Chamada FronteiraZ 37 - 50 anos do golpe militar na Argentina: literatura e experiência autoritária no Cone Sul
50 anos do golpe militar na Argentina: literatura e experiência autoritária
no Cone Sul
Editores:
Amanda Lacerda de Lacerda - Universidade Estadual de Campinas
Leonardo da Silva Claudiano - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Valéria Gomes Ignácio da Silva - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Em 2026, completam-se 50 anos do golpe civil-militar que instaurou na Argentina um dos
regimes mais violentos e sistemáticos de repressão política da história latino-americana. A
efeméride convida não apenas à rememoração, mas à reflexão sobre as formas pelas quais a
literatura tem se constituído como espaço privilegiado de denúncia, elaboração simbólica da
violência e resistência ao apagamento imposto pelos Estados autoritários.
A tradição intelectual argentina voltada para a interpretação deste período e suas
reverberações é amplamente reconhecida por meio do trabalho de autores como Beatriz
Sarlo, Ricardo Piglia, Josefina Ludmer, Elizabeth Jelin, Nora Strejilevich, entre outros, que
desenvolveram textos críticos, ensaísticos, testemunhais e literários sobre a memória e seus
trânsitos pelo passado e o presente da ditadura militar.
As ditaduras do Cone Sul — Argentina, Brasil, Chile e Uruguai — revelam-se um território
fértil para investigar os modos de inscrição da experiência histórica extrema na linguagem. A
literatura latino-americana, com especial destaque a partir dos anos 2000, tem se debruçado
sobre essa “nuvem insidiosa” (Sarlo, 2005, p.9) para dar-lhe contorno, atribuir-lhe um sentido
que contribua para a compreensão do presente.
Nas obras de escritores como Félix Bruzzone, Nona Fernández, Marcelo Rubens Paiva,
Renato Tapajós, Mário Benedetti, Fernanda Trías, Alejandro Zambra, Marta Dillon, entre
outros, o real não se apresenta como dado transparente, mas como construção tensionada por
traumas, silêncios, fragmentações e disputas de sentido. As diferentes formas do realismo —
em suas variações, impasses e fraturas — operam como estratégias narrativas capazes de
desmascarar o discurso do poder e reelaborar a memória traumática.
Este dossiê propõe reunir artigos que abordem a literatura como forma de denúncia e
rememoração das ditaduras latino-americanas, considerando tanto obras produzidas sob o
regime quanto aquelas elaboradas no pós-ditadura, quando a memória, o testemunho e a
reescrita do passado se tornam campos centrais de disputa simbólica.
Neste número da Revista FronteiraZ, esperamos receber contribuições que problematizem e
atualizem o debate sobre as representações do trauma relacionado às ditaduras latino-americanas. Nesse sentido, acolheremos propostas transdisciplinares que abordem as
seguintes temáticas (mas não se limitam a):
- Cruzamentos entre história, memória, esquecimento, imaginação e afetos experienciados
sob regimes ditatoriais via literatura e/ou outras artes;
- Aproximações entre obras literárias que realizam trabalho de memória, desde os anos 1960
até o presente, e os discursos institucional, jornalístico, cultural, entre outros, que produzem
tensionamentos e releituras da história das ditaduras;
- Experiências de linguagem (escritas de si, montagem, biografia, ensaio, encenação,
performance, dramatização etc.) na representação do trauma produzido pelas ditaduras do
Cone Sul via literatura e/ou outras artes;
- Produções narrativas e/ou poéticas contemporâneas no âmbito dos relatos de filiação e das
dinâmicas de transmissão geracional da experiência sob regimes autoritários;
- Abordagens comparadas entre literatura brasileira, argentina, chilena e/ou uruguaia a partir
de uma perspectiva crítica e interdisciplinar.
Data limite para submissão de artigos: 10 de junho de 2026





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