EDUCAÇÃO APÓS A INTRUSÃO DE GAIA: E O QUEER TEM A VER COM ISSO?

Thiago Ranniery

Resumo


Neste texto, inspirado pela formulação de Isabelle Stengers sobre a intrusão de Gaia, busco explorar relações entre política de currículo, ecologia política e crítica queer em nossa era chamada de Antropoceno. A partir de intercessores da literatura e do teatro, argumento, por um lado, a possibilidade de existir experiência educacional por fora da retórica do primado do sujeito humano como projeto de formação do currículo no passo que, para tanto, insisto que necessitamos de práticas queers que nos desloquem das formas habituais de pensar à política, ecologia e natureza. Mobilizo, assim, a imaginação cosmoecológica da ética bicha para perturbar as histórias esmagadoras do gêmeo tributário do sujeito da educação, o puído antropocentrismo, que, vai não vai, surge revigorado, confundido com a própria matéria do currículo. Ao fim, sugiro que política curricular está mais para um experimento de estar mundo, de criar mundos, de encontrar um mundo, de encontrar modos de estar em circuitos de forças de transfigurações alquímicas; uma ecologia estético-política em que se desdobram trajetórias muito além – ou mesmo aquém – dos modelos humanistas de reconhecimento ou dos registros hiperintelingíveis usuais da normatividade e do Estado.


Palavras-chave


Cosmoecologia queer; Antropocentrismo; Política de Currículo; Ecologia Política; Intrusão de Gaia.

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DOI: https://doi.org/10.23925/1809-3876.2019v17i3p1436-1457

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