si a responsabilidade de dizer a violência, sobretudo a partir do século XX. Como narrar até que se possa fazer sentir os efeitos da violência? Como expor o leitor a uma sensibilidade tal que o faça responsivo/responsável diante das inquietações causadas por uma escrita profana? Como produzir afeto/efeito sobre aquele que lê? Essas são questões de estética que atravessam grande parte das realizações artísticas contemporâneas, cujo propósito não se limita à representação, mas alcança a responsabilidade. Ao dessacralizar as convencionais maneiras de narrar a violência, o romance tem promovido uma “profanação estética” que contraria o dispositivo da poética representativa. Seria possível narrar a violência como quem informa um acontecimento? Seria bastante ordenar fatos, compor o relato, como quem expõe uma verdade vestida de belas letras? O bem-dizer representativo é uma forma de interdito que o romance contemporâneo viola ao propor uma escrita que experimenta transgredir as convenções narrativas.

Deliberadamente, o romance extrapolou o limite da representação e passou à responsabilidade, ou seja, à tarefa de fazer sentir/viver o que está sendo lido. Muitos autores têm assumido o desafio de materializar a violência em seus processos criativos, transgredindo convenções e lugares comuns das poéticas representativas. Desde a crueza das cenas, até os cortes narrativos e as irônicas escolhas do vocabulário erudito para descrever comportamentos espúrios das personagens, o romance tem performatizado ousadias (anti)poéticas profanadoras que rompem com os tradicionais narradores históricos, os quais “pintam” detalhadas cenas da vida “superior” para contemplação de um leitor incólume diante do que o distrai. Ao profanar modelos e transgredir fronteiras, muitas vezes aproximando-se do diálogo interartes, o romance contemporâneo questiona os limites da linguagem e dos dispositivos expressivos considerados como literários em razão de seu convencionalismo.

Neste número 33 de FRONTEIRAZ, buscamos artigos dedicados à análise de romances brasileiros escritos nos séculos XX e XXI e nos quais esteja materializada uma escrita comprometida com a profanação e a transgressão da expressão “literária” enquanto recursos artísticos que resistem ao dispositivo da representação. De que outro modo o romance pode testemunhar a violência senão dando-se ao leitor como um corpo resistente/sobrevivente à violência dos regramentos formais? Essa é a estratégia que muitos escritores têm usado para retirar o leitor de sua contemplação em direção ao compromisso de responder – de praticar a responsabilidade – às imagens de crueza e indiferença que nos assaltam diariamente.Serão bem-vindos os trabalhos que teorizem o romance a partir de Hal Foster, George Bataille, Michel Foucault, Giorgio Agamben e Jacques Rancière, dentre outros.

Lembramos que as seções de “Ensaios” e de “Resenhas” têm fluxo contínuo, independentemente da temática em pauta para a seção de “Artigos”. Para mais detalhes, consultar as normas de edição em “Diretrizes para autores” no endereço http://revistas.pucsp.br/fronteiraz.

Prazo de submissão de trabalhos: 10/05/2024