Contribuições de Camillo Golgi e Santiago RamónY Cajal na neurociência moderna
Camillo Golgi and Santiago Ramón y Cajal
DOI:
https://doi.org/10.23925/2178-2911.2026v33espp268-282Palavras-chave:
Golgi, Cajal, Prémio Nobel, Teoria Neuronal, Teoria Reticular, MicroscopiaResumo
A atribuição conjunta do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 1906, ao italiano Camillo Golgi e ao espanhol Santiago Ramón y Cajal constitui um marco na história da neurociência. Embora ambos tenham recorrido à mesma técnica histológica — a designada “reação negra”, um método de coloração com sais de prata, desenvolvido por Golgi — as interpretações destes dois investigadores acerca da organização do sistema nervoso revelaram-se profundamente divergentes. Camillo Golgi que identificou nas células do cerebelo uma estrutura intraneuronal inédita, a que chamou de “aparelho reticular interno” era defensor da chamada Teoria Reticular. Defendia que os axónios se anastomosavam formando uma rede contínua entre neurónios, de forma que o sistema nervoso funcionava como uma unidade morfológica indivisível. Santiago Ramón y Cajal aperfeiçoou a técnica de Golgi e ao aplicar modificações sistemáticas, conseguiu revelar detalhes até então invisíveis, que o levaram a formular a Teoria Neuronal, segundo a qual os neurónios comunicavam por contiguidade com individualização das células nervosas. A confirmação da Teoria Neuronal ocorreu apenas na década de 1950, com o advento da microscopia eletrónica, que revelou a presença de fendas sinápticas entre axónios e dendrites, refutando definitivamente a teoria reticular. Em conclusão, a técnica de Golgi abriu caminho como método inovador, e ainda hoje constitui uma das ferramentas mais poderosas na revelação da complexidade do sistema nervoso. Porém a interpretação das imagens histológicas por Cajal foram extraordinariamente visionárias e anteciparam conceitos fundamentais da neurociência e da neuroplasticidade moderna.