Vitalismo: do nascimento e morte nas Ciências da Vida à vitalidade na Filosofia e no Ensino de Biologia
DOI:
https://doi.org/10.23925/2178-2911.2026v33p284-308Resumo
Resumo
A temática do vitalismo é frequentemente negligenciada ou apresentada de forma simplificada em contextos acadêmicos e didáticos em língua portuguesa, surgindo muitas vezes como uma "caricatura" de erro científico superado por experimentos isolados. O presente estudo, de natureza qualitativa e do tipo exploratória historiográfica, propõe uma síntese analítica sobre o desenvolvimento histórico e filosófico deste conceito, visando auxiliar a formação de professores e o ensino de Biologia. O vitalismo é caracterizado como um "conceito guarda-chuva" que abarca diversas teorias que consideram a existência de entidades não materiais — como a capacidade curadora do corpo de Hipócrates ou a alma aristotélica — para diferenciar seres vivos da matéria inanimada. Historicamente, consolidou-se como uma reação ao mecanicismo galileano-cartesiano, que reduzia o organismo a um sistema mecânico ou hidráulico passível de mensuração matemática. A investigação destaca expoentes fundamentais como Georg Ernst Stahl, que introduziu o animismo como motor do corpo; a Escola de Montpellier (Bordeu e Barthez), que propôs o "princípio vital" como causa irredutível dos fenômenos biológicos; e Xavier Bichat, que definiu a vida como o conjunto de funções que resistem à morte, fundando a histologia ao identificar que as propriedades vitais residem nos tecidos. O declínio do vitalismo na ciência é analisado criticamente, demonstrando que episódios como a síntese da ureia por Wöhler ou a disputa entre Needham e Spallanzani são frequentemente utilizados como "espantalhos" didáticos. Na realidade, o enfraquecimento da vertente científica ocorreu pelo avanço da explicação físico-química e pela introdução do conceito de meio interno por Claude Bernard. Contudo, o vitalismo manteve vigor na filosofia do século XX, especialmente com Henri Bergson e seu conceito de élan vital, e Georges Canguilhem, que defendeu a normatividade vital como a capacidade intrínseca da vida de estabelecer seus próprios valores e buscar a cura. Conclui-se que o estudo do vitalismo é essencial para o ensino de Biologia, pois permite problematizar conceitos como organismo, saúde e a própria definição de vida, integrando a ciência a contextos culturais e históricos mais amplos.
Palavras-chave: Animismo, Força Vital, Mecanicismo, Henri Bergson, Georges Canguilhem
Abstract
The theme of vitalism is often neglected or presented in a simplified manner in academic and educational contexts of the Portuguese language, often appearing as a “caricature” of scientific error overcome by isolated experiments. This qualitative, exploratory, historiographical study proposes an analytical synthesis of the historical and philosophical development of this concept, with a view to assisting teacher training and the teaching of biology. Vitalism is characterized as an “umbrella concept” that encompasses several theories that postulate the existence of non-material entities — such as the body’s self-healing capacity, as described by Hippocrates, or the Aristotelian soul — to differentiate living beings from inanimate matter. Historically, it consolidated itself as a reaction to Galilean-Cartesian mechanism, which reduced the organism to a mechanical or hydraulic system capable of mathematical measurement. The research highlights fundamental exponents such as Georg Ernst Stahl, who introduced animism as the driving force of the body; the School of Montpellier (Bordeu and Barthez), which proposed the “vital principle” as the irreducible cause of biological phenomena; and Xavier Bichat, who defined life as the set of functions that resist death, founding histology by identifying that vital properties reside in tissues. The decline of vitalism in science is critically analyzed, demonstrating that episodes such as Wöhler's synthesis of urea or the dispute between Needham and Spallanzani are often used as didactic “scarecrows.” In reality, the weakening of the scientific aspect occurred due to advances in physical chemistry explanations and the introduction of the concept of the internal environment by Claude Bernard. However, vitalism remained strong in 20th-century philosophy, especially with Henri Bergson and his concept of élan vital, and Georges Canguilhem, who defended vital normativity as the intrinsic capacity of life to establish its own values and seek healing. It can be concluded that the study of vitalism is essential for the teaching of biology, as it allows us to problematize concepts such as organism, health, and the very definition of life, integrating science into broader cultural and historical contexts.
Keywords: Animism, Vital Force, Mechanism, Henri Bergson, Georges Canguilhem
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