CHAMADA FRONTEIRAZ 38 - Subjetividades não humanas na literatura

2026-11-06 12:00 AM

Desde a modernidade, a literatura vem desempenhando um papel decisivo na problematização da centralidade do sujeito humano como fundamento exclusivo da experiência, colocando em crise concepções estáveis de sujeito e abrindo espaço para formas de sensibilidade e percepção atravessadas pela alteridade. No século XXI, esse movimento se intensifica: a literatura passa a acolher e a elaborar modos de subjetivação que excedem a experiência humana, dando voz ou perspectiva a animais, plantas, objetos, paisagens, máquinas, entidades híbridas e formas de vida não humanas. Esse movimento não só desafia o antropocentrismo herdado da tradição humanista, mas também convoca novas formas de leitura que encontram ressonância, por exemplo, nas reflexões de Michel Collot, para quem a experiência estética e poética se constrói na tensão entre o eu e o outro, deslocando a subjetividade para um campo de relações com o mundo, o espaço e o sensível. Em diálogo com essa perspectiva, Dominique Combe, ao problematizar as relações entre sujeito lírico, ficção e autobiografia, contribui para pensar a subjetividade como uma instância constituída no próprio processo de elaboração literária, e não como simples expressão de uma interioridade preexistente. Essas abordagens permitem interrogar os modos pelos quais a literatura desestabiliza concepções essencialistas do sujeito e abre espaço para formas de subjetivação que excedem os limites de uma identidade humana fixa e autocentrada. No campo da ecocrítica, estudos como os de Maria Esther Maciel – especialmente em suas investigações sobre a animalidade na literatura – e de Evando Nascimento – com suas contribuições sobre a fitoliteratura – evidenciam como a presença dos animais e plantas nos textos literários promovem novos modos de subjetivação e questiona fronteiras rígidas entre humano e não humano. Ou ainda, pensando com Emanuele Coccia, “o mundo é por definição a vida dos outros: o conjunto dos outros seres vivos”. Tais estudos tensionam concepções tradicionais de vida, consciência e linguagem, abrindo novas possibilidades para a leitura de textos que se articulam a partir de sensibilidades ecológicas, cosmogônicas e não antropocêntricas. Nesta chamada, a Revista Fronteiraz propõe reunir contribuições que investiguem as múltiplas configurações de subjetividades não humanas na literatura, considerando diferentes períodos históricos, tradições culturais, gêneros literários e abordagens teóricas. Interessa-nos acolher trabalhos que reflitam sobre como a literatura imagina, constrói e problematiza formas de existência que desafiam o privilégio do humano.

_____ Prazo de submissão de trabalhos: 15/03/2027

Lembramos que as seções de “Ensaios” e de “Resenhas” têm fluxo contínuo, independentemente da temática em pauta para a seção de “Artigos”.